Escritores alertam para ameaças à liberdade literária na abertura de encontro em Lisboa
Lídia Jorge defendeu que “o cancelamento, a exclusão, o banimento tribal apenas por identidade cívica” devem ser combatidos no universo literário"
A defesa da liberdade de criação e do diálogo face à polarização, à censura e ao autoritarismo marcou hoje a abertura dos Dias da Literatura de Lisboa, com intervenções de Lídia Jorge, Alberto Manguel, Juergen Boos e Stefan Weidner.
A necessidade de preservar a literatura como espaço de encontro entre diferentes experiências, identidades e posições políticas atravessou os discursos dos quatro oradores, que alertaram para ameaças à liberdade intelectual, mas apresentaram perspetivas distintas sobre o cancelamento, os boicotes culturais e a responsabilidade de quem detém o poder.
Lídia Jorge : "devemos ser plurais como as folhas dos livros"
Na abertura do encontro “E agora? Congresso Internacional do Setor Literário em Tempos de Agitação Política”, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, a escritora Lídia Jorge defendeu que “o cancelamento, a exclusão, o banimento tribal apenas por identidade cívica” devem ser combatidos no universo literário.
“Devemos ser plurais como as folhas dos livros”, afirmou a autora, para quem a literatura constitui um espaço onde o diálogo continua a ser possível, mesmo quando as sociedades parecem incapazes de encontrar formas de entendimento.
Numa intervenção intitulada “A Porta da Poesia”, Lídia Jorge alertou para a ameaça de um “paradigma pós-literário”, marcado pela intensificação dos conflitos e pela perda da capacidade de reconhecer a experiência do outro, que considera essencial à literatura.
A escritora evocou a polémica desencadeada em 2021 em torno da tradução do poema “The Hill We Climb”, de Amanda Gorman, quando foi questionada a legitimidade de tradutores com uma identidade racial diferente da autora norte-americana.
Os escritores e as divisões políticas
Reconhecendo que a valorização do lugar de fala pode contribuir para compreender a diversidade humana, contestou que a origem ou a identidade sejam transformadas numa limitação à criação literária: “Conceber o berço de cada um como uma prisão de onde não se pode sair é o oposto gritante da proposta literária”.
Para ilustrar essa capacidade de diálogo, Lídia Jorge evocou escritores russos e ucranianos, como Ludmila Ulitskaya e Andrei Kurkov, e autores de povos em conflito no Médio Oriente, como o libanês Elias Khoury e o israelita David Grossman, cujas obras convivem lado a lado nas estantes, apesar das divisões políticas que separam os seus povos.
A autora estendeu esse paralelo à literatura sobre a chamada guerra colonial, colocando as obras dos moçambicanos Mia Couto e Paulina Chiziane em diálogo com as da escritora portuguesa Dulce Maria Cardoso, que viveu em Angola, e as do angolano Pepetela com as de António Lobo Antunes e João de Melo, que combateram em lados opostos do conflito.
Alberto Manguel: governos procuram imitar influência cultural
Também Alberto Manguel, presidente dos Dias da Literatura de Lisboa, a quem coube a primeira intervenção, atribuiu à literatura um papel fundamental na preservação da capacidade crítica dos cidadãos, alertando para o enfraquecimento das instituições culturais e educativas e para a desvalorização do conhecimento.
Numa comunicação intitulada “Bem-vindos ao circo”, em que comparou os festivais literários aos espetáculos de circo e magia da sua infância, o escritor afirmou que “a capacidade dos cidadãos para questionar quem está no poder tem sido deliberadamente enfraquecida”.
Segundo Alberto Manguel, determinados governos procuram limitar a influência de bibliotecas, instituições educativas e festivais literários, por reconhecerem que a ignorância facilita a submissão dos cidadãos ao poder político.
“Hoje, em quase todas as sociedades, a capacidade dos cidadãos para questionar quem está no poder tem sido deliberadamente enfraquecida. Para a enfraquecer, certos governos têm procurado acabar com instituições culturais como bibliotecas, cursos de direitos humanos e festivais do livro, pois há muito que sabem que os ignorantes são mais facilmente vergados à sua vontade”, afirmou.
Juergen Boos: crescente autocensura no meio cultural
Manguel criticou igualmente movimentos anti-intelectuais que, por vezes invocando princípios de igualdade e justiça, têm “ajudado ditadores por todo o mundo, impondo toda a espécie de censura, limitando o acesso à educação […] e introduzindo ferramentas que já não precisam de intervenção humana para realizar tarefas humanas”.
Na sua perspetiva, os cortes no financiamento da cultura e do ensino e a substituição da liberdade intelectual “por uma sede insaciável de riqueza” enfraquecem a capacidade de raciocínio e a imaginação crítica dos cidadãos, favorecendo a disseminação de notícias falsas e a concentração de poder.
O bibliófilo canadiano, residente em Lisboa, alertou que, nestas circunstâncias, “os governos populistas acumulam poder quase sem contestação”, defendendo os festivais literários como espaços de partilha do conhecimento e desenvolvimento da empatia.
A pressão política e social sobre a literatura foi também abordada pelo diretor da Feira do Livro de Frankfurt, Juergen Boos, que advertiu para uma crescente autocensura entre escritores, editores e organizadores de eventos culturais.
Juergen Boos considerou que o espaço para escrever, publicar, traduzir e ler está a diminuir em vários países, devido a pressões provenientes de governos autoritários, movimentos de direita, intolerância religiosa e ativistas cujas convicções morais restringem o debate público.
Essas pressões nem sempre se traduzem em proibições explícitas, manifestando-se frequentemente em decisões antecipadas de não publicar determinados livros, não convidar alguns autores ou evitar temas controversos, alterando progressivamente os limites daquilo que pode ser dito e lido, explicou.
Salman Rushie e as obras que desafiam convicções
O responsável evocou o caso de Salman Rushdie, autor de “Os Versículos Satânicos”, para questionar se uma grande editora internacional publicaria atualmente um romance semelhante e se o setor editorial demonstraria hoje a mesma solidariedade para com o escritor.
A liberdade de publicação não é posta à prova pelos livros que todos aceitam, mas pelas obras que provocam desacordo e desafiam convicções, sublinhou.
O responsável abordou também o tema da inteligência artificial, considerando que a sua utilização no setor editorial deve ser acompanhada de regras de proteção da propriedade intelectual e de remuneração de autores, tradutores, ilustradores e editores.
A instrumentalização política da literatura esteve também no centro da intervenção do escritor e ensaísta alemão Stefan Weidner, que alertou para a transformação dos festivais literários em espaços condicionados pela polarização ideológica.
Os primeiros Dias da Literatura de Lisboa decorrem até sexta-feira, na Fundação Calouste Gulbenkian, reunindo escritores, editores, tradutores e responsáveis por festivais e feiras do livro internacionais, num programa que combina o congresso dedicado ao futuro do setor com leituras e conversas abertas ao público.
A iniciativa é organizada pela Bebelplatz e.V. e pela Word Alliance, sob a presidência de Alberto Manguel e a direção de Ulrich Schreiber.
