Enchente de amor e humor na celebração d'Os Quatro e Meia na MEO Arena

Amor, humor, canções, novidades e um convidado especial. Assim foi a noite dos seis amigos de Coimbra na ampla sala lisboeta.

Não é a primeira vez nem será a última que Os Quatro e Meia esgotam uma sala tão ampla como a MEO Arena. Já o fizeram em 2023, repetiram a proeza esta sexta-feira e vão voltar a fazê-lo neste sábado, Dia dos Namorados. Aliás, o primeiro concerto a ser marcado foi o de hoje, mas, tendo em conta que a sala esgotou, o grupo teve de adicionar uma data extra para não deixar ninguém de fora.

O sexteto – composto por Tiago Nogueira, Ricardo Liz Almeida, Mário Ferreira, João Cristóvão Rodrigues, Rui Marques e Pedro Figueiredo – enche salas gigantes e insufla de alegria os corações dos fãs quando energiza no palco as canções que praticamente toda a gente já sabe de cor. 

Os seis amigos, que se conheceram nos corredores da vida académica de Coimbra, usaram a MEO Arena para alargar a roda a amizade aos milhares que encheram o espaço. E amigos de diferentes gerações, o que é bonito de se ver. O formato acolhedor de 360º aproximou ainda mais o público das canções que o grupo foi buscar, com orgulho, ao cancioneiro que - repartido em quatro partes - celebrou o percurso que soma mais de dez anos. 

A intenção foi a de fazer uma travessia praticamente desde o ponto de partida até ao que está por chegar. Com um pé no próximo álbum, a banda desembrulhou duas novidades como 'Miradouro' e 'Contra Mim'. No final do concerto, que se estendeu ao longo de cerca de duas horas e meia, um anúncio para anotar na agenda: em breve, Os Quatro e Meia vão celebrar dez anos do álbum de estreia, "Pontos nos Is", num circuito que vai passar por dez cidades portuguesas. Mas isso é para depois. Ontem e hoje o que se celebra é o amor. E, tendo em conta os corações que decoram por estes dias o mês de fevereiro no calendário, o sexteto, que não se considera particularmente um grupo de gente muito romântica, quis estar à altura das maiores expressões de afeto que estes dias pedem. 

Os seis rapazes tentaram tudo, recorrendo sobretudo ao humor, para transformar aquele espaço "na arena do amor". Fizeram-no com recurso a pequenos filmes humorísticos, que foram sendo intercalados com as canções, e com uma surpresa (cómica e caótica) no final que juntou no palco um urso gigante, um casal da plateia, pétalas de rosas, um balão gigante na forma de coração e até um cupido improvisado e de fraca pontaria, cujo papel calhou a Tiago Nogueira.

Imagens de Sebas Ferreira

Eram 9 e 40 da noite quando o burburinho na sala dava a entender que o palco montado no centro da arena estava prestes a encher-se de vida. Vestidos com tons escuros, Os Quatro e Meia entraram, ordeiramente, no palco oval, debaixo de um sonoro aplauso, para assumirem os respetivos postos. Estando o palco no centro, os que podiam foram-se movendo, quase coreografados, ao longo do concerto para que pudessem chegar a toda a gente.   

'Segue o Coração' é a primeira a ser escutada na sala. Logo depois, o grupo "tropeça" na nostalgia e avança com 'Se Eu Pudesse Voltar', com o som do violino a orientar a canção para um lugar de intimidade com o público e com a autorreflexão. 

A genica, elevada a seis, energiza 'P’ra Frente é Que é Lisboa' e mete o público, ainda sentado, a balançar. Ainda que limitados pelas cadeiras, os milhares libertavam-se como podiam, por enquanto, nos aplausos e na cantoria. Transição para 'Guarda a Tua Alma' e depois algumas palavras dirigidas ao mar de gente que ali estava. 

"Muito obrigado a cada um de vocês", disse Tiago Nogueira. "Sabemos que os tempos não estão fáceis. Estão um pouco inóspitos", acrescentou, alargando a clara turbulência dos nossos dias ao país e ao mundo. "Obrigado por terem tirado tempo para estarem aqui. Queremos que se sintam em casa. Berrem, cantem em plenos pulmões. Se há coisa que nos une a todos é a música", continuou. 'Terraplanismo' vem a seguir com o condão de exultar a tal ideia de união. Erguem-se as lanternas dos telemóveis e as vozes do público ecoam, juntas, pela sala.

Para exultar depois o urgente romantismo que se pedia numa noite de amor, Tiago Nogueira apresenta 'Miradouro', canção que ontem teve honras de estreia absoluta. Antes, para elevar o nível do romantismo ao expoente máximo, a banda chama o saxofonista Samu (João Samuel Silva) que, numa das pontas da arena, toca a balada ultra romântica 'Careless Whisper', de George Michael, episódio que se foi repetido ao longo do espetáculo.

'Canção do Metro' voltou a ter as vozes do público a acompanhar o coletivo e em 'O Tempo Vai Esperar' as luzes da arena acenderam-se para que a roda gigante da amizade ficasse a descoberto. Sendo o amor tão lato e abrangente, 'Minha Mãe Está Sempre Certa' foi dedicada às mães. E, mais à frente do concerto, 'Meu Amor, Dorme Bem' aos pais. 

"Andamos com saudades. É uma coisa legítima", desabafa Tiago Nogueira, fazendo contas ao tempo que já levam como banda. É então que o vocalista e guitarrista fala do álbum de estreia e confessa "que não há amor como o primeiro". A banda pega na deixa para oferecer um medley de "Pontos nos Is", com passagens por 'Um Sim P’ra Regressar', 'Chorinho' e 'Já Estou de Regresso, Amor'. 

Eis então que Os Quatro e Meia chamam ao palco um convidado especial. Não fizeram a coisa por menos. Se é para cantar sobre amor, porque não subir a fasquia e cantar um poema de amor de uma das maiores a fazê-lo,  Florbela Espanca. Foi nesta altura que Luís Represas se juntou ao grupo para uma versão de 'Perdidamente' (dos Trovante) – versão essa que faz parte de "Florbela" - um novo disco-tributo que conta com participação de vários artistas e que recria 14 sonetos da poetisa. No final do momento, Tiago Nogueira gaba a sorte de poderem ter este tipo de cruzamentos com pessoas que para eles são referências musicais e ainda exclama: "ainda por cima trouxe vinho!". 

O cancioneiro dos seis amigos ainda guarda umas tantas até ao final do concerto. 'Tiques de Rico', 'Amanhã', 'Pontos nos Is' e 'Contra Mim' (mais uma novidade) saltam do alinhamento. Para o quase final, Os Quatro e Meia deixam uma sucessão de êxitos radiofónicos, 'A Terra Gira', 'Olá, Solidão', 'Meu Amor, Dorme Bem' e 'Na Escola'.

"Estamos mesmo a chegar ao fim. E estamos eternamente gratos por nos receberem tão bem", diz Tiago Nogueira, com o som do piano a servir de tapete. O espetáculo acaba em festa, com a arena levantada e possuída pelo espírito de bailarico que foi avivado pela energia de 'Baile de São Simão'. 'Sentir o Sol' fica para o fim, com Samu – o saxofonista que "andava meio perdido" no meio da arena – finalmente a brilhar no palco.