Fontaines D.C.: trégua às guitarras, não à alma
O novo álbum "Dopamine Chamber" mostra uma banda que só obedece a si própria, não ao que esperam dela.
Se uma banda rock fizer sempre o que se espera dela, torna-se uma caricatura de si própria. E os irlandeses Fontaines D.C. não são essa banda, nem de perto, nem de longe. Dificilmente, poderiam ser só ouvidos como uma banda de pós-punk para o resto das suas vidas.
Em 2023, há um meteorito que se despenha a meio da discografia dos Fontaines D.C., e que tem impacto no ecossistema da banda, mudando-a para uma nova era. Refiro-me ao álbum a solo do vocalista do quinteto de Dublin, Grian Chatten, “Chaos for the Fly”, em que o cantor se desconstrói e se desdobra em formatos bem diferentes dos três primeiros longos dos Fontaines D.C.: “Dogrel” (de 2019), “A Hero's Death” (de 2020) e “Skinty Fia” (de 2022).
“Chaos for the Fly” semeia o quarto e revolucionário álbum dos Fontaines D.C., “Romance”, em que a banda passa a usar mecanismos menos orgânicos, incluindo as manipulações e as programações. Os Fontaines D.C. dos primeiros anos eram reconhecidos pelo rock aguerrido, mas já tinham dado ameaças quanto à sua heterogeneidade, nomeadamente a intimidade com o nervo da folk irlandesa, como no tema em gaélico ‘In ár gCroíthe go deo’, num encadeamento híbrido que os tira do lugar de conforto.
“Romance” deixa a descoberto na paisagem, mesmo que ao longe, os Tears for Fears. Quem entenda este disco como uma sedução ao grande público pode não compreender a atitude íntegra dos Fontaines D.C., que nunca se preocuparam com o que pensavam deles. E sempre que foi preciso levantar causas, como o hastear da bandeira palestiniana, assim o fizeram. A banda irlandesa nunca quis agradar a gregos e a troianos ao mesmo tempo, porque isso seria uma abdicação da sua identidade. E essa identidade da banda tem uma atração pelo risco, pela metamorfose, mesmo que possa não agradar a todos.
Quem manda um golpe estético como “Romance”, pode bem repetir a dose. Ou seja, vai querer continuar a mudar. E é por isso que aqui chegamos, ao quinto álbum “Dopamine Chamber”, hoje lançado, assente convictamente e sem rodeios na synthlândia. Há uma trégua às guitarras, mas não à alma. Grian Chatten é o trovador do trevo nas trevas, imerso numa névoa etérea e escura de sintetizadores, sem sebastianismos amorosos.
A banda tem forte personalidade para fazer as coisas à sua maneira e por isso as referências são sempre desfocadas e ao longe. Por aqui, em “Dopamine Chamber”, há uns lamirés aos Cure dos álbuns mais ligados aos sintetizadores da primeira metade dos anos 80, sobretudo “Pornography”. Um tema-exemplo dessa névoa em “Dopamine Chamber” é a faixa nº3, ‘Mimesis’.
O álbum é dominado por sintetizadores, muitos deles analógicos, mas as guitarras góticas ouvem-se frequentemente. ‘Happy For You’ é um dos raríssimos temas do disco em que se sente um vendaval de guitarras, mesmo que Grian Chatten priorize nele um registo mais intimista, ao estilo de ‘I Love You’ (o tema mais popular da banda nalgumas plataformas de streaming). O intimista Grian Chatten mantém esta característica de cantar a plenos pulmões com a ilusão de nos estar a sussurrar, como também acontece em ‘One Man’ ou em ‘Japan’, tema este que se escarrapacha aos ouvidos e depois se aninha.
Nesta alma convulsa de cantor, a dessincronização amorosa entre o passado feliz e o presente preso a memórias move quase todas as canções escritas por Grian Chatten. Em ‘Demolition’, ele canta “Arrow to the heel”, “flecha no calcanhar”, em que o apaixonado falha a pontaria ao coração dela. Adeus. O amor anda sempre às turras com a sorte, de par a ímpar, na oscilação entre o desejo e o amuo magoado, às reviravoltas entre o passado e o presente. E já se sabe, o amor é no passado e num futuro hipotético, e uma coisa etérea não palpável no presente. Estado solteiro, corpo solto, mas coração preso. É a sina.
Não há como ignorar os três singles de avanço, três das canções mais fortes de “Dopamine Chamber”. Em ‘Marianne’, os sintetizadores cintilam como sinos de Natal e Grian Chatten canta na direcção do teto das salas dos concertos, em palco o “room” soa a “roof”, é para lá que canta, para a desaparecida. Marianne é um fantasma amoroso, uma transcendência, um passado, uma despedida. Só vive a paixão. E ela? Vive na paixão dele, claro. Mas viverá? Dilemas que as canções devem deixar... vivas. Isso mesmo, Grian
Em ‘Tongue’, movido por uma dor imaginária (ou não), Grian Chatten entra numa convulsão emaranhada de versos repetidos e similares, a requerer um enorme fôlego, como se fosse a Carminho a cantar o labirinto tramado de palavras repetidas na ‘Balada do País que Dói’. O encontro intergaláctico de ‘Where Is Gone?’ é um dueto entre Chatten e a espanhola Rosalía bem aveludado, com deliciosa melodia, uma parelha vocal ainda mais deliciosa e um arranjo de cordas mais sensível do que extravagante. Eis mais uma prova do amadurecimento dos Fontaines D.C. e, não há como contornar isto, do próprio Grian Chatten. O momento de grandeza é musical, não carreirista.
A faixa-final 'Intimate' é o fade out de um álbum sempre de pouca luz, com muita névoa, como um synth-pop feito por pós-punks, numa conversão ao estilo dos pós-punk Wire em 1979, no álbum “154”. A sombra é estética, porque luz não falta às ideias. Os Fontaines D.C. estão num estado de omnipotência criativa, com frescura para dar e durar. Eles são a grande banda rock dos últimos anos.
Artigo de opinião
