Festa do Cinema Italiano começa hoje

Entrevista ao programador Stefano Savio, que enquadra a edição deste ano.

A Festa do Cinema Italiano não é só uma imensa e fascinante viagem aos variados filmes de uma das grandes pátrias da sétima arte. É possível descobrir um novo cineasta italiano, rever um grande clássico do país transalpino e, no mesmo evento, beber um copinho de limoncello no bar italiano montado para a ocasião no Cinema São Jorge, ou ouvir canções italianas na voz de Salvador Sobral (que vai homenagear o músico lendário Franco Battiato no Cinema São Jorge, no dia 7), ou sermos nós mesmos a cantá-las numa festa karaoke no Teatro A Barraca (na noite dia 6), ou dancemos italo disco n’A Voz do Operário (no dia 2). Estar num festival de cinema significa vivê-lo e não só vê-lo.

Mas relembremos, o grosso da Festa do Cinema Italiano é evidentemente o numeroso contingente de filmes brotados daquela mágica e heterodoxa península mediterrânica. Nesta 15ª edição, o radar volta a estar ligado para apanhar o melhor da produção recente, ao mesmo tempo que a arqueologia cinéfila recupera clássicos e desterra películas mais esquecidas.

Um dos grandes homenageados desta edição é Pier Paolo Pasolini, com uma longuíssima retrospetiva sobre a sua obra. Lisboa é só o epicentro deste festival, que se alarga a outras cidades e vilas, como o Porto, Aveiro, Viseu, Coimbra, Alverca, Cascais, Setúbal e Beja. 

Para consultarem a programação completa, podem consultar o site oficial da Festa do Cinema Italiano neste link.

Stefano Savio vem de uma aldeia montanhosa do nordeste de Itália, não muito longe de Veneza. A paixão pelo cinema surge quando os pais lhe pedem que gravasse e arquivasse os filmes em VHS que passavam na televisão italiana. Depois, as dicas de um tio e a ida para a universidade de uma cidade como Trieste abriram-lhe mais janelas. O trabalho de arquivamento é só uma fase do seu envolvimento com o cinema. Segue-se a preocupação em mostrar filmes e não só a arquivá-los. O primeiro ciclo que programa em Itália é, curiosamente, sobre o cinema português (as longa-metragens de João César Monteiro, Recordações da Casa Amarela, ou Non ou a Vã Glória de Mandar de Manoel de Oliveira foram alguns dos filmes exibidos). Tal como muitos dos italianos que vivem hoje em Portugal, a residência de Savio no nosso país iniciou-se com o programa Erasmus. E por cá deu continuidade aos seus hábitos de programação de cinema, no núcleo de cinema da Universidade de Letras, juntamente com Gonçalo Tocha, que destacar-se-ia como documentarista. Stefano Savio filmava os concertos da banda de então de Tocha, os Lupanar, onde cantava Ana Bacalhau (que se afamaria como cantora dos Deolinda). Bastantes anos mais tarde, em 2017, regressou a Portugal, já em definitivo, para trabalhar na Cinemateca e no Lisbon & Estoril Film Festival como programador. Mas é na qualidade de programador e diretor artístico da Festa do Cinema Italiano, que o entrevistamos.


A Festa do Cinema Italiano está com uma programação muito vasta e variada. Entre as novas produções, temos ficção, documentários e animação, e depois temos as retrospetivas e os filmes históricos mais e menos conhecidos. A ideia é mesmo apanhar tudo?
Fazemos uma escolha estrita apenas geograficamente, porque dentro dessa restrição tentamos ser o mais abrangentes possível. Consideramos que o cinema e a cultura italianos são muito variados, para conseguir atrair vários tipos de público. O nosso objetivo é também tentar ser interessante, com elementos da cultura italiana, às vezes mais óbvios, às vezes mais surpreendentes. Há muitos espectadores que só vão ao cinema neste festival. É muito interessante conseguirmos atrair um público que normalmente não vai a este tipo de eventos, ou que não vai ver este tipo de cinema mais alternativo. A nossa tarefa principal é abrir a curiosidade das pessoas. Depois é importante fidelizar o público, garantir a qualidade do evento que continua a acontecer. O objetivo é criar novos cinéfilos, que possam ocupar as salas de cinema e outros festivais. Sinto que é um trabalho de formação de público, utilizando os trunfos da cultura italiana. 

 

Costumam atrair público italiano?
Sim. A comunidade italiana em Portugal quadruplicou nos últimos sete anos e há claramente uma presença de italianos no festival. Mas não é a maioria do público. Para nós, é mais interessante envolver os italianos e juntar as duas culturas. É importante ter portugueses a fazer coisas sobre a cultura italiana. Não queremos ser um evento para a comunidade ou que esteja demasiado ligada aos estereótipos da cultura italiana. Convidámos o Salvador Sobral a fazer um concerto sobre o Franco Battiato, que foi um grande músico e autor italiano que faleceu no ano passado. Ele foi também um realizador de cinema. Conseguimos juntar a paixão do Salvador Sobral pelo Franco Battiato e pela música italiana em geral, aproveitando o contexto do cinema italiano para abrir a esse tipo de colaborações.

Além do concerto do Salvador Sobral, há ainda eventos paralelos ao cinema como uma festa karaoke com canções italianas ou uma festa de italo-disco. É importante o festival crescer para além do cinema?
É importantíssimo. Depois de dois anos de pandemia, percebemos o quão importante é o lado social do evento. Se não se construir à volta do cinema um contexto social, é complicado envolver mais o público. Percebemos a importância de ter um público mais jovem e mais ativo e por isso temos que cruzar a nossa programação. A festa do italo disco vai ser a 2 de abril, com quase mil convidados, com espetáculos de drag queen, um concerto inédito com os grandes sucessos pop da música italiana e DJs. Não é um acontecimento cinematográfico, mas pode abrir para um público diferente. Esta interação é muito importante. Não queremos que um espectador veja só um filme e vá depois para casa. Temos que criar algo que seja abrangente, que mantenha as pessoas ligadas ao evento. Vamos ter um bar italiano durante a Festa. O evento karaoke é também muito simpático. Tentamos cruzar-nos com outras artes, como a literatura, com a leitura sobre o Pasolini ou o [Antonio] Tabucchi. O importante é ampliar o evento, onde as pessoas possam ficar. Queremos que o espectador encontre um lugar de partilha, para poder falar com outras pessoas e trocar impressões. 


   
Quais as razões para "Ennio" ser a Sessão de abertura, e "Il Bambino Nascosto" ser a sessão de encerramento? 
O Ennio é uma homenagem a um grande maestro da música e também do cinema italiano. Tivemos a oportunidade de fazer uma grande retrospetiva [sobre Ennio Morricone], na Cinemateca. É a primeira vez que mostramos ["Ennio"]. O realizador é o Giuseppe Tornatore, que venceu o Óscar [de Melhor Filme em Língua Estrangeira] pelo "Cinema Paradiso", e foi um grande colaborador do Morricone. Este filme é um gosto, o trajeto artístico do Morricone é tão amplo, cruzou-se com tantos colaboradores e tantos tipos de cinema. Estamos a falar de quase cinquenta anos de obra, toda condensada nas palavras do Morricone. É uma longa entrevista com vários colaboradores. Quem gosta de cinema e de música, tem pela frente duas horas e meia de grande prazer. Achámos que era uma ótima maneira para abrir um festival, que deva ter como base o prazer do que é o cinema. Partilha-se o que é o gosto coletivo pelo cinema. O Ennio Morricone fala do que é a criação de um filme nos bastidores, em paralelo com a paixão pela música. Acho que consegue cruzar as duas coisas. Parece-me um ótimo início para abrir o petite. 


[Esta edição] acaba com o “Il Bambino Nascosto”, que acho que é um bom adeus e que encerrou este ano também o Festival de Veneza. “Il Bambino Nascosto” significa qualquer coisa como "O Rapaz Escondido". É um filme do Roberto Andò, conhecido pelo "Viva la Libertà", que é uma comédia muito divertida, com o Toni Servillo a interpretar dois gémeos que se cruzavam num cargo político. ["Il Bambino Nascosto"] é um filme que reflete mais sobre um professor que regressa a casa, em Nápoles, e encontra um rapaz que está escondido, para se proteger das vinganças da Máfia local. Desse encontro inesperado nasce uma relação entre os dois.

 

Posso desafiá-lo a recomendar dois filmes históricos menos óbvios que estão na programação?
O protagonista mais evidente é o Pier Paolo Pasolini. É praticamente uma retrospetiva integral que vamos mostrar. Gosto muito do "Comizi d’amore" ["Comícios de Amor"]. O Pasolini foi viajando pela Itália, a perguntar aos jovens "o que é que é o amor para si?". Dentro dessa naturalidade com os que rapazes respondem a uma pergunta tão importante, revela-se também o segredo do cinema. Fica-se apaixonado com o que os rapazes e raparigas estão a dizer. Apercebemo-nos que nas décadas seguintes houve outros "Comizi d’amore", outros filmes como este, em que voltaram a fazer estas mesmas perguntas, até chegar ao filme "Futura", que reúne três grandes realizadores, incluindo Alice Rohrwacher, onde voltam a perguntar "o que é o amor?", "o que é o futuro?". Ao fim de cinquenta anos, algumas respostas são diferentes, outras são iguais. Acho uma obra-prima do cinema italiano. Há uma homenagem ao centenário de dois grandes intérpretes do cinema italiano, muitos ligados à comédia italiana: o Vittorio Gassman e o Ugo Tognazzi. Mostramos um filme que juntou os dois atores emblemáticos: "I Mostri" ["Os Monstros"], do Dino Risi. É um filme fantástico. É um dos grandes exemplos do que é a comédia italiana, conseguindo pôr a rir e ao mesmo tempo assustar. Também ligado mais ao setor culinário, com interpretação de Ugo Tognazzi, mostramos o "Pato com Laranja". Há uma história com esse filme em Portugal. Na sua estreia televisiva em Portugal, no início dos anos 80, a transmissão foi interrompida por causa do número de chamadas telefónicas de protesto. O filme foi exibido em horário nobre e tinha algumas cenas de nudez. Como a transmissão foi interrompida, a maioria do público não sabe como acaba o filme. Temos a possibilidade de o mostrar, em conjunto com um jantar na Festa do Cinema Italiano.  

 

O Martin Scorsese fez a série documental "Il mio viaggio in Italia", sobre os filmes italianos que mais o encantaram, focando-se em poucos cineastas do país. Se fosse o Stefano a fazer essa série, que realizadores acrescentaria àqueles que surgiram (Rosselini, Fellini, De Sica, Visconti, Blasetti, Antonioni)? 
Iria sair dos clássicos, provavelmente. Apesar dos muitos anos que passaram, a comédia italiana mantém-se incrivelmente atual. O Dino Risi, o Mario Monicelli e o Ettore Scola teriam que estar lá. Com o distanciamento temporal, estou a perceber isso. Também incluiria um outro género [terror ou o giallo], como o Mario Bava ou o Dario Argento. Há ainda os cineastas que marcaram a minha geração como o Matteo Garrone, que fez filmes marcantes como o "Gomorrah" ou o "Primo Amore", o "Conto dos Contos" ou o "Pinocchio". Acho que ele é o melhor representante do cinema italiano, juntamente com o Paolo Sorrentino, que é o mais visível.