Entrevista aos Expresso Transatlântico que em março mostram o novo disco em Lisboa e no Porto

Enntrevista a Gaspar Varela e Rafael Matos sobre "Trópico Paranóia", disco que vai ser apresentado a 13 de março na Casa da Música e a 14 de março no Capitólio.

"Trópico Paranóia é o título do segundo longa-duração do Expresso Transatlântico, trio composto por Gaspar Varela, Sebastião Varela e Rafael Matos. 

O álbum, editado em janeiro, conta com a produção de Paulo Furtado (The Legendary Tigerman) e marca “um ponto de viragem na travessia musical do Expresso Transatlântico, sem perder a alma e a fusão de sonoridades que o caracteriza”, conta o comunicado de imprensa. 

“Este disco nasce de um período de criação vivido entre a Serra da Estrela, a Foz do Arelho e Brotas - três lugares muito diferentes entre si, mas que acabaram por moldar o som e o universo deste trabalho. Sentimos que os lugares onde trabalhámos este disco entraram de forma natural nas canções: no ritmo, nas texturas, e na forma como as músicas se movem”, afirma o grupo em comunicado de imprensa. “É o reflexo de tudo o que estamos a viver enquanto banda e do que fomos absorvendo ao longo do caminho, dos lugares, das pessoas e do tempo. Além disso, é também um exercício sobre a nossa relação e enquadramento individual dentro de uma sociedade em decadência”, acrescenta o trio. 

"Trópico Paranóia" sucede a "Ressaca Bailada" - o álbum de estreia que os três músicos editaram em 2023. 

O Expresso Transatlântico vai apresentar o novo disco em dois concertos especiais. A 13 de março, Gaspar Varela, Sebastião Varela e Rafael Matos sobem ao palco da Casa da Música, no Porto. A 14 de março, o trio atua no Capitólio, em Lisboa.
 

Oiça a entrevista completa: 

Entrevista completa


Quero começar pelo título porque acho que há aqui muito por onde pegar. "Trópico Paranóia" é um título que deixa adivinhar uma série de coisas...

Gaspar Varela: Acho que o título surge da forma como olhamos para a sociedade nos dias de hoje. Está tudo numa espécie de “trópico paranóia”. Está tudo um caos. Estamos a perder cada vez mais valores. E falo de valores que supostamente já estavam conquistados. Acho que é apenas a observação que fazemos sobre a sociedade em que vivemos. Digo "nós", na perspetiva em que somos três jovens. Ou melhor, eu sendo um jovem e eles os dois “quase já não jovens”. (risos) Mas acho que é isso. É o nosso olhar sobre o que estamos a viver.

Rafael, tens a mesma opinião?

Rafael Matos: É exatamente a mesma. 

Partilham muitas ideias sobre essas questões quando estão juntos?

GV: Claro. O Sebastião [Varela] é meu irmão e o Rafa [Rafael Matos] é como se fosse. Portanto, sim, falamos muito sobre estes assuntos.  



Gaspar, já te vi em várias ações de protesto. Sei que tens uma voz ativa em relação ao que vai acontecendo no mundo e fazes questão de lutar pela justiça das causas. Também transportam essa forma de estar para a vossa música?

GV: Sem dúvida. É uma forma de não me sentir tão inútil perante o que está a acontecer à nossa volta, no mundo. É inevitável por vezes sentirmo-nos inúteis. E, através da música, sinto que tenho mais facilidade em expressar-me nesse sentido, mesmo sem letras. Dá para explorar esses universos e também é a forma com a qual me sinto mais confortável. Mas, sim. Tenho muito interesse nesse tipo de assuntos.  

Vamos então mergulhar nesta viagem que é o vosso álbum. Na descrição que me enviaram do disco li que “Trópico Paranóia” promete marcar um ponto de viragem na travessia musical dos Expresso Transatlântico. Ora, que ponto de viragem é esse? Para onde querem seguir viagem? 

RM: Acho que o ponto de viragem é o reflexo de tudo aquilo que temos experienciado ultimamente na estrada. É o reflexo do que temos ouvido e do que temos vivido. É também um passo em frente, uma evolução no nosso trajeto. Tivemos mais tempo para trabalhar na feitura deste disco do que no anterior. Tivemos a oportunidade de fazer três residências em três sítios completamente distintos. E acho que isso ajudou-nos bastante a procurar o som que queríamos para este álbum. Aconteceu tudo de uma forma muito natural. Acho que é por aí.

GV: Na verdade, foram quatro residências, se considerarmos que a última foi para a gravação do álbum. Não fomos para um estúdio, fomos para uma casa. E decidimos fazer isso por vários motivos, sendo que um desses motivos foi financeiro. Ir para um estúdio é mais caro. Mas também sentimos que precisávamos de tempo para gravar este álbum e, quando estamos em estúdio, a disponibilidade de tempo nem sempre existe. Além do tempo, também prezamos o convívio. Gostamos de estar com as pessoas sem estarmos constantemente a trabalhar. Acho que é algo muito importante. 

Sim, deixar a energia criativa fluir…

GV: Exato. Acho que nesse sentido ajudou-nos imenso. 

RM: Sim. Ajudou-nos só o facto de estarmos fechados num espaço sem termos uma hora para irmos para casa. Ajudou-nos bastante não termos o tempo contado para gravar. 

E essa disponibilidade de tempo abriu o campo exploratório também? 

GV: Sem dúvida.

E passaram alguma vez o limite da exploração ou não?

GV: Sim…

Tiveram de refrear?

RM: Acho que o Paulo [Furtado] foi importante nesse sentido. 

É a primeira vez que trabalham com um produtor, creio eu… 

GV: Certo. 

O que vos levou a convidar o Paulo Furtado? 

GV: Escolhemos o Paulo por variadíssimos motivos. Como banda, sempre tivemos muito presente a ideia de termos a nossa identidade, de criarmos o nosso universo. E sentimos que o Paulo faz precisamente a mesma coisa com todos os projetos que tem ou que teve, como é o caso do projeto The Legendary Tigerman. Isso foi algo que nos chamou muito a atenção, porque gostamos de trabalhar com outros artistas. Desta vez, não fizemos nenhuma colaboração para o disco mas tivemos uma colaboração com o produtor. Quisemos que o Paulo trouxesse o universo dele para as nossas músicas. Além disso, sentimos que precisávamos de um olhar de fora. Queríamos mais um pensador. E nesse sentido o Paulo ajudou-nos imenso. Acho que fez o trabalho essencial de um produtor. Ajudou-nos a explorar o que queríamos fazer. Abriu caminho para olharmos para as coisas de várias formas e para falarmos sobre essas mesmas coisas. A experiência de trabalhar com ele correu maravilhosamente bem. Deixou-nos muito confortáveis. E ficámos muito satisfeitos com o resultado.  


Claro que o Paulo já conhecia o vosso trabalho, mas quero saber qual é que foi o briefing que lhe passaram e como é que ele entendeu o curso que queriam dar a este registo discográfico. O Paulo entendeu logo o que queriam?

RM: Acho que sim. Acho mesmo que sim. Lembro-me que quando lhe mostrámos as primeiras maquetas estávamos um bocado fartos e, na verdade, até um pouco tristes. Pensámos muito sobre a forma como tornar o que tínhamos numa canção. E acho que o Paulo viu logo. É a experiência que tem de perceber como é que [aquele esboço] vai ficar depois de ser trabalhado. E, além disso, o Paulo também nos ajudou numa vertente que queríamos explorar, que é a vertente mais eletrónica. O Paulo faz isso muito bem nos discos dele. Ajudou-nos bastante nesse aspeto também. 

Há pouco estavam a falar das residências onde estiveram. Em que medida esses lugares moldaram o som do disco?

GV: Antes de irmos para esse tipo de residências compúnhamos sempre em Lisboa, mais precisamente em casa do Sebas [Sebastião Varela] ou do Rafa. E, de facto, tocar bateria num terceiro andar não é propriamente agradável. E eu também não conseguia tocar o meu som. Era muito difícil estarmos todos a tocar ao mesmo tempo. O nosso método de composição ia, por isso, sendo feito por partes. Só quando íamos para uma sala ensaiar é que tocávamos todos juntos. E as residências deram-nos essa possibilidade. A possibilidade de tocarmos juntos e de explorarmos o nosso som tanto de forma individual como em coletivo. É a parte mais interessante. Ajudou-nos imenso. Éramos apenas nós a compor o nosso som sem termos de nos adaptar por causa do barulho. E depois foi deixar que o espaço falasse connosco. Isto agora foi um pouco bué snob (risos)… 

RM: Mas é verdade. É incrível estarmos a compor com a Serra da Estrela à frente ou com um rio a passar por debaixo da casa onde estávamos trabalhar. 

E, pelo que sei, o álbum relaciona-se, de alguma forma, com o curso de um rio, certo? Tem alguma coisa a ver? 

GV: Tem, sim. Na primeira residência, que foi em Manteigas, acompanhávamos esse riacho. Depois fomos para a Foz do Arelho, ou seja, chegávamos à Foz. E gravámos em Brotas, no Alentejo, perto de Montemor-o-Novo. À medida que fomos compondo as malhas, o disco ganhou essa vertente no sentido em ue começa, vai desabando até que há uma avalanche…

RM: Tem todo um caminho. 

GV: Tem um caminho que, na verdade, foi o caminho que vivemos. 

Há uma frase que descreve o álbum que me deixou intrigada: "é um exercício sobre a nossa relação e enquadramento individual dentro de uma sociedade em decadência". Gostaria que me falassem deste “exercício", uma vez que as residências também podem funcionar como um escape para uma realidade mais pacífica, pelo menos.

GV: Acho que a frase diz tudo. Quando estamos a compor não estamos propriamente a pensar nisso. Acho que já está em nós. Vivemos em Lisboa, somos jovens e estamos a ver a sociedade a lixar-nos cada vez mais o futuro. Expressamos os pensamentos que carregamos, à medida que as coisas vão acontecendo. E acho que estamos alinhados nesse pensamento. A parte individual pode ter a ver com a forma com a qual nos debatemos com as coisas, com o ato de refletirmos sobre o porquê de a música estar a seguir determinado caminho, por exemplo. Acho que nos falta refletir mais. E meto-me nessa equação. Mas quando estamos a compor ou a tocar, essas conversas surgem e os pensamentos vêm ao de cima. 

RM: As conversas existem. Mas acho que, mesmo que não existam, acaba por estar refletido na arte fazemos. Nós trabalhámos este álbum em lugares completamente…

GV: Pacíficos… 

RM: Exato. Pacíficos. E a música tem densidade. Reflete um pouco o que estamos a viver nos dias de hoje. Isto não quer dizer que não sejamos pessoas felizes. Felizmente, somos…

GV: Somos felizes mas estamos revoltados. 

Era precisamente aí que eu queria chegar. As vossas canções também permitem que cada pessoa se autotransporte para o lugar que quiser. É uma viagem muito individual, uma paisagem que pode ser diferente para cada uma das pessoas que vos escutam. Para onde é que este álbum vos transporta? 

GV: Ui.  Para muitos sítios. Somos uma banda instrumental, não é? As nossas letras não são óbvias. (risos). Por norma, damos nomes muito parvos às maquetas [antes de escolhermos o título final]. Mas, por exemplo, a 'Não Pares Povo' ficou com o nome que lhe demos no início. E acho que faz todo o sentido que essa música tenha esse título. Porque é uma música que nos empurra para a frente em vez de ficarmos a penar sobre os assuntos. É um pontapé para empurrar para a frente no sentido em que é agora que temos de acordar. Está na hora de fazermos barulho. A música é caótica. Tem esse tal ritmo para a frente, para dançar, para explodir. (…)

RM: A mim, por enquanto, só me transporta para todo o processo de criação do álbum. Leva-me para aqueles dias que passámos na Serra, em Brotas. É fixe porque traz-me alguma paz, apesar de termos trabalhado imenso. 

GV: E as músicas fazem sentido com aquilo que estávamos a viver na altura. E a verdade é que quando estamos a criar não temos propriamente esse olhar. Posso dar um exemplo. No início odiava o 'Tigre da Serra'. Achava que era muito “azeite”…

E depois, o que é que aconteceu?

GV: Começámos a compô-la em Manteigas mas quando chegámos à Foz do Arelho começou a fazer todo o sentido. Foi lá que resolvemos o final da música. E fizemos isso num dia. Passado um ano já consigo fazer uma análise e perceber que, às vezes, é mesmo importante aceitarmos o processo. Porque, mesmo que te pareça mau na altura em que estás a criar, estás a entregar algo da forma mais verdadeira que consegues. 

RM: Estás a falar de algo que fizemos neste álbum que é muito importante. Nós demos tempo às músicas. Houve intervalos de tempo entre cada residência. Deu para maturar [a criação]. Não estavas a curtir o tema em Manteigas mas curtiste a música na Foz do Arelho. E acho que isso é muito importante. 

E os concertos, o que é que estão a preparar?  

GV: Estamos ainda a ensaiar. Estamos a montar os espetáculos. Este álbum também foi muito inspirado nos nossos concertos. O público dá-nos uma energia incrível. Mas não sei. Não faço promessas.  

Como é que definem o conceito do vosso projeto? 

GV: Acho que é uma cacofonia de muitos instrumentos que nem são assim tantos. 

RM: Pois não. (risos) É uma boa pergunta…

GV: Somos três indivíduos que gostam uns dos outros e que querem tocar. Juntamo-nos [para tocar] e exploramos o melhor que o Rafa consegue dar na bateria, o melhor que eu consigo dar na guitarra portuguesa e o melhor que o Sebas consegue dar na guitarra elétrica. Juntamos as nossas visões. É o mais bonito disto tudo, não é? Nós, os três, estávamos a sentir necessidade de sermos livres num projeto, com vontade de explorar…

RM: Acho que enquanto estivermos bem a fazer isto e enquanto nos estivermos a divertir vamos continuar a trabalhar [neste projeto]. E sentimos isso desde o início. 

Há alguma canção deste álbum que queiram destacar por alguma razão. Eu sei que é uma pergunta um pouco ingrata…

GV: Eu estou mesmo muito feliz com o álbum. Gosto de muitas canções.

RM: Eu destaco duas músicas… 

GV: A 'Canção para a Madrugada'…

RM: Sim, a 'Canção para a Madrugada' é incrível.  

GV: Eu não diria que é incrível mas acho que é uma abordagem honesta da nossa parte…

Gaspar, és o mais crítico de todos?

RM: Tem dias. (risos) Mas somos todos um bocado assim. 

GV: Acho que a 'Canção para Madrugada' tem uma abordagem muito honesta. 

RM: Tem alma. Aliás, têm todas. Também destaco a 'Nikita Punk', por exemplo. Para mim, é a música que define melhor o que quisemos fazer.  



GV: Há uma que nem dava nada por ela mas adorei o resultado que é a 'Bruxa do Caramelo'. 

RM: Muito fixe também. 

A escolha dos títulos é realmente interessante…

RM: Foram inspirados nas experiências que fomos vivendo ao longo do processo. 

GV: A 'Bruxa do Caramelo' foi a personagem que nos acompanhou durante o álbum inteiro.   

Então, que personagem é essa? 


GV: Vou deixar aberto. Acho que isso também é bonito. É uma personagem que nos acompanhou. E num bom sentido.

É uma bruxa boa, doce…

GV: É boa. Não sei se é doce, mas acompanhou-nos por alguma razão.  

Estás a mudar o tom de voz…

GV: Não foi para fazer bruxedos. Foi mais para aconselhar a abrir os olhos…

RM: Como a Nikita…

GV: Exatamente.