Fungo Candida auris em Portugal pede atenção, mas não é "preocupante"
Um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto detetou oito casos de infeção em Portugal, incluindo três de doentes que morreram por comorbilidades severas.
O presidente da Associação Nacional de Controlo de Infeção (ANCI), David Peres, recomenda que Portugal se mantenha alerta depois de ter sido detetada a presença do fungo Candida auris no país, mas afasta para já um cenário que seja preocupante.
Um estudo divulgado esta terça-feira pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto mostra que em 2023 foram registados oito casos do fungo em Portugal. A nível europeu, desde 2013, há relatos de perto de 4000 casos.
Entre os casos portugueses contam-se três mortes, mas todas associadas a comorbilidades severas dos doentes. O fungo afeta "mais população suscetível", como doentes oncológicos ou com o sistema imunitário "não totalmente funcional", e em Portugal não há "níveis endémicos" de Candida auris. Ainda assim, alerta este especialista, nos casos mais sensíveis pode ter "efeitos mais nefastos" ou até mesmo "causar a morte".
Transmissão por contactos
Ao nível institucional, o líder da ANCI nota que Portugal conta com o Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica (SINAVE), que diz estar "muito bem montado" e que obriga os laboratórios, "sejam hospitalares ou da comunidade, a relatar microrganismos multirresistentes e também, quando existem, microrganismos emergentes, isto é, que não estamos habituados a ver na nossa prática clínica".
Ainda assim, detetar este Candida auris em laboratório é "difícil" e as preocupações não acabam aí, já que é "especialmente resistente à descontaminação" e "multirresistente", o que o torna "de difícil tratamento".
"Tem de haver sistemas, não só de alerta, mas também de capacidade laboratorial e ainda, obviamente, capacidade dos hospitais reagirem perante casos que surjam", avisa.
A transmissão é feita apenas por contacto direto - por exemplo, "através das mãos dos profissionais de saúde", ou indireto, "através de equipamento ou superfícies contaminadas". Por isto, David Peres sublinha que "os hospitais têm de ter não só capacidade de isolar estes doentes, mas também de tentar e de fazer um controlo ambiental e de descontaminação para evitar que se dissemine".
"Países como a Espanha, a Itália e a Grécia têm já níveis bastante preocupantes deste fungo. Não é o caso de Portugal", garante, já que os casos nacionals são "à partida considerados esporádicos".
Candida auris é uma levedura que pode colonizar a pele e causar infeções invasivas em doentes com fatores de risco, como doenças graves, tratamentos invasivos e uso de antibióticos e imunossupressores. Considerada uma ameaça à saúde pública global, está disseminada em vários continentes, atingindo cerca de 60 países.
Em setembro do ano passado, o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) alertou para a rápida propagação nos hospitais deste fungo resistente a medicamentos e pediu medidas para travar a sua disseminação.
Em comunicado, o ECDC indicou que, entre 2013 e 2023, foram registados mais de 4000 casos nos países da UE/EEE (inclui a Islândia, o Liechtenstein e a Noruega), destacando “um salto significativo” em 2023, ano em que foram divulgados 1346 casos em 18 países.

