Florbela Queiroz e José Raposo partilham o palco e o amor ao teatro

Os dois atores fazem parte do elenco "Um Quinteto de Morte", que está em cena do Teatro Armando Cortez, em Lisboa.

"O teatro dá-me a vida." É desta forma que Florbela Queiroz e José Raposo vivem cada subida ao palco, que por estes dias partilham na peça "Um Quinteto de Morte".

Com 83 anos de vida e quase 70 de carreira, Florbela sublinha que a idade é o que menos importa na arte de representar. É até "ridículo essa coisa das idades, porque se há uma profissão em que nós podemos trabalhar até morrer, é esta, porque o teatro é a vida, é o espelho da vida. E, portanto, há avós, há avôs, há velhinhos, velhinhas. Portanto, pode-se trabalhar até morrer."

A acompanhar o amor pelo teatro está também a luta pela resistência do mesmo em Portugal, porque "há dinheiro para tudo, mas para o teatro nunca há."

Por isso, Florbela Queiroz deixa um apelo sentido ao público neste Dia Mundial do Teatro: "venham ao teatro, porque o teatro dá-vos cultura, dá-vos a vida. Enquanto que na televisão vocês podem ver no outro dia, puxam para trás. No teatro não podem puxar para trás. E os atores que morrem já não os puxam para trás. Portanto, vão vê-los enquanto eles estão vivos."

ENTREVISTA A FLORBELA QUEIROZ

José Raposo, "fã" da mestre Florbela, lamenta o pouco reconhecimento que é dado aos atores mais velhos, porque este "é um país que não é para velhos, então na cultura nem se fala".

Na Casa do Artista, instituição que lidera, José convive com "os grandes mestres (...) referências de toda a classe artística" e não vê "grande interesse dos mais jovens em aprenderem com eles." Diz que "a culpa é de quem não convida estas pessoas, estes mestres, a irem aos sítios, às escolas, às próprias produtoras de televisão e tudo para conversar. Não é preciso mais nada. Basta conversar com estas pessoas que, através da sua experiência, têm um legado incrível para passar a toda a gente nova".

Quanto ao teatro, é uma arte que resiste e "nunca vai acabar", por muito que avance a tecnologia ou a Inteligência Artificial.

"Inventem o que quiserem, os clones e as coisas que quiserem, isto só existe se os atores existirem, se estiverem ali figuras de carne e osso à frente das figuras que estão sentadas de carne e osso, a sentirem a sua respiração, o seu suor, o seu riso, o seu choro. Só aqui é que é possível existir esta interlocução entre artistas e público", realça o ator.

Pode fazer televisão e cinema, mas o teatro é para José Raposo "a mãe da arte de representar em todas as vertentes."

"É a minha praia", conclui o ator que "tem o orgulho" de partilhar o palco também com os filhos, Ricardo e Miguel.

ENTREVISTA A JOSÉ RAPOSO

"Um Quinteto de Morte"

A peça "Um quinteto de Morte" está em cena no Teatro Armando Cortez, em Lisboa, até dia 29 de março, mas a partir de junho vai andar por Faro, Figueira da Foz e Porto.

Na peça, a personagem de José Raposo lidera um grupo de criminosos, disfarçados de músicos, que aluga um quarto na casa de uma velhinha, interpretada por Florbela Queiroz.

"Florbela Queiroz é uma comediante genial, sem dúvida. Com a Florbela sempre me delicio com os seus tempos de comédia, a forma como lança as graças. O tom muito, muito baixinho, não é preciso dar gritos para se ter graça", diz José Raposo.