Fernando Tordo: "quando estamos convencidos de que a liberdade está garantida começamos a fazer asneiras"

A canção 'Tourada' venceu o Festival da Canção em 1973. Meio século depois, o homem que lhe deu voz vai celebrar a data com concertos em Lisboa e no Porto.

'Tourada' tem estatuto histórico. Musicada por Fernando Tordo e com letra de José Ary dos Santos, foi a canção que venceu o Festival da Canção de 1973, quando o Estado Novo, na altura mais enfraquecido e nas mãos de Marcello Caetano, ainda era vigente. Com um ritmo "piruliteiro", como adjetiva Fernando Tordo, a canção, que estava carregada de críticas ao regime político e ao "snobismo" social da época, escapou à ação da censura. Pensou-se que a lírica era apenas um exercício satírico sobre a tauromaquia e não uma crítica acutilante à sociedade da época que, daí a um ano, estaria a testemunhar a revolução de Abril e a subsequente queda da vigência e postura do regime ditatorial. 

'Tourada' (escrita em 1972) deslizou, por isso, pelos buracos da censura e foi aprovada para ser uma das canções concorrentes ao festival que, como é costume, foi transmitido pela estação pública de televisão. Só após ter vencido o concurso é que 'Tourada' começou a provocar burburinho e a levantar polémica. A hipótese de Portugal não levar a canção à Eurovisão, que nesse ano teve lugar no Luxemburgo, chegou mesmo a ser posta em cima da mesa dos decisores da época mas, devido ao medo do julgamento internacional, não prevaleceu. Se o regime não tivesse tido receio das repercussões negativas que tal atitude teria tido fora de portas, Fernando Tordo teria ficado por cá, longe do palco eurovisivo. O desfecho acabou por ser outro. A 7 de abril de 1973, Portugal levou 'Tourada' à 18ª edição Festival Eurovisão da Canção, posicionando-se em 10º lugar.


A celebração dos 50 anos da canção que saiu vitoriosa no Festival da Canção de 1973 está marcada para o dia 26 de fevereiro no Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa, e a 11 de março na Casa da Música, no Porto. O cantor e compositor vai estar acompanhado por convidados especiais, como é o caso do fadista Ricardo Ribeiro, da cantora Picas e do veterano Jorge Palma, amigo de longa data de Fernando Tordo. Ambos os concertos começam às 21h00. Os bilhetes estão à venda na Ticketline e nos restantes locais habituais.

Conversámos com Fernando Tordo sobre a celebração do 50º aniversário da canção que é um dos tesouros históricos da música portuguesa. 

É a celebração dos 50 anos da 'Tourada'...

Se estamos a celebrar o cinquentenário de uma canção, significa que essa mesma canção extravasou para fora do âmbito estritamente musical. A 'Tourada' passou a ser uma canção ligada a uma espécie de apetite do público. Há qualquer coisa na música que alivia. 

E a celebração em Lisboa e no Porto vai ter convidados especiais... 

Sim. Convidei o Jorge Manuel, mais conhecido por Jorge Palma. (risos) Eu trato-o por Jorge Manuel e ele trata-me por Fernando Travassos. Ele gosta muito do tema 'Cavalo à Solta'. Foi a canção que ele escolheu para cantar no meu disco de duetos ["Diz-me Com Quem Cantas"] e será essa a canção que vai interpretar nos concertos. Como há um piano, o Jorge, provavelmente, também irá cantar qualquer coisa dele. E também convidei o Ricardo Ribeiro e a Picas. 

50 anos de 'Tourada'. Ainda se lembra do ponto de partida para esta canção?

Eu e o Ary dos Santos fizemos centenas de canções. Em 99 por cento dos casos, eu fazia primeiro a melodia e só depois é que o Ary dos Santos fazia os textos. Um grande elogio que tem de ser feito ao José Carlos Ary dos Santos é sobre a capacidade única que tinha de trabalhar a letra sem que a melodia fosse alterada. Ele era incapaz de pedir alterações na melodia. E se reparar nas canções, não há nenhuma sílaba fora do sítio. Nem nas canções que fiz com ele nem nas que fiz depois, até porque a aprendizagem com ele foi algo inevitável para mim. Sem isso a canção perde a graça. Quando lhe mostrei a música da 'Tourada', ele quis saber o que é que a melodia me fazia lembrar. Eu disse-lhe que, por causa do ar piruliteiro da melodia, lembrava-me a tourada. E fui-me lembrando das expressões tauromáquicas que ouvia quando a tourada era transmitida pela RTP. O Ary dos Santos, que não conhecia este tipo de palavreado, disse-me logo que não percebia nada de touradas. Como eu estava mais familiarizado com essa linguagem acabei por lhe escrever uma série de expressões relacionadas com o tema. O leque de hipóteses que o Ary dos Santos tinha no papel era tão grande que a canção não tem repetições.

 

Como é que explica que uma canção carregada de críticas à sociedade vigente no Estado Novo tenha escapado à censura? 

Era preciso estar muito disponível para cantar uma cantiga daquelas no palco [do festival]. E eu estava. Mas, naquele tempo, quando se ouvia pela primeira vez uma cantiga de três minutos não dava para perceber muita coisa. Não é como hoje que podemos ouvir o tema logo a seguir na internet. Naquela época, só dava para que pessoas as percebessem se gostavam ou não da canção e pouco mais. Houve quem achasse que nós estávamos a gozar com a tauromaquia. 

Mas foram percebendo o que realmente significava...

Sim, mas ainda demorou tempo. Antes disso, as pessoas que ficaram mais ofendidas foram as que estavam ligadas à tourada. É natural que, numa passagem de três minutos, tenham criado essa ideia. Quem acabou por meter água na fervura foi o toureiro Diamantino Viseu e o Nuno Salvação Barreto, que na altura era cabo do grupo de forcados amadores de Lisboa. Essas pessoas tiveram o cuidado de ouvir a canção com mais atenção. Tratava-se apenas da utilização surpreendente de um vocabulário riquíssimo, que é o vocabulário da tourada.  

E o regime acabou por perceber a mensagem...

Houve pessoas que me contaram certas coisas que se passaram nos bastidores, como é o caso da conversa do Ministro do Interior,  César Moreira Baptista, com o Presidente da RTP, Ramiro Valadão. Diziam coisas como: 'mas esta não é a nossa tourada'. Foi o Eduardo Gageiro, um grande fotógrafo português, que me contou essa história. Ele estava no Teatro Maria Matos [onde decorreu o Festival da Canção] a fotografar. O facto de, dentro da RTP, ter sido ventilada a hipótese de proibirem a canção de ir à Eurovisão dá que pensar. Como é que é possível que a televisão oficial de um país boicote a canção que acabou de ganhar? Sei que, nessa reunião, quem alertou para eventuais repercussões internacionais foi o maestro Jorge Costa Pinto. Foi ele que explicou que tal decisão seria um passo negativo para Portugal, tendo em conta a forma como estávamos a ser vistos na Europa e no mundo.  

50 anos depois, o que é que o inquieta no Portugal de hoje?

Há exceções, mas os políticos em geral, pelo menos os que estão aos comandos, estão sistematicamente a falar na democracia. Mas a democracia, que facilita muito o funcionamento das sociedades e do mundo, não é perfeita. Não sendo perfeita, às vezes pode lesar o que é mais importante: a liberdade. A liberdade é uma coisa do espírito, é espiritual. A democracia nasce da liberdade, mas a liberdade não nasce de coisa nenhuma. A liberdade é algo que a gente quer ou não quer. Quando estamos convencidos de que a liberdade está garantida começamos a fazer asneiras. E também começamos a permitir certas coisas que "não estão no programa". O que se está a passar no nosso país é grave. Há pessoas que se encarregam de satirizar. O Ricardo Araújo Pereira, por exemplo, afiambra violentas cacetadas no que está mal. E tem audiência. Acho que está a ter uma atitude muito corajosa porque a pressão extremista e absurda, para não chamar outra coisa, é muito grande. Nós temos de ter consciência que as coisas se vão agravar no plano democrático. A ideia de liberdade que existe em nós tem de servir como oposição. E essa oposição tem de ser muito dura. Só assim é que conseguiremos manter a liberdade. Não a democracia, mas sim a liberdade. A democracia está enjeitada, está amarrotada porque a liberdade não está absolutamente institucionalizada.      

A história do videoclipe da 'Tourada':