Fernando Ribeiro: "quero um concerto com mosh" na MEO Arena
Moonspell vão tocar com a Orquestra Sinfonietta de Lisboa neste sábado.
26 de outubro de 2024 vai tornar-se um daqueles dias que os Moonspell e os seus fãs jamais se vão esquecer. A banda vai dar o seu concerto maior em nome próprio, na MEO Arena, em Lisboa, com cinquenta músicos em palco: os Moonspell, os 45 músicos da orquestra e ainda o maestro Vasco Pearce de Azevedo. Os arranjos são de Filipe Melo, em versões transformadas que representam um desafio para todos: os Moonspell e a área de conforto dos ouvidos dos fãs.
O acontecimento é tão grande que transborda para o mundo, com a transmissão planetária em livestream deste concerto no Parque das Nações. Falámos com Fernando Ribeiro, o pensador de tudo isto.
Vai jogar bem o casaco de couro com o fraque? O que é que podes dizer-nos sobre este espetáculo na MEO Arena?
A ideia é exatamente essa, juntar dois mundos que já foram ligados por outras bandas. Hoje em dia, em 2024, é muito importante uma banda ter conceitos, ter ideias, sempre foi. É tão importante quanto a própria música e quanto a própria rotina das turnés das bandas. As pessoas já viram tudo, já foram a todo o tipo de espetáculos e dentro do que fazemos, uma das coisas que era inédita na nossa carreira era a junção da nossa música, que já tem algo de sinfónico, com uma orquestra. O desafio da MEO Arena foi lançado pela Crumbs, que é uma produtora que está agora a iniciar-se no mercado, essencialmente ali na sala da MEO Arena. Para um músico português, é sempre uma sala que mete um bocadinho de medo, sejamos honestos. Quisemos fazer um concerto de heavy metal, que é essa natureza dos Moonspell, mas adicionada à nossa tendência sinfónica e épica, que vai ser o papel da Orquestra Sinfonietta de Lisboa, dirigida pelo maestro. Não é um concerto na Gulbenkian, com todo o respeito. Vai ser um concerto heavy metal, em que vai haver fraques e couro, mas ainda aquela movimentação toda, aquele moches. É esse tipo de concerto que nós queremos fazer. Há um pormenor bastante importante, estarão 50 músicos em palco, a contar connosco. Portanto, há aqui alguma magnitude.
Vai ser criado um fosso orquestra?
Não, [os músicos] vão estar mesmo no palco e vão ter a mesma perspetiva que nós, à exceção do maestro. Nós não queríamos um concerto atmosférico, queremos que eles façam parte do cenário vivo, com todos aqueles metais, toda aquela madeira, as cordas. Portanto, é um conceito de rock and roll e todo o desenho do palco foi exatamente feito para que incluísse orquestra, que é o nosso grande convidado especial. Acho que era redundante para nós termos como convidado uma cantora ou um cantor, quando já temos lá tanta gente. Isso é que torna o concerto especial.
Este espetáculo especial vai originar um álbum ao vivo? Um filme-concerto?
Sem dúvida. Esta é a década dos conteúdos. Para mim, o grande foco de conteúdos é termos isto tudo documentado. Nós perdemos muitas oportunidades no passado, concertos memoráveis que demos em que não há nenhum registo. Hoje em dia, há outras condições técnicas. Desde o mais pequeno ao maior, nós tentamos sempre filmar e gravar tudo. Claro que [o concerto no MEO Arena] tem outra parada. Vamos gravar com melhores meios do que num concerto [normal], num clube, mas o objetivo é sempre este e é uma boa dinâmica hoje em dia, porque lá está, vem ao encontro desta minha teoria de que temos que ter ideias. Essas ideias também têm que ser de alguma forma documentadas, porque a função da música hoje em dia, mais do que nunca para além de entreter, é também criar memórias para as pessoas para regressarem um pouco àquele dia, àquela noite ou para terem a oportunidade de experimentar o que é que foi aquela noite através ou da gravação do álbum ao vivo, do DVD, do blu-ray, do streaming, em todas essas plataformas, como o Spotify ou o YouTube, por aí fora. Vamos fazer um live streaming para todo o mundo, para também apanhar o perfil internacional da banda. Posso dizer que vêm centenas de fãs estrangeiros ver o concerto em Lisboa. Nós vamos estar em Berlim a começar a nossa nova turnê europeia. Há toda aquela grande diáspora de fãs dos Moonspell: os mexicanos, os colombianos, os da Europa de Leste, os australianos, os chineses, os sul-africanos, que vão ter a oportunidade de se juntar a nós, através do live streaming.
Há algum trabalho de metal orquestral que te tenha servido como inspiração? Os Paradise Lost, ou o “S&M” dos Metallica ou os Cradle of Filth?
Não sou um grande fã do “S&M” dos Metallica. Penso que é um pouco previsível, mas também era das primeiras experiências [de metal sinfónico]. Ali, o arranjador limitou-se a seguir o guião e a fazer daquelas melodias dos Metallica temas sinfónicos. De todas essas bandas que mencionaste e outras, nada disso me interessou. O que me interessou foi a nossa influência de música clássica, que é notória, quer nos nossos temas, quer também no gosto dos nossos fãs. A nossa música tem influência de compositores russos como o Dargomyzhsky e o Prokofiev, mas também de coisas tipo Mahler, Wagner, pelo seu lado mais poderoso. Pelo briefing que fizemos ao maestro Vasco Pearce de Azevedo e ao arranjador Filipe Melo, também queríamos ter as nossas influências latinas e mediterrânicas. Portanto, também vai haver um bocadinho de Vivaldi e de Ravel, e por aí fora. No heavy metal eu gostei muito do que foi feito pelos Satyricon, uma banda norueguesa, pelos Septicflesh, uma banda grega. Uma das grandes inspirações para mim foi o concerto dos Mão Morta [no Theatro Circo, em Braga, com a Remix Ensemble], também com uma orquestra mais pequena, mas que sem dúvida resultou muito bem, com arranjos bastante inesperados. Os Moonspell movem-se um bocado sinfonicamente naquilo que é mais esperado de grandioso, naquelas músicas mais clássicas dos Moonspell. Mas o Filipe Melo teve o condão de fazer arranjos que foram extremamente surpreendentes para manter a coisa viva.
Vocês estão a trabalhar um novo álbum?
Desde que os Moonspell fizeram 30 anos, fiquei com uma dúvida existencial, que é importante. Nós fazermos música nova quando temos tudo isto a acontecer e quando temos também, agora sim, um legado que tem que ser celebrado. E quando fizemos os concertos dos coliseus dos 30 anos, caiu-me um bocado a ficha nesse aspeto. Em 2025 são 30 anos do “Wolfheart”, em 2026 são 30 anos do “Irreligious”, e nós podemos andar na estrada com todo esse legado. Claro que nós queremos fazer música nova, claro que estamos a fazer música que corresponda a esta dúvida existencial. Não queremos um álbum novo até 2026. Estas coisas que nós fizemos, a digressão acústica, o espetáculo sinfónico, as turnés, os festivais de verão, confesso que também é para ganharmos tempo. Também não queremos entrar naquele ciclo vicioso de dois anos - álbum novo – turné, mais dois anos, álbum novo, para mantermos um emprego, não é? Posso estar a exagerar um pouco, sou uma pessoa dada aos exageros, mas considero que [“Wolfheart”] é talvez o álbum mais importante da nossa carreira, tem como condão ser um primeiro álbum. [Para o novo álbum] Nós temos mesmo que acertar na fórmula, o que para nós é desafiante porque os Moonspell tanto fizeram álbuns de black metal gótico, como de industrial. Tanto fizemos coisas mais eletrónicas, como coisas mais acústicas, como fizemos coisas mais rasgadas. Vai ser um desafio bastante intenso para nós percebermos por onde vamos pegar para fazer um álbum mais homogéneo e um pouco espalhado por toda a parte, mas só em 2026 é que nós todos vamos encontrar essa resposta. Sinto que os Moonspell têm pelo menos mais dois ou três álbuns entre deles, um deles em português, que não vai ser o próximo. Hoje em dia, para uma banda que já tem 32 anos de existência, fazer música nova não é como ligar o piloto automático e fazer por pressão da cena musical e dos nossos managers, dos nossos agentes. É um trabalho que nós gostamos imenso de fazer, mas não o queremos algo que não preencha essas medidas ou que não responda positivamente a dizer: “sim, valeu a pena fazer este álbum”.
Há uns anos vocês abordaram o Terramoto de 1755 através de um álbum conceitual. Há mais algum momento da história que te atraia um dia abordar? Estou a pensar, por exemplo, na Peste Negra ou em marinheiros atacados por piratas.
1755 foi um acontecimento meio filosófico e uniu ali duas coisas que eu gosto muito: a história de Portugal e a filosofia europeia. Um assunto destes reveste-se de tantas possibilidades, que a primeira coisa que fiz foi ver se não havia ninguém já tivesse tratado deste assunto num disco. E não, infelizmente, não. Infelizmente não, mas felizmente para nós. Foi um álbum que saiu muito bem aqui em Portugal, em países mais distantes mas também no Brasil. Tínhamos feito também uma versão dos Paralamas do Sucesso com a ‘Lanterna dos Afogados’. Crescemos muito no Brasil a partir deste álbum, por ser cantado em português, etc. Teve um interesse que nos abriu outra porta, por assim dizer: o cantar em português, mesmo que no registo heavy metal, e abordar um tema histórico. O problema é encontrá-lo. Em Portugal, há imensas coisas que me fascinam, desde o volfrâmio transmontano, os caretos, as descobertas, os contactos com outras civilizações, mas muito disso já foi trabalhado. Portanto, ando praticamente diariamente a ver se arranjo um assunto. O momento mais interessante da história contemporânea, é sem dúvida o 25 de abril de 1974, mas para isso nós teríamos que ser uma banda um bocadinho diferente, mais engajada politicamente, o que não somos. Mas não me interessa muito falar das descobertas, ou da morte dos Távoras, ou daqueles que foram à batalha de Aljubarrota.
