Fontaines D.C.: poucas moshs, mas vozes nada amochadas

Noite linda merece o álbum fotográfico à altura, do nosso incansável Rúben Viegas.

A 9 quilómetros da Praça do Rossio, hasteavam-se também bandeiras da Palestina e vestiam-se keffiyehs palestinos dentro da MEO Arena, no Parque das Nações, durante o concerto de arranque da digressão internacional dos Fontaines DC. Durante as suas passeatas pela língua de palco (este alongamento de palco é uma novidade nos concertos da banda), o vocalista Grian Chatten pegou num kettiyeh e enrolou-se em vários bandeiras da Palestina (atirados pelo público) com a ternura fraternal de quem abraça um irmão. A este gesto não se deve chamar de “extremismo de extrema-esquerda”, mas sim de humanidade e de empatia por quem está de cócoras. A extremidade, a existir, é de humanidade. Tímido e bom rapaz, Grian Chatten não precisa de ser extremamente simpático. Se tanto canta sobre amor, é amor que irrompe ao enrolar-se numa bandeira de um país arrasado. Podia ser também uma bandeira da Ucrânia. Se fosse no início do século XX, seria uma bandeira da Irlanda. Como irlandês, Grian Chatten conhece bem a história da sua ilha, tantos séculos oprimida pelo vizinho britânico. Juntem a memória ao humanismo. O tema fantasmagórico de entrada, dos Dubliners, o poético e dramático ‘For What Died the Sons of Roisin?’ (que se ouviu na MEO Arena), reflete essa consciência histórica do que foi a Irlanda da fome e da miséria, quando subjugada como colónia do Império Britânico.

Brota também Irlanda em Chatten no trevo tatuado junto ao pulso, uma localização fotogénica perfeita para quem tanto pega no microfone. A camisola que vestia não era a alviverde do seu querido Celtic, mas uma t-shirt preta com a inscrição “Licence to Kildare”, um trocadilho com o bondesco filme “Licence to Kill”, que inspira um googlanço à tal Kildare, que parece ser uma verdejante e pacata cidade irlandesa. Também da voz de Chatten sai outro trevo, na forma do sotaque irlandês cerrado, que é mais percetível cantado do que falado. As poucas coisas que foi dizendo na MEO Arena caíram na incompreensão, só o “free Palestine” foi mais entendido – e mais aplaudido. Mesmo assim, Chatten falou bem mais do que nos concertos passados em Portugal.

Se o tempo muda, também mudam os Fontaines D.C., e pelo que se viu esta noite, também o público. Um tema de arranque, a abrir, como o vivaço ‘Boys in the Better Land’, teria sido um furacão de energia masculina no meio da plateia há quatro anos atrás. Agora, o público parece mais calmo, mesmo que ainda voem copos de cerveja e haja muitos saltos. As moshs diminuíram na arena à frente dos Fontaines D.C. mas não amocharam as vozes, que cantam ainda mais, às vezes verso por verso, como foi bem notório em ‘Jackie Down the Line’, ou nas baladas ‘In the Modern World’ e ‘Where Is Gone?’. Nesta última, Grian Chatten aguentou-se bem sem a sua parceira de dueto Rosalía, devolvendo o tema à sua maqueta, com aquela capacidade de intimidade de quem nos ilude a sussurrar, quando na verdade canta assertivamente com a sua voz grave e bem masculina.  

Na app que contabiliza os passos, Grian Chatten coloca o gráfico lá bem alto, de tanto andar em palco em hora e meia de concerto. O suporte de microfone é o seu companheiro, com quem faz uma espécie de rodeo, dando voltas ao objeto como uma criança traquinas que não sabe como se acalmar. O rocker Chatten trava uma espécie de batalha com o auricular direito ao longo de todo o concerto. Às vezes gesticula como um rapper, sobretudo quando se enrola na neura espiral dos mesmos versos (um bloqueio sobre saúde mental) de ‘Tongue’ ou, já no encore, ‘Starbuster’. Às vezes, o seu corpo parece pesado; às vezes leve. Ora tem ímpetos de calmeirão, quando incentiva o público, ora parece uma borboleta a voar pelo palco, apesar da envergadura atlética.

O som personalizado dos Fontaines D.C. barra da vista alguma referência óbvia. Os gostos ficam nos discos de casa e playlists pessoais, não passam muito no filtro da banda. Ou se passam, são dilacerados depois aos bocadinhos. A encontrar uma parecença mais óbvia com outro artista, ela é quanto muito física: o baixista Conor "Deego" Deegan III está cada vez mais parecido com o Martin Gore dos Depeche Mode (como ele era há mais de 30 anos). É isso. Talvez por aí se encontre alguma parecença.

A tribo atual de fãs dos Fontaines D.C. está muito diversa. Parece que os mais saudosos do rock aguerrido dos primeiros três álbuns estão mais descontentes com as guinadas recentes da banda, sobretudo com o mergulho nos sintetizadores do novo disco “Dopamine Chamber”. Estão no seu direito. Mas nem David Bowie poderia passar a fazer réplicas de “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars” para o resto da sua vida, nem os U2 de “Boy”, nem PJ Harvey de “Rid of Me”. E por isso sobreviveram tão bem durante muitos anos. Também os Fontaines D.C. não poderiam fazer sequelas do debutante “Dogrel” para todo o sempre. Ou mudavam, ou mirravam. Os Fontaines D.C. escolheram mudar, e de forma flagrante, a partir de “Romance”. E pelo que se viu na MEO Arena, estão a safar-se muito bem. Em muito pouco tempo, grande parte do público do quinteto irlandês está convertido às novas canções de “Dopamine Chamber”. Trauteiam a linha instrumental melódica de ‘Mimesis’, tratam por tu ‘Marianne’ e ‘Japan’ (outro clássico em perspetiva) e fazem de coro a ‘Where Is Gone?’.

A app de passos do fotógrafo Rúben Viegas também está com um pico alto no gráfico, tanto que andou e correu a tentar apanhar o andarilho Grian. Os corredores de fotógrafos estavam cheios de... fotógrafos corredores. Rúben Viegas cortou a meta com ótimos tempos, os ângulos captados são as suas medalhas. Aqui está serviço público nesta galeria de fotos.