Exposição de Graça Morais inaugurada hoje no Museu do Côa

A exposição da artista transmontana reúne obras inspiradas no período do Paleolítico.

O Museu do Côa, em Vila Nova de Foz Côa, recebe a partir desta sexta-feira uma exposição de pintura de Graça Morais, que reúne obras inspiradas no período do Paleolítico. "Mapas da Terra e do Tempo" é ponto de partida para uma exposição da artista transmontana que estará presente no museu até setembro.

A relação com a mais primitiva forma de arte, desconhecida ainda da menina que então rabiscava sobre as fragas do Vieiro, no distrito de Bragança, terra natal de Graça Morais, não só é novidade no modo de desenhar e de pintar, como tem sido, ao longo de mais cinquenta anos de vida artística, mas também fonte geradora das mais diversas pesquisas formais e pictóricas.

"Nasci numa terra, aqui perto do Côa, onde parte da aldeia só tinha fragas. Nos intervalos da escola primária e nas minhas brincadeiras de criança, gostava muito de desenhar nas fragas e tinha um enorme prazer em pegar no pedaço de telha ou numa pedrinha aguçada e fazer desenhos nessas  fragas. Isto faz parte da natureza humana e por isso que temos estes importantes vestígios no vale do Côa", disse à Lusa Graça Morais.

"Eu na minha ingenuidade de criança, gostava de desenhar nas fragas e quando começou o movimento da defesa das gravuras do Côa, fui das pessoas que me associei à causa e aos grandes defensores desta forma de arte", vincou a pintora.

No entanto, nesta exposição esta sintonia com arte do Paleolítico sobressai sobretudo no seu virtuoso desenho, visível na sobreposição de linhas e formas, na interrupção abrupta do traço ou a aglomeração dos elementos, onde a relação com as gravuras do Côa, não só salta à vista, como é transversal ao conjunto de trabalhos, alguns deles inéditos, criteriosamente reunidos para esta exposição com conjunto de cerca de 50 trabalhos, alguns deles de grandes dimensões.

"Esta minha exposição é um encontro com as gravuras paleolíticas do Côa e com esta manifestação dos primeiros artistas. Por este motivo, tentei reunir obras que em 1983, tiveram como ponto de partida certas imagens das grutas de Altamira em Espanha, ou enigmática figura, conhecida pelo ‘homem-bisonte’, encontrada na caverna de Les Trois-Frères, em França, ou a Vénus Willendorf", explicou em entrevista à Lusa, Graça Morais.

"Eu nunca visitei estas grutas, mas sempre me tocaram, de uma forma muito especial, estas pinturas e que temos a sorte de as termos connosco. Eu aprendi a olhar através de livros para a arte do Paleolítico, para a arte rupestre e fui sensualizada pelos primeiros artistas pela cor ou pelo do desenho e das manchas o que sente em alguns destes meus quadros",  enfatizou a pintora transmontana.

Como tantas das suas "geniais metamorfoses", essa invulgar representação, meio homem, meio animal, tornar-se-ia personagem de um dos monumentais cenários que realiza, em 1993, para a peça "Os Biombos", de Jean Genet, levada à cena pelo Teatro Experimental de Cascais e que agora está exposta numa das paredes de uma salas de exposição do Museu do Côa (MC).

Outros dos exemplos pictóricos expostos no MC são inúmeros, sobretudo nos trabalhos que realiza nas décadas de 1980 e 1990, particularmente das séries Mapas e o Espírito da Oliveira ou os Vieiros, que apresentou, em 1983, na XVII Bienal Internacional de Arte de São Paulo, no Brasil, e, posteriormente, nos Museus de Arte Moderna de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Os colossais telões que concebe, em 1995, para a cenografia da peça Ricardo II, de William Shakespeare, para o Teatro Nacional D. Maria II (que pela escala foi impossível apresentar nesta exposição, mas estão representados num conjunto de fotografias), são também sucedâneos das múltiplas leituras tomadas à arte ancestral do Paleolítico.

Graça Morais preferiu não destacar nenhuma destas peças que fazem parte desta exposição, contudo disse à Lusa num tom emocionado que "as peças devem estar muito contentes, porque há muitos anos que não se viam e agora estão todas juntas".

"Esta obras estavam dispersas. Algumas estavam no Brasil, outras na Fundação Gulbenkian, Ministério das Finanças e por aí fora. E estas pinturas, hoje, estão todas reunidas. Desde a década de 80 do século passado que não estavam juntas. E sinto uma especial alegria pela forma como estas peças dialogam, entre si", vincou a artista plástica.

A exposição tem a curadoria de Jorge Costa, responsável pelo Centro de Arte Contemporânea, Graça Morais, em Bragança.

Por seu lado, Aida Carvalho, presidente da Fundação Côa Parque, classificou esta exposição patente desde hoje no MC, como "impactante", justificando que a exposição “reúne um conjunto de obras que se destacam pela cor, pelos próprios desenhos, são de facto vibrantes para este museu”.

"Estes tipos de exposições são catalisadoras, sendo fundamentais para a afirmação deste projetos para afirmação do MC e da Fundação, apostar em artistas de primeira linha. Tem sido ao longo dos últimos anos, tradição privilegiar autores de arte portuguesa para as nossas salas de exposições de arte contemporânea", frisou Aida Carvalho.

(Francisco Pinto)