Filme "Justa": nas cinzas de Pedrógão
Entrevista à realizadora Teresa Villaverde sobre esta ficção que conta com Filomena Cautela e Betty Faria no elenco.
Está desde hoje em exibição nas salas de cinema o novo filme de Teresa Villaverde, “Justa”, uma ficção que aterra nas cinzas dos incêndios de Pedrógão Grande, que, em 2017, mataram 66 pessoas.
Cabe à atriz debutante de 9 anos Madalena Cunha um dos papéis principais, na personagem de Justa, uma menina que perde a mãe nos incêndios e que ganha uma personalidade forte que atesta o drama íntimo que vai na sua alma. A relação com o pai, queimado e afetado pelos incêndios (interpretado por Ricardo Vidal), é um dos motores narrativos de um filme emocionalmente denso, cujas camadas são também tecidas pelas atrizes Filomena Cautela e Betty Faria.
Entrevistámos Teresa Villaverde, uma das grandes mulheres da realização no cinema português e que tem em “Justa” mais uma empreitada dramática na sua riquíssima filmografia de mais de 30 anos.
O que te mobilizou a partir para este filme?
No início, quando aconteceram estas tragédias de 2017, é óbvio que eu não pensei em fazer um filme, quando fiquei impactada, como todos os portugueses, acho eu. Longe de mim imaginar fazer um filme, mas um ano mais tarde, calhou, passei numa estrada por toda aquela área ardida. Acho que a maior parte das pessoas que não passou por esse lugar não tem ideia da dimensão da área queimada, que eram quilómetros e quilómetros e quilómetros. É muito impressionante. A natureza olha-nos com ar de acusação. Há todo aquele silêncio, não há animais, não há nada. Há a sensação de respeito, que nós temos que ter pela natureza e respeito pelos mortos, pelas pessoas que morreram ali, de certeza que aconteceu a muita gente. Se uma pessoa vai no carro a ouvir música, imediatamente desliga, mesmo que não esteja ali ninguém. Depois acontecem umas pequenas notas que vão desencadear o desejo de trabalho de escrita, que foi num desses caminhos ter visto uma senhora um pouco velhinha, sentada numa cadeira sozinha, a bastantes metros da povoação, a olhar para um vale e uma montanha completamente ardidos. E eu ficara a pensar: "Mas, mas o que é que a senhora está ali a fazer? Como é que se sentou ali e arrastou a cadeira até tão longe? E no que é que ela está a pensar? E porque que está a olhar para aquilo?" E eu quis ir falar com ela e hesitei bastante se parava o carro, não parava. E não parei. E depois fiquei durante muito tempo muito arrependida por não ter parado e não lhe ter perguntado o que é que estava a fazer ali. Nunca mais me esqueci dela e foi a partir desse momento que eu comecei a sentir que ia trabalhar sobre este assunto. Foi a partir desse momento que eu senti que queria trabalhar sobre esse assunto e depois, com a ajuda da Associação das Vítimas de Pedrógão, consegui chegar a algumas pessoas que tinham perdido pessoas da família; outros que tinham perdido casas. E as pessoas receberam-me em sua casa. Eu fui sozinha e sem câmaras, nem gravadores, nem cadernos, nem nada. E se calhar, por isso também as pessoas ficaram mais à vontade em falar comigo, porque eu também estava em casa delas, não sei. Foram de uma generosidade enorme e foi muito, muito impactante porque já tinha passado um ano e o que eu senti foi que muitas das pessoas ainda estavam completamente em estado de choque. Foi terrível.
Esse trabalho de preparação no terreno durou quanto tempo?
Na realidade, não foi muito tempo. Aquilo foi tão forte e tão impactante que eu senti que não precisava de ir muitas vezes, nem de conhecer muitas pessoas. Só para dar uma ideia, a última pessoa que eu vi foi uma psicóloga que trabalhava numa escola até ao nono ano. Havia algumas crianças que tinham sido tocadas por tudo isto, umas diretamente, outras porque tinham colegas que tinham vivido e que estavam próximos dessa história. Eu não me lembro de absolutamente nada da minha conversa com a psicóloga. Só me lembro dela me dizer assim: "Olha, eu acho que o melhor é você ir-se embora e ir para o pé das pessoas que ama e vá-se embora". E é a única coisa que eu me lembro da conversa. Foi difícil fazer este filme, porque embora seja completamente uma ficção, e é importante que isso fique claro, parte de uma coisa real que aconteceu há muito pouco tempo. Falar do filme também não é muito tranquilo, porque me lembro das pessoas que conheci. E isso é muito impressionante. Quando acontece uma coisa terrível, nós tendemos depois a esquecer. Uma vez por ano, há uma homenagem às vítimas mortais. Contabilizam-se os mortos, mas não se contabilizam os vivos. Há uma coisa bastante portuguesa: não se fez nada. Por exemplo, este ano, ainda ardeu mais do que em 2017. Por sorte, não aconteceu uma tragédia daquela dimensão. E ninguém nos garante que não volta a acontecer. Falamos em Portugal do interior, como se Portugal fosse um país enorme. E, por exemplo, eu estive a apresentar o filme no Brasil e, ao falar com os jornalistas brasileiros, dou-me conta do ridículo que é dizer interior. "Interior como? Vocês são uma coisa minúscula, que praticamente só é litoral." E como é que nós, sendo um país tão pequeno, não nos conseguimos organizar de outra maneira? Como é que a chamada coesão territorial é uma coisa que não existe? Como pode ser tão difícil organizar um país tão pequeno? É uma coisa que não consigo compreender.
O drama do incêndio sente-se muito no núcleo familiar da filha e do pai. Lentamente vamos percebendo e ficamos intrigados porque ela tem ali uma personalidade muito forte, que parece muito magoada, muito marcada. Como é que se dota uma criança com tanta personalidade? Aquilo já vinha com a atriz ou trabalhaste isso com ela?
É um pouco as duas coisas. Eu não fiz castings para papel nenhum, exceto para a criança. Fiz [o casting] também no chamado interior. Senti nela essa força e inteligência emocional, apesar da idade. E ela é muito grande, ela tem nove anos. Parece muito mais velha. Há crianças assim, de uma sensibilidade enorme e, portanto, é muito mais fácil dirigir uma criança assim. Ela percebia todas as situações e o meu trabalho era limar arestas. Pegamos sobretudo em pessoas não profissionais, o grande trabalho é mais escolher do que dirigir e na escolha é que nós não podemos falhar. E eu tenho tido em vários filmes bastante sorte.
Como nos “Mutantes”, por exemplo, com a Ana Moreira?
Exato. Tenho tido bastante sorte com as minhas escolhas. Como tive tanta sorte nos “Mutantes”, estava com medo de que o universo não me concedesse outra vez sorte, e tive-a. O grande trabalho é escolher, é na escolha que não se pode falhar, porque se se falha na escolha, depois dirigir é fácil.
Vemos a atriz Filomena Cautela de uma forma completamente diferente do que o grande público costuma ver, bem mais desmaquilhada e até mais bonita. O que te fez apostar na Filomena Cautela?
À Filomena Cautela, não fiz casting nenhum, como é evidente. Mas quando fiz no passado, por exemplo, eu via sempre frame a frame [nos castings]. Não me interessava ver o conjunto do que a pessoa tinha feito, porque eu queria ver frame a frame, ou em câmara lenta para ver nos intervalos os olhares. A Filomena Cautela, dentro daquele seu profissionalismo gigante, que acho absolutamente inacreditável que faz na televisão, se nós olharmos bem, há uns intervalos que eu tive a sorte de ver e então fui buscar foi esses intervalos, essas pequenas coisas que ela deixa escapar às vezes. Há uns momentos que dá para perceber que é uma pessoa muito habitada por dentro e foi isso que eu procurei em todos.
Temos também a Betty Faria. Já não é a primeira vez que recorres a uma figura brasileira. Já foste buscar o Chico Buarque, para o filme “Justa”, que não é uma pessoa qualquer. Há um fraquinho teu pelo Brasil?
No caso da Betty Faria, considero-a mesmo uma gigante como atriz e aquele papel era muito difícil. E eu sentia que não podia mesmo falhar e que era absolutamente indiferente se ela era portuguesa, ou brasileira. A fundadora da Associação das Vítimas de Pedrógão [Nádia Piazza] já vive em Portugal há muitos anos, mas ela é brasileira. E eu conhecia a Betty Faria e nós dávamo-nos muito bem pessoalmente. E então foi a partir daí que eu pensei: “vou convencer a Betty a vir”. E ela veio e estou mesmo muito feliz. Ela foi também de uma generosidade enorme a contracenar com não-atores e para ela isso não foi sequer uma questão.
Ao longo da tua filmografia, concentras-te mais numa figura feminina. Isso é uma tendência?
No “Colo”, eu acho podemos dizer que o personagem central é um homem, o grande ator João Pedro Vaz - que me ajuda numa cena deste filme, “Justa”. E neste filme, eu acho que todos eles são muito importantes. E há o pai da “Justa” [Ricardo Vidal]. E há o rapaz [presente no cemitério]. É muito impactante a personagem da Betty Faria; não só a personagem como também a força que lhe dá. Durante muitos anos, eu acho que, se calhar, eu não percebia ainda bem os homens; não sei, mas agora já me sinto mais à vontade para escrever sobre homens também.
Lembro-me de um concerto do Vincent Gallo em Paredes de Coura, em 2005, em que ele passa um bom bocado do concerto a falar de ti, de uma forma muito apaixonada. Fala do teu comunismo. Imagino que tenha sido uma colaboração muito agradável.
O Vincent Gallo trabalha no meu primeiro filme, no “A Idade Maior”, e também porque já nos conhecíamos antes, e é um grande artista, porque ele é um grande realizador, um grande ator, um grande pintor, um grande músico. É assim uma pessoa, que realmente, faz muita coisa. Não é muito fácil trabalhar com ele. Devo dizer que não há muito tempo estivemos quase a trabalhar outra vez. Mas por motivos de agenda, já não sei muito bem, não aconteceu. Pode ser que um dia volte a acontecer, embora neste momento ele ande com umas posições políticas um bocado estrambólicas. Vamos ver se ele volta a pôr a cabeça no lugar.
