"Europa vai ter de se afirmar como uma potência própria se quiser garantir a vitória da Ucrânia"
Três anos depois da invasão da Ucrânia, o politólogo João Maria Jonet acredita Zelensky poderá continuar a combater a Rússia, mesmo sem o apoio dos Estados Unidos.
O apoio dos Estados Unidos à Ucrânia pode estar comprometido com o regresso de Donald Trump à Casa Branca. A aproximação dos Estados Unidos à Rússia não é, no entanto, uma surpresa.
Sim, não é uma surpresa para quem acompanha a carreira política de Donald Trump, o apoio às posições de Vladimir Putin. Aliás, esse apoio foi investigado no famoso relatório Mueller, sobre o eventual benefício que os russos estariam a dar à campanha de Donald Trump contra Hillary Clinton em 2016. Desde aí, isso sempre foi um tema que condicionou Donald Trump. Nada disto é um fenómeno novo. Esta estratégia de querer ter a Rússia como aliada dos Estados Unidos, porque se rever ideologicamente no projeto de Putin e nos poderes ditatoriais, acaba por ser uma conclusão natural.
A administração Trump abre uma nova porta para a Rússia?
Sim, esta administração parece olhar para a Rússia como um potencial aliado que está a ser antagonizado sem razão. Tem alguns paralelos com a estratégia que Richard Nixon adotou nos anos 70 em relação ao Mao Tsé-Tung, querendo enfraquecer a União Soviética, fez uma aproximação à China. A administração Trump também acredita que se a Rússia passar a ser um aliado, iria enfraquecer a China. Mas isso só seria possível se a Europa estivesse alinhada com esta solução e não estivesse altamente desagradada com esta solução. Assim acaba por ser um risco porque ganhando uma peça de valor médio no xadrez mundial, os Estados Unidos arriscam-se a perder uma peça de valor maior.
Mas a Europa também está mais fragilizada, precisa realmente de maior autonomia. Há vários debates sobre a falta de financiamento na própria defesa. Nesse sentido os EUA já reafirmaram quererem diminuir a influência da NATO...
Sim, penso que falar da NATO neste momento é falar um bocadinho de uma ficção, porque o presidente dos Estados Unidos e o vice-presidente falam como se a NATO não existisse e como se não tivesse nenhuma obrigação de defender um aliado em caso de ataque por parte da Rússia. Donald Trump até já veio falar de retirar as tropas do território de vários aliados, nomeadamente, aqueles que aderiram a partir dos anos 90, que eram membros da União Soviética, como os países bálticos. Portanto, não sei se ainda há NATO, do ponto de vista prático. No ponto de vista formal, claro que há, mas do ponto de vista prático tenho algumas dúvidas. O objetivo de os países europeus e todos os países do NATO investirem no mínimo 2% do PIB em defesa vem de uma conferência em Cardiff liderada por Barack Obama, que defendia que a invasão da Crimeia pela Rússia, da Crimeia, não precisava ter acontecido se a Europa tivesse capacidade de impor respeito à Rússia. E não tem porque não investe. E não precisa de investir muito porque o facto é que a Rússia, como Obama lhe chamou na altura, é um tigre de papel, é um país com um PIB mais pequeno do que o da Alemanha, com uma população muito mais pequena que a da Europa. Foi isso que Obama avisou logo em 2014. Os europeus não quiseram ouvir e depois com o desenvolvimento do conflito e depois com a invasão em 2022, Donald Trump, como eu disse, teve a postura pró-russa nas palavras, mas pró-Ucrânia nas ações, por obrigação do Congresso, na altura. Já Joe Biden entra nesta narrativa de liga das democracias e defesa de uma ordem internacional com regras, em que a Europa se prepararia juntamente com os Estados Unidos para defender a Ucrânia. Isto começou a ser sabotado pelo Congresso, pelo Partido Republicano, logo no ano seguinte, em 2023, e agora nós o que temos é, em oposição a essa ordem das democracias de Joe Biden e a ordem internacional das regras, temos nos Estados Unidos transgressores da ordem internacional da força. Portanto, já não temos essa garantia da parte dos Estados Unidos. A Europa vai ter de se afirmar como uma potência própria se quiser garantir que a vitória da Ucrânia. Isto também é importante dizer, a Ucrânia pode sempre resistir, mesmo sem o apoio europeu, se a Ucrânia quiser resistir, mesmo que sejam em moldes de guerrilha, pode causar muitas dores de cabeça à Rússia.
Assistimos também uma distorção da narrativa por parte de Donald Trump, que quase que está a espicaçar Zelensky nesta altura.
Sim, mostra um bocadinho o mal informado que o presidente dos Estados Unidos está. A vontade de querer eleições, para além de ser um perigo de segurança e ser uma coisa pouco aconselhável durante um conflito, também não compreende bem as sensibilidades políticas na Ucrânia neste momento. A verdade é que se Zelensky perdesse as eleições não ia perder com uma posição mais moderada em relação à Rússia. Acho que o Donald Trump não percebe essa realidade porque está mal informado, está informado por pessoas incompetentes à sua volta, já só sobram os que lhe dizem que sim, já não há ninguém competente à volta dele. E, portanto, esse espicaçar de Zelensky pode ser uma má ideia se provocar eleições. Mas se não provocar, pode até ter de reforçar Zelensky junto dos parceiros europeus. Isto, quando Donald Trump é sempre, dá sempre para ver o copo meio cheio e o copo meio vazio. Por um lado, está a destruir uma ordem internacional que deu muito trabalho a criar e deu muitos dividendos estratégicos a Europa e aos Estados Unidos. Por outro, está a criar oportunidades para a Europa se separar dos Estados Unidos.
