Fat Freddy's Drop: "atuar no outro lado do mundo e sentir a música desses lugares influencia-nos muito"
O grupo neozelandês atua amanhã, 30 de julho, no Ageas Cooljazz, em Cascais.
O Ageas Cooljazz está quase a terminar, mas ainda há uma série de concertos a não perder no festival de Cascais até ao dia 31 de julho. Um exemplo é a aguardada atuação dos Fat Freddy’s Drop que sobem ao palco do Hipódromo Manuel Possolo amanhã, dia 30 de julho. Antes da entrada em cena do coletivo da Nova Zelândia, há atuações de Gisela Mabel e dos Expresso Transatlântico. A 31 de julho - último dia do festival - o Ageas Cooljazz recebe Guilherme Melo, Inês Marques Lucas e Jamie Cullum.
Mestres na música de fusão - do jazz, soul, dub, rhythm & blues à eletrónica - os neozelandeses estreiam-se no palco do festival de Cascais no âmbito da digressão europeia que acelerou a criação do novo álbum que o coletivo vai editar em breve. O novo disco do grupo e o concerto em Cascais foram alguns dos tópicos da conversa que tivemos com o saxofonista Scott Towers (aka Chopper Reedz).
O que é que estão a preparar para o concerto no Ageas Cooljazz?
Fazemos uma boa seleção de temas dos vinte e tal anos de história dos Fat Freddy's Drop. Já temos um número substancial de álbuns. Quando estamos a fazer o alinhamento escolhemos as canções que se encaixam melhor no ambiente dos sítios onde vamos tocar e com o público para quem vamos atuar. Claro que a nossa disposição no momento também conta. Há canções mais antigas, do início do grupo, e outras novas. Mas adaptamos o alinhamento ao ambiente do lugar onde vamos tocar. É por isso que costumamos escolher as canções no dia dos espetáculos.
É a primeira vez que atuam no Cooljazz, o que é que sabem sobre o festival de Cascais?
Sim, é nossa estreia nesse festival. Mas tenho de dizer que Portugal é um dos meus sítios preferidos para visitar. Já tocámos diversas vezes em Portugal mas no Cooljazz é a primeira vez. Se bem que já atuamos para esses lados. Faço sempre questão de ir ver os sites dos festivais onde vamos atuar. E adorei o que encontrei no site do Cooljazz. Parece fantástico. Tem árvores, muita relva. As pessoas parecem descontraídas. E é em Cascais. Adoro aquela zona, perto da costa. Acho que é um sítio lindo. Estamos muito entusiasmados por regressar a Portugal.
Li numa entrevista recente que os lugares por onde passam também vos inspiram criativamente. Agora que sei que Portugal é um dos seus sítios preferidos para visitar quero saber se esta passagem por cá pode, de alguma forma, dar-vos material artístico...
Ah, sim. Sem dúvida. Vamos buscar grande parte da inspiração aos músicos que se cruzam connosco nas viagens e aos lugares que visitamos nas cidades por onde passamos. Há vários elementos dos Fat Freddy's Drop que são fãs de música portuguesa e de música brasileira. Quando temos a oportunidade de estar durante algum tempo numa cidade fazemos questão de ir assistir a concertos de artistas locais. Também somos amantes de discos. Costumamos visitar as lojas de discos dos sítios onde estamos. É uma ótima forma de conhecer gente e a música dos lugares. As pessoas com quem falamos recomendam-nos música dos artistas locais e acabamos por levar as recomendações para casa. A influência dos sons que conhecemos quando estamos em digressão não é imediata, mas, aquilo que vamos descobrindo vai acabar por influenciar, eventualmente, a nossa composição. Pode demorar algum tempo, mas acaba por acontecer. Andar em digressão no outro lado do mundo e sentir a música desses lugares influencia-nos muito. Estamos sempre interessados noutras culturas musicais. E, claro, na música portuguesa também.
Com mais de 20 anos de estrada, de álbuns, como é que se mantêm unidos, a fazer música que se sustenta também na cumplicidade entre os músicos?
Nem sempre é fácil. O mais fácil é seguir a fórmula que facilita o sucesso. É seguir a tendência, a abordagem, os sons ou os looks do momento. Mas acho que os Fat Freddy's Drop estiveram sempre focados em seguir os ouvidos e o que vai na alma de cada um. Seguimos a música que realmente nos interessa, que nos excita. Acho que se tentarmos soar a algo que não somos, o público vai perceber. Já aconteceu questionarmo-nos sobre a forma como poderíamos chegar a palcos maiores. Já chegámos a refletir sobre o som que devíamos fazer ou sobre a forma como nos devíamos apresentar para chegar a mais pessoas. Tentámos fazer algumas mudanças nesse sentido, mas nunca correram bem. Não é algo que nos pareça correto. Não encaixa connosco, além de que o nosso público ia perceber logo. Dá para perceber durante o concerto. Se tentarmos fazer algo que não encaixa muito bem connosco, também não vai encaixar com o nosso público. Dá para perceber logo se o público está ou não conectado com o que está a acontecer no palco. Tentamos sempre colocar quem nos ouve à frente e no centro da forma como atuamos e na abordagem que fazemos à música. E agora estamos mais velhos. (risos) Estamos mais confortáveis na nossa pele. Estamos mais comprometidos em fazer aquilo que realmente nos diverte em palco.
É como todos nós na vida quando envelhecemos...
Absolutamente.
Vocês vão lançar um álbum em breve. O que é que me pode contar sobre este disco?
Acabámos literalmente de fazer o disco. Terminámos ontem. (risos) Acabámos finalmente o álbum. Aliás, uma das razões para termos terminado agora é o facto de estarmos de partida para a Europa. Tínhamos um prazo. Cada álbum que fazemos é uma experiência diferente. É como ter filhos, acho eu. Cada criança é diferente. Podemos criar os nossos filhos da mesma maneira mas não evitamos que sejam pessoas diferentes. É natural que assim seja. As circunstâncias são diferentes. O que está a acontecer no mundo mudou e as viagens pessoais de cada um também. O novo disco foca-se na ideia de criar alguma distância da loucura que o mundo está a experienciar. Um afastamento de todo o ruído. Parte do álbum ainda reflete experiências que todos nós vivemos com a Covid-19. Há algumas canções que fazem referências diretas a esse período. Mas é uma parte do álbum que acaba por ser leve, divertida e a puxar para cima. Acabou por funcionar como uma reação aos confinamentos. E depois há uma parte mais profunda, não tão luminosa que reflete os "lugares" onde todos nós estivemos durante a pandemia.
A música tem essa dualidade interessante. Pode servir, de alguma forma, como escape mas também como refletor do que vai acontecendo no mundo...
Ao longo dos anos, temos apresentado canções com ideias nas letras. Uma das grandes qualidades do Joe Dukie [Dallas Tamaira], além de ter uma voz fabulosa, é escrever letras que podem ser interpretadas de várias formas. Pode escrever uma história simples sobre uma viagem, o dia de alguém ou sobre um desabafo romântico, mas acaba por haver sempre uma camada na letra que vai além disso. Aparentemente pode ser uma história para entreter, mas se as pessoas mergulharem mais profundamente na letra vão encontrar questões mais universais ou assuntos que estão relacionados com o que se passa no mundo. Ele é um observador brilhante do mundo que o rodeia. Absorve tudo. Nós não reagimos às coisas que acontecem no mundo de forma imediata. Se acontecer hoje, não vamos escrever sobre isso amanhã. Mas o que acontece acaba por ficar alojado na cabeça do Dallas e também na mente coletiva do grupo. Eventualmente, acaba por vir à superfície na forma de uma canção. Pode ser seis meses depois ou só passados seis anos. Mas acabamos sempre por refletir o que acontece no mundo.
Qual é a marca que os Fat Freddy's Drop vão deixar na música. Se uma criança que estivesse agora a descobrir a música lhe perguntasse isto, dir-lhe-ia o quê?
Dir-lhe-ia para seguir a música que lhe desperta algo. Não posso dizer que os Freddy's são importantes por isto ou por aquilo. Somos importantes para algumas pessoas e completamente irrelevantes para outras. Mas acho que tentamos sempre ser honestos na música que fazemos. Se isso captar o interesse dessa criança, damos-lhe as boas-vindas. Diria a essa criança para não se preocupar com os Fat Freddy's Drop mas para seguir apenas a música que gosta. Se por acaso esbarrar com os Fat Freddy’s Drop nessa viagem, ótimo!
