Erin Doom: "A cultura de cada país leva a apreciar e sentir emoções diferentes"
A autora italiana visita a Feira do Livro de Lisboa no lançamento do terceiro livro, 'Como uma Cicatriz'.
Erin Doom é o pseudónimo da autora italiana Matilde, brinca que se dissesse ao seu “eu” criança que escrever seria a sua profissão responderia que “era louca”. Em 2022, atingiu o topo das tabelas com Fabricante de Lágrimas, que vendeu mais de meio milhão de exemplares e foi traduzido em 26 línguas.
Foi durante a licenciatura em Direito que “a escrita a encontrou” através do Wattpad – um site online onde são publicadas histórias. Os livros Como cai a neve (2018) e Fabricante de Lágrimas (2018) foram iniciados na plataforma. É com o segundo que vence o prémio Watty (2019) e adapta o livro do digital às páginas (2020).
Como é o processo de passar a história de Wattpad (site online) para as páginas?
Foi uma escrita muito espontânea, muito natural, com um fluxo inspirador muito forte.
Claro que o processo depois tem diversos graus de trabalho… Há a parte de escrita livre e espontânea. Depois, obviamente, o livro passa através de uma fase de reelaboração, onde efetivamente se pega na história, se tenta entender se há lacunas, se tudo funciona, a coerência dos personagens do início até ao fim. A revisão profissional com um editor e, finalmente, o livro é publicado pela Editora.
Ter começado pela publicação online tornou mais fácil lidar com as opiniões que surgiram quando Fabricante de Lágrimas se tornou num bestseller?
Realmente ajuda muito, conseguimos entender quais podem ser os pontos fortes, as críticas ou até mesmo as reações que a própria escrita suscita no público. É como se fizesse uma prova e pudesse, de certa forma, corrigir os erros.
Como uma cicatriz foi o primeiro livro escrito já com o papel em vista, sem uma publicação prévia online. A forma como foi escrito é diferente?
É diferente, é um livro que não passa pela publicação online, havia um pouco de medo... Apesar de ser o modo “tradicional de publicar”, era a primeira vez então foi assustador no início. Além disso, quando os capítulos são lidos antes online as pessoas comentam se estão a funcionar bem, a fazer um bom trabalho, se gostam…
Depois há o ponto de vista da escrita: quando começava online raramente me influenciava pelo que pensavam. Sempre segui um pouco, no bem e no mal, o que era a minha vontade. Em algumas coisas, onde se sabe que uma determinada descoberta ou acontecimento levou a uma reação joga-se de uma maneira diferente, demora-se um pouco mais. Obviamente, na publicação tradicional não acontece.
Os livros foram transcritos para dezenas de idiomas. Há uma diferença entre os leitores das várias partes do mundo?
Em certos aspetos, são similares nas coisas que apreciaram. Por outro lado, são efetivamente muito diferentes: dão atenção a detalhes diferentes. A cultura de cada país leva a apreciar e sentir emoções diferentes, a dinâmica é diferente. Foi bom porque “enfrentá-las” foi interessante.
O terreno comum foi o modo como a história foi contada - o estilo, um pouco poético, que a caracteriza tanto. Mas a base é o relacionamento entre os dois protagonistas. Digamos, é um elemento comum em todo o mundo.
No caso do Fabricante de Lágrimas que é seguido pelo filme, a nível internacional tem um impacto muito forte. Acaba por ser um conjunto das duas coisas.
Sobre o filme, como é ver o projeto que começou pelas páginas chegar às telas?
Quando recebi a notícia de que seria feito um filme sobre o meu livro foi chocante.
Tinha muito medo… Para um autor ver o próprio projeto através dos olhos do outro assusta. Há um fantasma… O modo como se imaginou nunca será aplicado à realidade. Quando escrevi o livro, imaginei os personagens e depois vê-los no filme, por exemplo na cena do escritório.
Foi uma experiência que me ensinou muito, tanto para o bem quanto para o mal. É algo enorme. Ver a aceitação do público ao livro passar a um filme.
O livro do Fabricante de Lágrimas passa-se nos Estados Unidos, mas na adaptação ao cinema muda o set para Itália. A mudança de localização deve-se a uma questão logística ou Roma passou a fazer mais sentido?
A localização não muda… Apesar de ser gravado em Roma tentaram reconstruir um set que se reproduzisse a realidade norte-americana que se passa nos livros, mas com um, digamos assim.
Gravaram no Cinecittà, o estúdio italiano mais conhecido. A influência vê-se, claro, há um toque de italianidade.
Escolhe sempre os EUA para a localização das obras. Porquê?
Quando eu era muito pequena, viajava muito, com os meus pais. Nova York é a primeira cidade que me lembro de visitar. Quando lá cheguei aos seis anos, vi os grandes edifícios e fiquei embasbacada pela imensidão. Acredito que um pouco dessa magnitude, dessa grandeza, ficou dentro de mim.
Ambiento as minhas histórias fora de Itália, sobretudo nos EUA, porque são realidades distantes da minha. Isso permite-me viver através da escrita, porque como autora eu vivo muito através disso. Eu mesclo-me quando escrevo, como se aquela experiência fosse um pouco minha. Até mesmo ao nível da trama e do que acontece dentro dos livros…
O que os leitores podem esperar para o futuro?
Enquanto autora, o que me dá prazer é tratar sempre de situações, emoções e dinâmicas diferentes. Como autora, viver cada livro significa, obviamente, retornar por vezes, mas é quase uma necessidade poder mudar sempre.
Sobre o Como uma cicatriz, a saga de Stigma, é uma história muito forte com protagonistas diferentes – mais maduros - do que os romances precedentes, porque eles são ambos muito explosivos.
Será um pouco difícil, eles vão sofrer... Mas espero conseguir dar um futuro esperançoso.
O conceito da esperança é muito importante para mim e que espero conseguir trazê-lo para os meus projetos futuros.
A autora Erin Doom está na Feira do Livro de Lisboa este sábado às 16h00.
