Fernando Daniel: "os meus filhos inspiram-me todos os dias, fazem-me descobrir coisas em mim que desconhecia"

Entrevista ao músico que está de volta aos álbuns. 'Juro' é o single de avanço de uma nova era artística.

Fernando Daniel está pronto para uma nova era artística. A 10 de abril, o cantor mostrou 'Juro', o single de avanço do novo álbum de originais que irá editar no último trimestre deste ano. É o quarto disco do músico de Ovar que marca o regresso ao estúdio após mais de dois anos sem lançamentos em nome próprio. 

"Este lançamento assinala o início de uma nova era na carreira do artista, marcada por uma identidade sonora renovada e por influências mais assumidas dos géneros que tem vindo a explorar, ouvir e integrar no seu universo criativo", referia o comunicado de imprensa que chegou à redação com o novo single. "O tema revela uma abordagem mais orgânica e internacional, com claras referências ao universo country e à música de inspiração americana, refletindo não só as suas influências atuais, mas também uma vontade de expandir fronteiras artísticas", lia-se na nota. 

"Esta nova fase ganha ainda mais consistência após a recente passagem por Nashville [Tennessee, Estados Unidos], onde Fernando Daniel trabalhou com produtores e compositores locais, absorvendo novas linguagens musicais e desenvolvendo grande parte do repertório do seu próximo álbum."

A nova era de Fernando Daniel começa também com a concretização de um sonho antigo. Esta quinta-feira, 16 de abril, o cantor inaugurou em Ovar o complexo Nagana que agrega estúdios de música e uma academia que terá bolsas de apoio a talentos sem recursos financeiros para prosseguir estudos na área. Foi a abertura de um "novo espaço criativo, onde a música ganha vida através da tecnologia mais avançada e da paixão pela arte sonora. Gravação, mistura, masterização e formação musical - tudo num só lugar", é o que lemos na descrição deste complexo que teve um investimento de dois milhões de euros. 

Fernando Daniel sobre inauguração do Nagana


"O Nagana nasce também com uma outra missão: combater o centralismo e mostrar que é possível criar, inovar e crescer fora dos grandes centros. Há talento, visão e capacidade em qualquer parte do nosso país. Basta querer ver com o coração e sem presunção. E é do coração que vos falo, que é a parte mais difícil, mas é como faço sempre. De onde eu venho, ensinaram-me primeiro a perder. Ensinaram-me que, mesmo do coração e com entrega total, a oportunidade nem sempre surge da forma mais justa, para quem mais precisa. No entanto, desistir nunca poderá ser solução. Às vezes, basta uma chance para validar todas as outras. É aquela que tem a capacidade de mudar a nossa vida. E foi isso que me aconteceu. Foi através dessa oportunidade que consegui alavancar este meu sonho," disse o músico na inauguração do projeto.  

Alguns dias antes da inauguração do novo espaço, Fernando Daniel esteve nos estúdios da rádio para conversar connosco sobre a nova canção, o country, o novo álbum, a paternidade, o percurso artístico que tem trilhado e não só. Oiça a entrevista completa aqui:

Entrevista completa a Fernando Daniel


Que promessa é esta, Fernando Daniel? 

É uma canção que nasceu há muito tempo. Nasceu há cerca de dois anos, mais precisamente. Além de ser a primeira canção do novo disco que estou a lançar, foi a primeira canção que compus. É uma canção que reflete um certo cansaço ou o querer desabituar-me do que tenho feito até ao momento. Queria explorar algo novo, uma nova sonoridade. Acaba por ser uma promessa que faço a mim mesmo. É a promessa de tentar reinventar-me, de não me deixar acomodar com o sucesso ou com as coisas que vão aparecendo. E, claro, também é uma canção de amor. Inclusivamente, até faço um trocadilho na letra com o nome da minha namorada, que se chama Sara. É um trocadilho que só quem está mais a par da minha vida pessoal é que vai perceber. Mas achei que podia ser uma coisa interessante. Resumindo, além de ser uma promessa de amor ou um juramento de amor, é algo de mim para mim em que incluo a pessoa que me é mais especial. 

E a meio da canção falas em paz... 

Por incrível que pareça, aquilo que considero paz é o maior caos possível. Digo isto porque agora sou pai, embora considere já ter a fábrica fechada. Tenho um rapaz e uma rapariga. Tenho um casal, está ótimo assim. Mas é no meio daquele caos que me sinto em paz. Sinto-me em paz com os brinquedos espalhados pelo chão ou quando piso as peças de Lego. Sinto paz a pentear bonecas, a servir de boneca para ser maquilhado, a fazer penteados e por aí. Encontro paz nessa confusão ou nessa calmaria de normalidade. Têm sido anos muito complicados. A criação da família, a falta de descanso, as noites sem dormir, o estúdio que estou a inaugurar, as digressões. E também lancei duetos com outros artistas. Tudo isto faz com que sinta alguma pressão. Parece que, como acontece ao mesmo tempo, não consigo saborear nada. E é precisamente em casa, mesmo no meio do caos, que encontro um pouco de paz. Não vou romantizar porque, às vezes, também me custa acordar a meio da noite ou pisar um Lego. (risos) Mas os últimos dias têm sido muito bonitos. Estava ansioso por lançar um disco novo e, neste caso, um single novo. Confesso que já não ficava nervoso há muito tempo. Esta manhã, nem a minha barriga queria colaborar. Quando acordei, sentia o corpo mais tenso. Mas fico feliz por me sentir assim. Acho que é um sinal de que ainda gosto do que faço. Isto ainda me provoca…

Adrenalina… 

É isso. A adrenalina, o nervosismo e o respeito também. Eu costumo dizer que enquanto me sentir nervoso, seja antes de entrar em palco ou durante o concerto é um sinal de que gosto do que faço. É um sinal de que tenho uma responsabilidade para com aquilo que represento e com o que estou a mostrar. No fundo, é um bom sinal, apesar dos efeitos secundários.


Este disco marca um capítulo novo. Que capítulo é este? O que é que já nos podes contar?

Posso contar que foi um disco muito pensado. Digo "foi" porque, para mim, o disco está praticamente pronto, apesar de só sair daqui a alguns meses. Foi um álbum muito ponderado. Neste momento, tenho oito anos de carreira. E sinto que já fiz um disco mais orgânico, um disco mais pop-rock, um disco com uma sonoridade mais influenciada pelos anos noventa. Sendo eu um artista pop, acho que será sempre essa a maior característica do meu registo. Mas também quero explorar algumas sonoridades que gosto, que costumo ouvir e que me sinto capaz de representar. Falei com a minha editora, a Universal, para propor este desafio. E eles gostaram da ideia. É quase como se fosse um filho. Foi pensado e ponderado. O álbum tem sido trabalhado entre Ovar, que é a zona onde resido, e os Estados Unidos, mais propriamente o estado do Tennessee, em Nashville. Estivemos lá durante uma semana. E vou voltar em breve para ficar por lá ainda durante mais duas semanas. Vamos voltar para gravar os vídeos e tudo o que é a parte visual. Não consegui gravar o videoclipe do 'Juro' nos Estados Unidos porque estava a meio de concertos e a preparar a inauguração do estúdio. Portanto, arranjámos um cenário [alternativo]. Tivemos de ir até ao sul de Espanha. Foi uma viagem engraçada. Queria sentir a adrenalina das tour buses (digressões de autocarro) que são muito habituais nos Estados Unidos.

Os americanos fazem muito isso, tendo em conta que é um país enorme. Optam muitas vezes pelas tour buses, desde o artista mais pequeno ao maior. Nós não fomos num tour bus, fomos numa autocaravana. Demorámos cerca de quinze horas a fazer uma viagem que de carro se fazia em apenas dez. Mas foi muito divertido. Fomos a jogar jogos e a ouvir música, especialmente música country. Eu fui o primeiro a conduzir e quando liguei o motor do carro senti aquela [experiência de andar] por uma country road, sabes? A ouvir [a música] enquanto passávamos pelas paisagens do Alto Alentejo. Quase parecia que estávamos a passear pelo [estado do] Montana. (risos) Temos estado a planear o roteiro das gravações dos vídeos. A nossa ideia é ter uma caravana ou alugar dois ou três carros e fazer uma rota a partir do Tennessee, passando por Dakota do Sul, Michigan e Montana. Ou seja, queremos passar por vários estados, várias paisagens e por vários fundos. A ideia é termos visuais multicoloridos e com diferentes aspetos.  

Mas porquê o country? 

Lembro-me que o meu pai ouvia sobretudo três artistas. Na verdade, ouvia uma banda e dois artistas. Ouvia ABBA, que eram a banda de eleição. Mas também ouvia o Demis Roussos, algo mais clássico mas que não é propriamente ópera. Ouvia também Kenny Rogers. E eu fui consumindo todo o tipo de registos que o meu pai ouvia. A certa altura, sinto que, no meio de toda a pressão relacionada com os concertos, com a gravação dos videoclipes, com o estúdio e com a paternidade, comecei a tentar arranjar algo novo para me entreter. Algo que também funcionasse como uma espécie de fuga no meio de toda a correria. E foi nessa altura que voltei a ouvir música country. Já não ouvia este género há muito tempo. E fez-me sentir coisas bonitas. Comecei a ouvir, a estudar mais o género, a ouvir mais artistas e a procurar concertos de música country. Comecei a tentar perceber como é que funcionava [a cena country], como é que esses artistas gravavam. E é muito curioso. O country é o estilo de música mais consumido nos Estados Unidos. É uma coisa muito deles, é algo muito patriota. E há uma coisa muito bonita relacionada com o género. Quando estivemos em Nashville, vimos artistas com milhões de streamings a andar pelas ruas ou a entrar e a tocar em bares como se nada fosse. É uma cultura e um espírito diferentes. Eu sempre me considerei um rapaz simples. Gosto de fazer a minha música sem vedetismos. Claro que quero ter condições para fazer o que gosto. Quero entregar o que faço às pessoas da melhor forma possível. Mas acho que isso é ser profissional e não vedeta. Quem me vê na rua sabe que ando super tranquilo. Talvez tenha sido por isso que esses artistas me inspiraram tanto. São artistas com milhões de streamings, tocam nas maiores rádios americanas. (…) Foi uma viagem fascinante. Eu revi-me um pouco naquilo. Sei que há pessoas que não acreditam em vidas passadas. Eu também estou naquele limbo, não sei bem se acredito. Mas se há vidas passadas e se há a possibilidade de termos estado noutros lugares, senti uma conexão naquele lugar.   

Sentiste que era um pouco o teu lugar…


Durante a semana em que fomos gravar ficámos num Airbnb. Assim que cheguei [à casa], meti as chaves na porta, arrumei as malas e fui até ao jardim. Era uma daquelas casas fabricadas, de madeira, com um jardim à frente. Uma casa mesmo à americana. E, nessa altura, senti a falta dos meus filhos e da minha noiva como nunca. Senti que eles deviam estar ali. Senti que facilmente faria a minha vida naquele sítio. Via os meus filhos a crescer ali. Claro que depois há outras condicionantes. Falo da forma como [o país] é governado e também sinto que existe medo entre as pessoas. Afinal de contas, pode haver um tiroteio a qualquer momento. No estado do Tennessee, qualquer pessoa pode andar com uma arma no bolso. E isso, às vezes, causa alguma confusão. Por exemplo, no dia em que chegámos fomos ao supermercado e vimos um senhor armado a sair com as compras. É uma realidade completamente diferente. Pensei logo no nosso Portugal. Embora ache que já não é um país tão seguro como antes, sinto que, em termos de segurança, dá dez a zero [aos Estados Unidos]. Portanto, pensei: "afinal, não sei se quero trazer os meus filhos para aqui".A gente também não te quer perder…

Exato, exato. 

Essa parte mais cénica que descreves poderá ter influência nos teus concertos? 

Sim. Eu fui captando alguns registos e guardei tudo numa pasta e até no Pinterest. São estas referências que vou transportar não só para a parte sonora, mas para imagens que as pessoas possam depois relacionar com a música. Qualquer sítio para onde apontasse o telefone era uma paisagem. Podia filmar ao pé de um caixote do lixo que acabava por ser algo tipicamente americano. Acho que estamos muito habituados a consumir tudo o que vem da América, desde cinema à música. Já há muitas produções que vêm filmar em Portugal, porque temos paisagens lindíssimas, mas ainda estamos muito habituados ao que vemos nos filmes americanos. É por isso que quando estamos lá parece que entramos nos sítios onde foram gravados certos filmes. E, se calhar, alguns até foram gravados nesses locais. É um mundo à parte. 

E em relação à temática e às emoções que estão no álbum, o que é que nos podes contar?  


Posso adiantar que tem um bocadinho de tudo. Tem músicas super divertidas, porque o country também tem o lado mais divertido, de festejo. E esse era um lado que queria explorar um pouco mais. Quando escrevo, à partida, opto por baladas, canções mais românticas, dramáticas e até melancólicas. A ideia foi contrariar um pouco isso. Mas, claro, também há músicas mais melancólicas, dramáticas e românticas. Acaba por ser um álbum muito eclético no que toca a registos e a emoções. Tenho canções para os meus filhos. Tenho uma canção para a minha filha e outra para o meu filho. Sentia que tinha de ter uma música para o meu filho, porque a minha filha já tem o 'Prometo'. Também falo de coisas mais pessoais, como traumas. Mas não o faço de uma forma muito clara porque não quero que o disco seja demasiado autobiográfico. Quero que as pessoas se possam identificar, quero deixar [as interpretações] em aberto. Mas é um disco que também conta com muitas histórias.  

Como é que a experiência da paternidade influencia as tuas canções? 

Influencia-me bastante porque não durmo e sou uma pessoa que gosta muito de dormir. Acho que isso mexe um pouco com a parte da criação. Se uma pessoa não descansa, não está tão predisposta. Mas, felizmente, tenho uma noiva que me ajuda bastante nesse aspeto. E isso deixa-me muito tranquilo. Se, por exemplo, tiver sessões de composição, sei que posso ficar no outro quarto, a descansar, para ter a mente tranquila e conseguir escrever. Mas os meus filhos inspiram-me todos os dias. Fazem-me descobrir coisas em mim que desconhecia. À medida que vou amadurecendo, vou percebendo que os nossos pais e os nossos avós vêm de outro tempo. São outras educações. Eles são do tempo em que a troca de carinho entre pais e filhos não era tão usual como é agora. Essa troca era mais rara. A mentalidade era qualquer coisa do género: "eu tenho de educar, não tenho de dar carinho". Eu senti isso. Sinto que os meus avós foram assim para os meus pais. Talvez os meus avós paternos tenham sido ainda mais assim para o meu pai. Por sua vez, o meu pai já me deu um pouco mais do que aquilo que sinto que ele recebeu. Ainda assim, sinto que não deu tanto como eu dou aos meus filhos. É importante que os futuros pais percebam que os filhos são nossos durante dezoito anos. Têm de ser acarinhados. São a nossa prioridade durante aqueles dezoito anos. (…) Também é importante não nos esquecermos do parceiro. Eu tenho uma opinião um pouco controversa. Daria a vida pelos meus filhos. Não pensava duas vezes. Mas a pessoa mais especial que tenho na minha vida é a minha companheira, a minha noiva. Um dia os meus filhos vão criar as suas próprias famílias, vão voar. Já não vou ser a pessoa mais importante para eles. Vou passar a ser a segunda pessoa mais importante. Depois vou passar a ser a terceira, quando eles tiverem filhos. E a minha companheira, se Deus quiser e se, acima de tudo, ela quiser, vai continuar a ser minha companheira até ao final dos nossos dias. Temos de continuar a nutrir esse sentimento e essa relação entre os dois mesmo com filhos. Não podemos deixar isso para segundo plano. Mas os nossos filhos também nos fazem descobrir coisas enquanto casal. (…) Muitas vezes, estamos a olhar para eles, quando estão a brincar, e ficamos felizes com aquilo que construímos. Temos uma família linda, tenho filhos maravilhosos e, felizmente, bem de saúde. (…) Quero dar aos meus filhos a estabilidade pela qual tive de trabalhar para ter. Não quero que os meus filhos sejam demasiados descansados ou que sejam pessoas que não querem saber. Quero que percebam que a vida custa. Custou-me trabalhar, ganhar notoriedade e conquistar o que tenho. Mas também quero dar-lhes a possibilidade de poderem experimentar para poderem perceber efetivamente qual é a vocação de cada um. Eu, felizmente, acertei, embora não tenha acertado logo à primeira. Comecei pelo futebol e depois tirei [o curso de] Turismo mas percebi que a minha vida não passaria por ali. A música esteve sempre lá, mas os meus pais não tinham possibilidades para que pudesse aprender com recurso a aulas. Então, fui-me desenrascando com o YouTube, com aquilo que era grátis. Sinto, inclusivamente, que tenho essa lacuna na parte teórica. Fui aprendendo de ouvido. Se os meus filhos, por exemplo, quiserem seguir este caminho, quero que sejam mais instruídos do que eu. Então, sinto que tenho de ter possibilidades para que isso aconteça. Trabalho agora para isso.  

Quando olhas para o caminho que fizeste sentes orgulho… 

Sim. Sinto muito orgulho. Mas duvido muitas vezes de mim. Ponho-me muitas vezes em causa.

Mas isso talvez seja perfeccionismo… 

Sim, mas às vezes não paro de pensar no que tenho construído, no que tenho feito. Acho que me valorizo pouco. E o facto de me valorizar pouco cria-me um handicap (desvantagem). Nos momentos noturnos, quando os meus filhos acordam e depois demoram a adormecer, ponho-me a pensar nas coisas até efetivamente adormecer. E tenho sentido que pelo facto de não me valorizar a mim, por vezes, acho que não digo às pessoas o quanto gosto delas ou como estou contente com o trabalho delas. Se o faço, tento dizer de uma forma diferente. (…) Talvez tenha mais a ver com agradecimento e não tanto com a valorização. Sinto que começou comigo e foi-se alastrando para os outros. 

O teu disco vai ter canções em português mas também em inglês, certo?

Sim. Nós temos vinte canções em cima da mesa. Eu gostava de lançar as vinte, mas a editora acha que são demasiadas. Andamos aqui numa battle (luta). (risos) Mas a verdade é que considero que, na música e na arte, devemos contrariar um bocadinho os tempos. Atualmente, há uma grande preocupação, a nível global, em lançar músicas rápidas, de consumo rápido para irem diretamente para o TikTok, para serem trendy (tendência) e para depois fazerem concertos. E é assim que ganham notoriedade. Eu prefiro fazer as coisas com tempo. Se uma música tiver de ter a duração de cinco minutos, não me importo com isso, mesmo sabendo que as rádios também estão condicionadas. A atenção das pessoas está a ser encaminhada para coisas mais curtas. Isso acontece nas redes sociais, nos vídeos. Há um scroll contínuo. Já ninguém vê videoclipes ou algo do género. Eu tento contrariar um pouco essa tendência porque acho que é o meu papel. Não quero que, daqui a alguns anos, os meus filhos vejam vídeos de dez segundos. A minha ideia é ter um disco longo. Quero que as pessoas possam consumi-lo tranquilamente. Não têm de o escutar de uma vez. (…) Não quero estabelecer tempos para a escuta das minhas canções. O que tiver de ser dito na canção vai ser dito. Claro que, se a estrutura ficar mais aborrecida, teremos isso em consideração. Como disse, o álbum vai ter canções para os meus filhos e, sim, vai ter temas em inglês. A canção para a minha filha é em inglês, por exemplo. O tema, aliás, não é propriamente para a minha filha. É uma canção sobre aquilo que, no futuro, direi ao namorado ou à namorada da minha filha. É sobre o que direi a essa pessoa e também sobre o que poderei sentir na altura. Toda a gente me diz: "atenção, tens de comprar uma caçadeira. A tua filha tem uns olhos muito bonitos, é lindíssima". E eu penso: "eu já me conheço, sei vou ficar tenso". É nessas alturas que começo a pensar no que vou dizer a essa pessoa. Então, escrevi a canção. Essa pessoa, que entretanto já deve existir, tem uma música dedicada a si. Eu sou um pouco lamechas nestas coisas. É uma canção em compasso de seis por oito, muito próxima de uma valsa. Já me imagino a dançar com a minha filha, precisamente ao som dessa canção, no dia do casamento dela. Eu penso nessas coisas todas. 

Tão bom…

O disco terá todas essas coisas. E também senti a necessidade de ter mais aulas de inglês. Quando estava nos Estados Unidos, só ao terceiro ou quarto dia é que comecei a falar de forma mais fluente. No início, tinha vergonha de conjugar mal um verbo ou dizer algo errado. Então, nos primeiros dias, não me dei a conhecer tal como sou. Falava e opinava pouco. Não queria dizer nada de errado, não queria ser julgado. Não é que alguma vez tenha sentido esse tipo de julgamento, mas não queria passar vergonha. Nos tempos de escola sempre fui bom aluno em inglês, mas, com o passar do tempo, desabituamo-nos a falar a língua. Foi bom ir até lá e sentir este abanão. Tenho de voltar a falar com as professoras que me deram aulas na escola para ganhar mais confiança quando tiver de falar em inglês.

Não sei se queres acrescentar algo que não tenha perguntado… 

Não vou dizer datas mas posso dizer que vou ter dois concertos especiais em março do ano que vem. Serão dois concertos diferentes, algo que queria fazer há muito tempo. Mal posso esperar. Acho que pode parecer ingrato e não quero soar mal-agradecido, mas, neste momento, só queria que a digressão [atual] terminasse para poder começar esta nova era, com as novas músicas em palco e com os novos arranjos. Ainda tenho trinta e muitos, quase quarenta concertos para dar este ano. Não quero soar mal-agradecido porque sei que vão pessoas de muito longe para me ouvir. Felizmente, sempre tive grandes multidões para me verem. E não tem a nada a ver com querer despachar os concertos que vou dar.  

Claro, toda a gente entende…

O meu coração continua aqui, mas a minha cabeça já está a pensar naquilo que vou fazer no próximo ano. Vou ter de assentar um pouco para voltar a encontrar o que me fez querer fazer esta digressão. Quero focar-me nesse sentimento e deixar apenas a luzinha do country ligada e intermitente lá atrás. Quero acabar esta digressão da melhor forma possível.

Acho que isso vai acontecer assim que tu meteres os pés no palco… 

Eu também. Acho que sim. Vai acontecer assim que o público começar a gritar e a cantar. Assim que olhar para a cara das pessoas e ver como estão felizes por estarem no concerto. Acho que é isso que me vai dar a chapada que preciso.