Fogo do Vento: "Não é a história dos historiadores, é a história dos protagonistas"
A primeira longa metragem da realizadora Marta Mateus chega às salas de cinema esta quinta-feira.
“Fogo do Vento” estreia esta quinta-feira nos cinemas portugueses.
A primeira longa-metragem da realizadora Marta Mateus já passou pelos festivais como Locarno, Londres, Tóquio e Viena, além de ter sido incluída entre os 20 melhores de 2025 pela revista americana The New Yorker. O filme "Fogo do Vento" leva-nos numa viagem pela vida e memória dos trabalhadores rurais do Alentejo.
Há um paralelo constante entre o que era e o que é o Alentejo. Como se faz essa ponte?
O pequeno papel que um trabalhador passa ao outro e que diz que ninguém trabalha de sol a sol. Essa mensagem foi-me cedida pelos arquivos do PCP e, portanto, era um documento que circulava provavelmente na altura da luta pelas oito horas de trabalho. Não tenho a data do documento e provavelmente no arquivo também não existe, mas remete-nos para esse passado do Alentejo. Um passado de grande escassez e de fome em que as pessoas trabalhavam de sol a sol. Essa expressão nem sequer é verdadeira, porque eles começavam a trabalhar antes do sol nascer. Muitas vezes dirigiam-se para o trabalho antes do sol nascer e acabavam depois do pôr do sol.
Nós hoje já não vivemos assim. Há muita gente a trabalhar no campo ainda hoje, mas os horários e as condições são outras. Há muito mais tecnologia, que ajuda. Por outro lado, quando vi esse papel, pensei que o que vejo à minha volta é que as pessoas não param de trabalhar. Acho que não é só no Alentejo, é no país e se calhar no mundo. Há um relógio que não pára e as pessoas acumulam trabalhos. A legislação controlou e organizou as relações de trabalho, mas as pessoas acumulam empregos, acumulam trabalhos em casa. A ideia que eu tenho é que nós não paramos de trabalhar. As formas são realmente muito diferentes.
Não podemos fazer o paralelismo com o que vivemos hoje. As condições eram mesmo muito duras, agora são muito duras de outra maneira - com a precariedade, com o aumento do custo de vida que faz com que as pessoas tenham de ter vários trabalhos. O primeiro trabalho está regularizado e cumpre determinadas normas e princípios legais, mas depois não chega porque o salário é muito baixo então a pessoa tem que ter outro trabalho.
Há uma ideia de progresso. Somos filhos desse progresso, da diferença do que é que era a vida antes do 25 de abril e agora. Isso é claro: todos os ganhos que nós tivemos e os privilégios e a liberdade que nós temos hoje. Mas há qualquer coisa ainda por fazer.
É retratada a forma como se vivia no Alentejo durante o tempo da ditadura - a referência aos pés descalços, o começar a trabalhar muito cedo - numa população que continua em parte ativa e começou a trabalhar ainda em criança.
Isso era completamente vulgar. As crianças que tinham possibilidade de ir à escola iam muitas vezes só até à quarta classe. Por exemplo, a minha avó fez a quarta classe, não fez mais. O meu avô aprendeu a ler ao fim-de-semana, numa escola que havia no mercado ao sábado onde as aldeias e as pessoas que viviam nos montes, que era o caso do meu avô, iam fazer as suas compras ou trocas - de legumes, de mantimentos e daquilo que era necessário. Ele e os seus irmãos tinham aulas na Escola do Canal, que era no meio da Serra d'Ossa, ao pé de Estremoz. Depois regressava e o resto da semana enquanto tomava conta de ovelhas foi aprendendo a ler. Para mim sempre era um grande espanto quando ele nos contava isso, que tinha aprendido a ler praticamente sozinho. Espantava-me muito como é que isso tinha sido possível, porque ele depois realmente aprendeu a ler e escrevia. Até foi emigrante mais tarde.
As crianças começavam a trabalhar com sete ou oito anos. A história da Maria Catarina Sapata, que é uma das protagonistas do nosso filme "Fogo do Vento", é a de muita gente da geração dela. Nasceu em Veiros e Maria Catarina conta muitas vezes que uma das primeiras coisas que fazia de manhã era correr à aldeia, descalça, a bater de porta em porta para lhe darem de comer. Este não era ainda trabalho, mas era muito pequena e já participava naquilo que era a vida da sua família. Era uma forma de contribuir como podia. Além de tomar conta dos irmãos, que também era um trabalho que não se chamava trabalho, mas que as crianças também tinham e que hoje não têm. Depois esfregava garfos e facas de prata em casa de algumas pessoas da aldeia e por isso davam-lhe de comer. Mais tarde foi trabalhar para uma residencial, mas diz que chorava muito - não por causa do trabalho -, mas porque quando chegava à noite tinha uma refeição e não conseguia imaginar o que era os seus irmãos não terem em casa. Então voltou para casa e começou a trabalhar no campo. O trabalho no campo foi o que ela fez a vida inteira.
Isto é a história da Maria Catarina, mas era a realidade de muitas crianças no Alentejo, provavelmente da maioria. As famílias tinham muitos filhos e as crianças eram quase contabilizadas como uma economia da família porque participavam naquilo que eram mais uns braços para o trabalho. Enquanto criança, cresci com estas pessoas e ouvia as suas histórias. Cresci entre os anos oitenta e noventa, já não havia a fome de que eles falavam e já ninguém da minha geração trabalhava. Essas histórias, por comparação, impressionaram-me muito. Por isso quero voltar a ouvi-las e fazê-las ouvir, sobretudo nestes tempos em que parecemos esquecer que a história duríssima da ditadura, não é nada do que aquilo que nos estão a querer agora fazer acreditar.
O filme acaba por ser feito através da ligação que a Marta tem com o Alentejo.
Sou uma alentejana que tem algumas coisas em comum com estas pessoas mais velhas. Nasci numa casa sem eletricidade, no meio do campo, os primeiros vizinhos estavam a cerca de três ou quatro quilómetros. Essa experiência era muito ligada à natureza bruta, do contato com os animais e com a terra.
Quando nós temos esse contacto com a terra, temos também contacto com o dia e com a noite. Nós não tínhamos eletricidade, usávamos candeeiros a petróleo, a experiência da luz - do sol, da lua e das estações na paisagem - marca uma visão do mundo. Isso tenho em comum. Sinto-me próxima destas pessoas. A Maria Catarina, porque tem essa experiência do campo também, e como diz no filme "o campo é mesmo lindo, nunca nos aborrece". Nós decidimos que esse diálogo entrava no filme, porque é uma coisa que ela está sempre a dizer e é muito espantoso, porque é uma mulher que sempre trabalhou no campo e mesmo assim tem um fascínio e um amor pela natureza e pela sua transformação. O Alentejo tem essa relação com a força da natureza e aquela paisagem, que é da planície. Não é uma paisagem cerrada, como por exemplo, em Trás-os-Montes. Essa experiência está ligada a uma história e a uma cultura de pobreza e a um modo de vida.
A relação que as pessoas têm com o campo vê-se naquilo que as pessoas comem. A cozinha alentejana mostra o que é essa experiência de pobreza, mas ao mesmo tempo de invenção, de superação e de resistência. É procurar no quase nada e fazer milagres. É aquilo que nós experimentamos quando comemos uma açorda alentejana, que é uma invenção absolutamente extraordinária, é provavelmente das minhas sopas preferidas e é feita com praticamente três/quatro ingredientes - pão seco, coentros ou poejos que se apanha no campo, um bocadinho de azeite quando há, o sal e água quente. Claro que há as açordas mais ricas com o ovo, quando havia. Hoje em dia já se come com peixe e tudo mais, mas essa cultura para mim vem dessa experiência da natureza e da forma como aquelas pessoas se foram organizando e reinventando a partir do nada.
O filme, além destes relatos e reflexões, tem como fio condutor a fuga a um touro. Como surge a ideia de fazer esta ligação?
Foi a primeira imagem que me apareceu na cabeça, esta figura de um touro negro. Tenho imenso medo de touros, não tenho nenhuma relação. Vivo em Lisboa, já há muitos anos. Vou ao Alentejo e estou lá muito, mas não é uma imagem que esteja a ver repetidamente, nem tenho nenhuma relação com os touros, mas é uma imagem muito presente. Mesmo o animal está presente naquela paisagem no Alentejo. Já aconteceu a algumas pessoas, os touros saem das cercas e depois é difícil, têm de os ir apanhar.
Quando me surgiu essa imagem pensei: Por que é que estou a pensar num touro? O que é que vem a seguir a isto? O que é que acontece? O que acontece é que as pessoas têm de subir às árvores, porque é a única forma de quando estamos no campo nos protegermos. Isso aconteceu à Maria Catarina. Aconteceu a um amigo meu que quase passou a noite numa árvore. Nessa altura, nem sequer havia telemóveis. A única coisa que se podia fazer era esperar que alguém aparecesse. É isso que se pode fazer, porque um touro não se esquece de nós.
Do ponto de vista aristotélico, a ideia do conflito narrativo bastava e construí o filme à volta desse acontecimento, com a subida às árvores. Para mim era uma possibilidade de cada um ter o seu espaço e o seu lugar. Há uma comunidade que se forma em cima das árvores onde são todos iguais. Não há ricos, não há pobres. As pessoas ali estão todas na mesma condição e isso interessava-me. Nessa suspensão, estão entre o céu e a terra. Não estão nem com os pés no chão, nem no céu. Estão em cima das árvores. Interessava-me que esse fosse um momento de partilha de reflexões e memória individuais, que se intercruzam com a História, com "H" maiúsculo, coletiva e que ao mesmo tempo fosse sendo atravessada por diferentes tempos históricos. No fundo, também pelos nossos fantasmas, por aquilo que nós temos que, a meu ver, ainda resolver de alguma forma. Ver-nos numa parte da nossa história coletiva, que nós ainda nem sequer sabemos encarar, sobre a qual nós não estamos ainda preparados para refletir.
Isto vem também da forma como a história continua a ser dada nas escolas, é preciso, a meu ver, fazer o inverso. Não é a história dos historiadores, é a história dos protagonistas que nos livros não são lembrados. Os eventos históricos podem surgir-nos como números. Uma massa de pessoas não sabia ler nem escrever nessa altura. Não sei quantos soldados foram enviados para as antigas colónias. Essas pessoas tinham vidas, relações, filhos, irmãos, irmãs, mães, mulheres.
O que me interessava e o que eu acho que é importante é nós escutarmos estas histórias na primeira pessoa e percebermos que nós não somos números. Os soldados são pessoas que têm vidas e que quando são obrigados a ir para a guerra trazem memórias. Todas essas histórias de cada uma dessas pessoas compõem a nossa comunidade. Por isso é que é necessário voltar a ouvir e pensar no que foi essa história, se queremos mudar a narrativa e se queremos construir uma vida coletiva e em comunidade de outra maneira. Senão o que me parece é que esta linguagem da guerra, de todos os ataques pessoais e dos ataques a comunidades não vão cessar. São uma pescadinha de rabo na boca, uma bola de neve que não nos vai levar a lado nenhum e só nos vai oferecer as mesmas saídas. É preciso mudar a linguagem.
O filme também é uma reflexão sobre os modos de construção das várias narrativas da ficção a partir de documentos e relatos pessoais, mas é claro que é uma narrativa ficcional que junta muitas formas de construção. O touro é um touro. É um animal que existe no Alentejo e que nós conhecemos, mas também é um animal mítico e há muita gente que fala disso quando vê o filme. O mito constrói-se a partir dessas forças da realidade.
Como surge o título "Fogo do Vento"?
O nome surgiu-me logo no início quando comecei a escrever o filme e acredito que há ideias que nos vêm à cabeça que não têm muita explicação, mas soam bem, não superficialmente, trazem qualquer coisa de misterioso que faz parte desse corpo vital. Achei que fazia sentido e que era uma boa referência àquilo que queria trabalhar. São dois elementos da natureza e o espírito da palavra, que tem uma importância muito grande no filme.
Há poesia e há um modo de falar no filme. A nossa forma de falar no dia a dia. É muito singular numa forma de vida no Alentejo, que está também muito ligada à palavra e à oralidade, provavelmente porque é uma terra de poetas. Há menos, romancistas, mas há muitos poetas no Alentejo.
Tem a ver com uma forma de falar que está muito ligada ao gesto e, provavelmente, com o facto de muitas pessoas não terem ido à escola ou terem começado a ir à escola muito mais tarde. A oralidade e a tradição oral manteve-se muito viva e acesa. Essa riqueza do vocabulário e da forma de falar manteve-se. É o espírito. O fogo é o primeiro elemento. O vento é o ar, é aquilo que faz circular a palavra. É aquilo que faz de nós humanos, é podermos falar.
