Falsas ameaças de bomba a aviões estão a criar o caos na aviação europeia, alerta especialista
Álvaro Neves, perito em investigação de acidentes aéreos, defende uma resposta coordenada das polícias internacionais para identificar a origem dos telefonemas.
As sucessivas ameaças de bomba dirigidas a aviões comerciais em vários países europeus estão a criar instabilidade no setor da aviação civil e podem representar uma forma de pressão sobre uma das maiores indústrias de transporte de passageiros do mundo. A avaliação é de Álvaro Neves, especialista em investigação de acidentes aéreos, que considera urgente identificar a origem dos falsos alertas e responsabilizar os seus autores.
Em entrevista a esta rádio, Álvaro Neves apontou a possibilidade de estas ações estarem a ser promovidas por grupos extremistas ou alinhados com interesses de desestabilização política, embora ressalve que se trata da sua opinião pessoal e que não dispõe de elementos que permitam identificar os responsáveis.
"Estamos a falar de atos ilícitos", afirma, considerando que estes grupos poderão estar a aproveitar o atual contexto de instabilidade internacional para "continuar a criar o caos na Europa".
O especialista recorda que, segundo os números que acompanhou, pelo menos 21 aviões comerciais terão sido afetados num dos episódios mais recentes, depois de já terem sido registadas outras ocorrências. Uma dimensão que, na sua perspetiva, exige uma intervenção mais proativa das autoridades.
Decisão de desviar um avião é particularmente difícil
Perante uma ameaça de bomba, existem protocolos definidos que envolvem aeroportos, controlo de tráfego aéreo, companhias aéreas e autoridades policiais, destinados a avaliar a credibilidade da informação recebida.
A decisão final cabe ao comandante, que poderá optar por alterar a rota e divergir para outro aeroporto ou prosseguir viagem, caso a ameaça seja considerada falsa.
"O limite de validar ou não validar não é fácil", sublinha Álvaro Neves, lembrando que nenhuma companhia aérea ou comandante pode ignorar uma ameaça sem avaliar os riscos. Por outro lado, a validação de um falso alerta pode desencadear uma operação complexa e dispendiosa.
Em alguns casos, os aviões são acompanhados por caças militares e encaminhados para bases aéreas. Depois da aterragem, são desencadeados procedimentos de segurança que podem incluir o desembarque dos passageiros, a inspeção da bagagem e a verificação da eventual presença de explosivos.
Todo este processo pode manter um avião em terra durante três a quatro horas, com consequências para os passageiros e custos elevados para as companhias aéreas.
"Alterar as rotas não resolve o problema"
Questionado sobre a possibilidade de as companhias aéreas alterarem permanentemente as rotas para evitar este tipo de ameaças, Álvaro Neves considera que essa não seria uma solução eficaz.
Isto porque o problema não está no percurso dos aviões, mas nos telefonemas que anunciam falsamente a existência de explosivos a bordo. As chamadas podem ser dirigidas às torres de controlo, aos gestores aeroportuários, às companhias aéreas ou às autoridades policiais, independentemente da rota do voo.
"Alterar rotas em nada vai alterar o padrão do crime que nós estamos a ter aqui", explica.
O especialista admite que a repetição destas situações poderá colocar as companhias aéreas perante decisões cada vez mais difíceis, sobretudo quando têm de ponderar a credibilidade de uma ameaça e a responsabilidade de garantir a segurança dos passageiros.
Tecnologia reduz risco de explosivos a bordo
Álvaro Neves considera que a probabilidade de um engenho explosivo conseguir entrar atualmente num avião é muito reduzida, tendo em conta a evolução dos equipamentos de rastreio e o reforço dos procedimentos de segurança nos aeroportos.
"A probabilidade de ter um engenho explosivo a bordo é diminuta", afirma, estabelecendo uma comparação com as décadas de 70 e 80, quando se registaram atentados com explosões em aviões.
Ainda assim, alerta que a atual instabilidade internacional e o receio de ignorar uma ameaça que possa ser verdadeira tornam particularmente difícil a resposta das companhias e das autoridades.
Para o especialista, é essencial que os países reforcem a cooperação policial e desenvolvam meios tecnológicos capazes de localizar a origem dos telefonemas, mesmo quando estes são realizados a partir de outros pontos do mundo.
"As polícias internacionais têm que ser rápidas e eficazes e começarem a detetar a origem destas chamadas", defende, considerando que os responsáveis devem ser identificados, detidos e condenados.
Álvaro Neves sublinha, contudo, que não existe uma solução simples para o problema: deixar de validar ameaças não é uma opção, dada a responsabilidade envolvida na segurança dos passageiros e das tripulações.
O especialista fala a título pessoal sobre esta matéria e esclarece que a sua área de especialização é a segurança operacional e a investigação de acidentes aéreos, e não a segurança policial associada a atos ilícitos.
