Eunice Muñoz: "O teatro escolheu-a e ela escolheu viver para o teatro"
Lídia Muñoz, neta e atriz, recorda as décadas de carreira de Eunice.
Eunice Muñoz esteve mais de oitenta anos pelos palcos portugueses. Começou a entrar em cena aos cinco anos com a companhia da família. Dos teatros à televisão, tornou-se um rosto familiar para várias gerações com papéis como Anna Fierling, em ‘Mãe Coragem’ (1986). Lídia Muñoz, neta e atriz, recorda Eunice.
Como era Eunice Muñoz?
Costumo dizer que a Eunice era um bocadinho de toda a gente, só que eu sentia-a como só minha. A minha avó era de um país inteiro. Toda a gente a conhecia, toda a gente tinha um bocadinho dela na sua vida, porque a viu em espetáculos, teatro, cinema e televisão.
Toda a gente tinha um bocadinho dessa Eunice, mas eu tinha a minha avó Eunice, a minha melhor amiga, a minha confidente. Era uma mulher extraordinária, que deixa muita saudade, era muito generosa para os seus amigos, para a sua família, para mim. Era a maior do mundo.
A melhor atriz do mundo e a melhor mulher do mundo. Para mim era tudo, a minha avó.
Sente que Eunice foi escolhida pelo teatro ou escolheu fazer teatro?
Acho que foi um bocadinho as duas coisas. Foi escolhida pelo teatro porque tinha um dom, que eu acho completamente sobrenatural. Era genial. Nunca conheci uma atriz como a minha avó. Estava acima de uma grande atriz. Eu trabalhei com ela, tive essa oportunidade felizmente, e de ver de perto essa genialidade.
Acho que realmente o teatro escolheu-a e ela escolheu viver para o teatro. Acho que foi uma relação que criaram os dois, por assim dizer, e foi muito justa tanto para o teatro como para ela porque ela amava o teatro e eu tenho a certeza que o teatro a escolheu para ser esta mulher do teatro do nosso país.
Teve a oportunidade de dividirem o palco na última peça que Eunice fez. Como foi?
Trabalhei duas vezes com a minha avó em cena. No ‘Comboio da Madrugada’, em 2011, que foi extraordinário. Tinha um papel em que era cómica, trágica, foi encenada por Carlos Avilez. Foi o meu maior choque, porque realmente fazia aquilo de uma forma extraordinária e foi um espetáculo que vai marcar para sempre a minha vida.
Na última, foi diferente. Estávamos a fazer a ‘Margem do Tempo’ e corremos o país com o espetáculo. Houve um dia em que íamos fazer o espetáculo em Évora, ainda por cima o palco é assim meio inclinado. Eu estava muito preocupada, já estava muito grávida e já foi em julho. Estamos a arranjar-nos para fazer o espetáculo, olho para a minha avó e começo a ver pela cara dela que não se está a sentir bem. Disse assim “Então, avó, passa só uma coisa?” e ela disse “Não, não, não, está tudo bem”. Continuámos a arranjar-nos e eu continuei a perceber… Conhecia-a tão bem, vivi 15 anos da minha vida com ela e conheço-a a vida toda. Continuei a perguntar-lhe “Tu não estás bem, avó. Vá, explica-me, o que é que se passa?” ela lá disse que “Estou um bocadinho tonta”. Já estávamos próximos de começar o espetáculo, vimos se havia algum médico ou enfermeiro no público. Estavam lá duas enfermeiras que ajudaram. Pensei “Bem, ela está muito tonta, está a sentir-se mal, não vamos fazer espetáculo”. Já estava garantida com isso. Estava já vestida, mas estava descalça.
Foi a única vez que eu me esqueci que aquela pessoa era a minha avó e eu vi só a Eunice, vi só a atriz e respeitei. De repente, virou-se e disse “Tu estás descalça porquê? Vai te calçar e vamos entrar em cena agora”. Eu calei-me, anui, calcei os meus sapatos e fomos para a cena. Fez aquele espetáculo que foi o melhor espetáculo que nós fizemos. Foi muito emocionante, porque nós estávamos com a atenção muito mais ativa porque ela se estava a sentir mal. No espetáculo éramos só as duas, o meu corpo também estava de maneira diferente, mas isto de quem viu de fora, de quem conhece muito bem o espetáculo, foi o melhor espetáculo fizemos.
Entretanto, no final foi para o hospital, estava mesmo a passar muito mal. Mas fez aquele espetáculo e foi impressionante.
Há aqui este limiar entre aquilo que era a avó e aquilo que era a atriz.
Exatamente, porque a minha relação com a minha avó era muito próxima... Eu falava com ela, como falo com uma melhor amiga. Tinha uma relação mesmo muito próxima com ela. Tratava-a por tu, dormíamos na mesma cama, sempre foi a minha companheira para tudo, então eu tinha muito à vontade com ela. Eu ralhava com ela, eu chateava-me com ela quando subia escadotes com 90 anos…
Naquele dia foi estranho, porque eu, Lídia neta, tinha dito “Não, não vamos fazer espetáculo, desculpa lá. Tu não estás bem, eu não vou fazer espetáculo contigo”. Mas ali eu só vi a atriz, eu pensei “Epá, a Eunice Muñoz está-me a dizer para ir para a cena, claro que vou”. Esqueci-me completamente que era a minha avó. Foi o único momento e o momento que eu guardo para sempre, porque marcou-me muito.
Havia o peso de ser uma das maiores atrizes portuguesas
A minha avó sentia este peso, mas eu acho que sempre foi muito positivo. Sentia que as pessoas gostavam dela, não era bem um peso. As pessoas gostavam dela, acarinhavam-na na rua. A minha avó gostava muito que as pessoas a abordassem, que falassem com ela, que lhe dissessem o que gostavam dela.. Às vezes eu saía-se com: “Ah, não sei como é que aquela senhora me conhece”. Os grandes não sabem que são grandes.
Enquanto neta era diferente?
Desde sempre que sabia que o nosso país conhecia a minha avó, que sair com ela era diferente do que sair com o meu pai. Eu sempre me apercebi e também me apercebi que um dia, quando fosse embora, ia ser pior. Porque toda a gente ia saber, toda a gente se ia lembrar, não é uma avó normal.
Isso também foi pesado na hora de partida dela, toda a gente sabe que é a minha avó, que se foi embora e que era a minha maior companheira. Realmente a minha vida nunca mais vai ser a mesma sem ela.
Houve uma certa influência para começar a atuar?
Claro que sim. A minha avó fez teatro numa altura muito diferente da minha e nessa altura quando eu tinha dois anos a minha avó levava-me sempre para o teatro - agora é uma coisa que não é muito bem vista levarmos os nossos filhos para o nosso trabalho e para o teatro, não gostam muito. Felizmente a minha avó viveu numa altura em que me levava para o teatro e eu ficava ali de lado a ver. Depois sabia que tinha de me descalçar para entrar no palco, porque o palco é um lugar sagrado. Então eu passei muitas horas da minha infância no teatro a ver a minha avó, que era uma coisa que me fascinava, os fatos… Vi-a a fazer a Madame com a Eva Vilma, a Casa do Lago… Era muito pequenina, mas eu lembro-me de a ver.
Por isso, quando comecei a pensar no que queria fazer decidi que tinha de ir para o teatro, porque é a única coisa que me fascina e que realmente eu sentia muita emoção naquele espaço. Adoro o teatro… Não gosto só de estar no palco, eu gosto de estar cá fora, faço muito trabalho de ponto. Nem sequer é assim tão importante ser atriz, eu não sou minha avó. A minha avó era mesmo uma atriz, não podia chegar a um teatro e fazer outra função. Era a vocação, era o dom dela. Eu não, eu amo o teatro, sou feliz dentro de um palco ou fora dele desde que esteja num teatro. Nisso nós somos muito diferentes, mas claro que foi a minha avó que me trouxe esta paixão pelo teatro.
Eunice começa a fazer teatro muito nova. Como era estar em palco em tempos de censura?
Foi muito mau. A minha avó contava que começavam a estudar textos, ensaiavam durante meses um espetáculo e depois era censurada a peça. Aconteceu várias vezes, cortavam os textos como queriam. Chegou a ensaiar vários espetáculos que não estrearam.
Depois dessa altura começou a ser muito bom para o teatro. A minha avó fez um grande sucesso com a ‘Mãe Coragem’ em 1986. Fez grandes êxitos.
A noção de um antes e de um depois era uma coisa que estava presente?
Estava presente, apesar de a minha avó sempre ter tido muito trabalho. Sentiu que não foi muito afetada com isso. Só parou de trabalhar aos vinte e poucos anos, teve quatro anos a trabalhar numa loja de cortiças, a fazer outras coisas…
Cansou-se do teatro e no regresso dela, já era tão conhecida que no Trindade faziam filas e filas para a voltar a ver em cena. Isso não é real, nem sequer é uma coisa dos nossos tempos.
A falta de apoio às artes era conversada?
Em casa, claro que sim. Muito conversada, é muito injusto, ficamos sempre para trás. A minha avó sempre me disse “Olha, eu fico muito contente que tu sigas isto, mas é muito difícil. Está numa altura muito difícil. É muita gente a lutar pelo mesmo”.
Não há dinheiro, não se apoia a cultura, não se apoia o teatro. Falávamos muito nisso, foi inevitável.
Ser atriz costumava ser mal visto, Eunice começa a carreira aos treze anos. Esse julgamento afetou-a?
Não sentiu nunca isso… Dizia que sempre sentiu o amor das pessoas, o carinho das pessoas. Nunca se sentiu mal vista, nunca se sentiu maltratada. Muito pelo contrário. Houve uma altura quando ela saiu do Teatro Nacional que o correu muito mal, mas de resto sempre se sentiu muito amada na sua profissão e naquilo que fazia.
Era tão forte o outro lado que, tirava qualquer crédito a tudo o que fosse mau. A minha avó viveu mesmo muito feliz com a sua profissão. Queria trabalhar até morrer e trabalhou.
Isso é uma coisa que também me aconchega. Eu sei que não queria morrer, não se queria ir embora, mas aconchega-me o facto de ter sido tão acarinhada e tão amada e tão feliz naquilo que fazia. Sinto-me privilegiada de ter passado estes últimos anos da vida com ela e de ter absorvido isso tudo.
Eunice deixou alguma coisa por fazer no teatro?
Não, acho que não. Não havia nenhuma peça, nenhuma personagem que me dissesse que tinha querido fazer.
Acho que fez tudo o que queria fazer. Mas acima disso, fez tudo o que era para ela. Isso é que é importante.
Esta entrevista faz parte do Podcast 'Revolucionárias' que pode ouvir no site da rádio ou nas plataformas de podcast.
