FIMFA 2026: um "ano zero" para surpreender e expandir o território das marionetas

De 7 a 31 de maio, o Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas apresenta mais de 100 representações de 23 companhias de 12 países. O FIMFA sobe a vários palcos de Lisboa e termina com um piquenique.

Na sua 26.ª edição, o FIMFA – Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas – assume-se como um recomeço. É um novo ciclo que procura reafirmar o festival como referência internacional e, ao mesmo tempo, aproximar-se ainda mais do público.

“É como recomeçar tudo de novo”, afirma Luís Vieira. “Estamos empenhados em apresentar a melhor edição de sempre”, acrescenta, sublinhando a ambição de consolidar o FIMFA como “plataforma internacional” capaz de trazer a Portugal o que de mais relevante se faz no mundo das marionetas contemporâneas.

A programação reúne mais de 25 projetos de vários países, muitos em estreia nacional, e reflete as tensões e inquietações do presente. “Vivemos num mundo em transformação, que afeta todas as pessoas, incluindo os artistas”, diz o responsável, destacando temas como as alterações climáticas, a guerra ou a intolerância, que atravessam muitos dos espetáculos.

A par da dimensão internacional, o FIMFA reforça também a sua relação com Lisboa, ocupando diferentes espaços e chegando a novos públicos. Rute Pinheiro, também responsável pela organização, sublinha esse crescimento contínuo: “Fomos invadindo a cidade”.

“Todos os anos tentamos continuar a apresentar o FIMFA nos espaços onde já estávamos fidelizados, mas também crescer”, explica. O regresso ao Centro Cultural de Belém é um dos exemplos dessa estratégia: “É um prazer novamente voltar”. Ao mesmo tempo, a escolha de novos locais permite “espalhar o festival por Lisboa” e garantir que “pessoas de várias zonas da cidade possam ter mais acesso”.

Um dos desafios centrais do festival é construir uma programação que dialogue com diferentes gerações. “Costumamos dizer que é para quase todas as idades”, afirma Rute Pinheiro.

O espetáculo de abertura, Dead as a Dodo, ilustra bem essa ambição: “Brincamos a dizer que é dos oito aos cento e oito anos”. A chave está na criação de obras com múltiplos níveis de leitura, capazes de envolver públicos distintos. “É difícil encontrar espetáculos assim, mas no campo da marioneta isso é possível”, explica.

A aposta em linguagens visuais é determinante: “Temos muitos espetáculos que não têm palavras ou, quando têm, garantimos sempre legendagem”. O objetivo é claro: permitir que a mensagem chegue a todos, independentemente da idade ou da língua.

Num tempo marcado pelo consumo rápido de informação, o FIMFA aposta na experiência ao vivo como espaço de descoberta. “As pessoas acham que já sabem tudo, que basta um clique”, observa Luís Vieira. “Mas não é assim. Ainda há espaço para o espanto”.

O teatro surge, assim, como um território onde o tempo desacelera e onde o público pode reencontrar o inesperado. “É uma oportunidade de sair de casa e entrar num espaço onde a vida é paralela”, diz.

Além da dimensão internacional, o festival mantém um compromisso forte com a criação nacional. “Sempre tentámos trazer as melhores companhias portuguesas ou os projetos mais interessantes”, afirma Rute Pinheiro.

Esse trabalho tem contribuído para mudar a perceção sobre a arte da marioneta em Portugal. “As pessoas deixaram de ver os marionetistas como quem anima bonequinhos”, diz. “Percebem que é uma arte muito exigente”. E resume com humor: “Os marionetistas somos um canivete suíço das artes”.

Entre os destaques nacionais desta edição estão projetos como Vidro Pantera, da companhia Teatro de Ferro em colaboração com a Alma d’Arame, ou propostas do coletivo Radar 360 e do Teatro Praga. A presença de programadores internacionais transforma o festival numa plataforma de circulação: “É uma oportunidade para os artistas mostrarem o seu trabalho fora de Portugal”.

A valorização da marioneta passa também pela investigação e pela memória. O Prémio Henrique Delgado, criado em 2019, homenageia uma figura fundamental para o estudo desta arte em Portugal.

“Se não fosse ele, muito do que sabemos sobre as marionetas tradicionais não teria chegado até nós”, lembra Rute Pinheiro. O prémio distingue investigadores e companhias, contribuindo para dar visibilidade a um trabalho muitas vezes desenvolvido “sem apoios”. “É uma forma de valorizar e incentivar mais pessoas a interessarem-se por este campo”, acrescenta.

Para quem se estreia no FIMFA, Luís Vieira deixa três sugestões. Desde logo, Dead as a Dodo, no Teatro São Luiz: “Um espetáculo extraordinário e deslumbrante”.

Segue-se O Louco, inspirado em Diário de um Louco, de Nikolai Gogol, apresentado no Teatro Variedades: “Uma pérola de manipulação”, onde marionetas à escala humana desafiam a perceção do público.

Por fim, Dark Circus, da companhia Stereoptik, que cruza desenho, animação em tempo real e música ao vivo: “Absolutamente incrível”, diz.

Olhando para o futuro, o espírito é de continuidade e renovação. “Continuamos a vislumbrar um futuro para o festival”, afirma Rute Pinheiro. A ambição é clara: “Que cada ano seja sempre um pouco diferente”.

Num mundo em mudança, o FIMFA quer continuar a ser um espaço de reflexão, descoberta e expansão artística. “Ainda há muito por desbravar”, conclui.