Entre pó e tralhos, os festivais arrancaram em Portugal. E a Elsa nem estava no cartaz

Em altura de festivais de verão, recuamos aos tempos em que estavam a dar os primeiros acordes em Portugal. Não faltam histórias insólitas.

Verão é sinal de sol, praia, férias, mas também de festivais. Em Portugal, nem sempre tiveram as condições atuais e no começo houve pó, muitos tralhos e um nome que ficou para eternidade: Elsa. São histórias contadas por Gonçalo Palma e Sílvia Mendes, jornalistas especializados em música, numa conversa com o jornalista Miguel Laia.

Sílvia ainda não era jornalista quando foi ao seu primeiro festival, o Sudoeste, na Zambujeira do Mar, em 1997: “Não havia muita água. Os chuveiros eram poucos”. “Eram só oito chuveiros”, interrompe Gonçalo, acrescentando: “Eu sei porque era a grande novidade na altura quando anunciaram que ia haver vários chuveiros”. Gonçalo também não era jornalista quando foi ao seu primeiro festival, o Vilar de Mouros, em 1996.

Conversa com Sílvia Mendes e Gonçalo Palma

Quando os festivais arrancaram em Portugal também não havia luz à noite e era um verdadeiro desafio encontrar a tenda onde os festivaleiros pernoitavam. “No Sudoeste tivemos de colocar papel higiénico à volta das tendas para saber onde estávamos a dormir”, conta Sílvia. A propósito desta dificuldade, Gonçalo recorda uma história insólita: “Lembro-me de abrir tendas que não eram as minhas e, numa das vezes, uma pessoa do Norte, disse-me ‘Epá, estás um bocado perdido’”.Nesta época, o pavimento dos recintos dos festivais também não era o melhor. Sílvia conta que o pó era tanto que ao final do dia os festivaleiros tiravam “macaquinhos do nariz pretos, muito pretos”. “Passávamos a mão pela cara e a mão ficava preta”, afirma Gonçalo que recorda uma história: “Uma vez, quando fomos levantar pulseiras, estava uma fila enorme com pessoas do Norte que disseram a brincar: ‘O pessoal do Sul é mesmo pesado porque é pó por todo o lado’”.

Da esquerda para a direita: Sílvia Mendes (jornalista), Ruben Viegas (fotógrafo) e Gonçalo Palma (jornalista)Encontrar amigos também era um desafio, de tal forma que deu origem a uma história que ajudou a eternizou a expressão “Oh Elsa!”. O momento aconteceu no Sudoeste em 1998 e transformou-se numa espécie de cântico, usado ainda hoje nos festivais. “Eram várias amigas e quando estão a ir embora não encontram a Elsa e começam a gritar pela Elsa. O pessoal, como tinha bastante humor, começou a responder, tudo em eco, ‘Oh Elsa!’, meio a ajudar, meio no gozo”.

Sílvia Mendes (jornalista) em trabalho num festival de verãoEverything Is New TVEste era também um tempo em que não havia stands de marcas. Por isso, as diversões, para além dos concertos, eram outras. “Em Paredes de Coura, a ponte dos tralhos [nome pelo qual era conhecida a ponte] ganhava humidade à noite. Chegávamos a perder concertos para ver as pessoas a cair. Ninguém se aleijou, atenção”, esclarece, entre risos, Sílvia. Gonçalo também se recorda desta ponte, mas por outro motivo: “A ponte tinha umas fendas por baixo e era disputada sobretudo pelos rapazes que se enfiavam debaixo da ponte para verem as mulheres a passar por cima”.

No que toca a bebidas alcoólicas, Sílvia recorda uma prática usada pelos festivaleiros no Sudoeste: “Era muito engraçado, porque íamos buscar garrafões de vinho à Zambujeira do Mar, íamos a pé, debaixo do sol, tudo pelo vinho”. A jornalista também se lembra de outra prática usada no Festival Paredes de Coura: “Atávamos uma corda às cervejas e metíamos as cervejas dentro do Rio Taboão para as arrefecer”.