Genesis em Cascais: aconteceu história há 50 anos
Testemunhos de Ramón Galarza que esteve presente no Pavilhão Dramático de Cascais.
Fazem hoje e amanhã 50 anos que aconteceram os concertos dos Genesis no Pavilhão Dramático de Cascais, descritos na imprensa como “o espetáculo mais belo e atraente que alguma vez passou por Portugal”.
Portugal era um marasmo a nível de concertos. Era muitíssimo raro alguém notável de fora vir a um país neutralizado por uma ditadura. Em 1971, houve uma pequena agitação com o Festival Vilar de Mouros - que trouxe a Portugal Elton John e os Manfred Mann - e com o Cascais Jazz - um cartaz de luxo com Miles Davis (com uma formação onde tocava que Keith Jarrett), Ornette Coleman (com o sempre interventivo Charlie Haden no contrabaixo) e Dexter Gordon, entre outros, no Dramático de Cascais. Foi também no Dramático que os Procul Harum deram dois espetáculos, corria o ano de 1973. E depois nada mais de significativo. O Estado Novo não autorizava concertos de rock de bandas estrangeiras em território português. Para se trazer uma banda como os Procul Harum, era preciso dar a volta ao bloqueio burocrático e argumentar que já não estavam numa fase rockeira, mas sim sinfónica.
O primeiro grande espetáculo de uma banda internacional de topo no Portugal democrático aconteceu a 6 e 7 de março de 1975, há 50 anos, por parte dos Genesis, no local do costume, o Pavilhão Dramático de Cascais – o nosso Madison Square Garden de então, 23 anos antes de surgir o Pavilhão Atlântico, em Lisboa.
Carlos Gomes foi o empresário que os trouxe. Mas os Genesis aterram num país carenciado de todo o tipo de infraestruturas. Não havia PA em Portugal para espetáculos de música. O pavilhão de Cascais não foi pensado para espetáculos de música. Mas os desafios eram não só de acústica, como de potência elétrica na fonte. “Precisávamos de um quadro diferencial de 400 amperes for fase, que era difícil de encontrar na altura. Custou 150 contos na altura [150 mil escudos, uma fortuna à época]”, recordava em 1988 Carlos Gomes, à RTP.
O recinto cascaense era então denominado como Pavilhão dos Desportos. Os bilhetes custavam 80 escudos na bancada.
No primeiro semestre de 1975, os Genesis ainda eram uma banda de rock progressivo, em que as camadas de elaboração se sobrepunham a um rock mais prático e orelhudo, como ficariam conhecidos mais tarde. Em março de 1975, Peter Gabriel era ainda o vocalista da banda. Phil Collins era o baterista, para quem muitos dos olhares já se desviavam.
Phil Collins surge no Aeroporto da Portela todo barbudo e vai ao barbeiro durante a estada por cá. Os vários membros dos Genesis dão um passeio no Palácio da Pena, em Sintra, incluindo Peter Gabriel. Os cinco membros dos Genesis tiram ainda fotos na idílica localidade costeira de Azenhas do Mar, onde aparentam muito bom humor. Peter Gabriel trouxe para Portugal a sua filha e bebé Anna-Marie (que 11 anos mais tarde apareceria no famoso videoclipe do pai, ‘Sledgehammer’ e que é hoje sua colaboradora visual em vários projetos). Peter Gabriel é fotografado por cá a brincar com a pequerrucha e a pegar-lhe ao colo.
O espetáculo que traziam a Portugal transpunha para o palco o conceito do álbum referencial dos Genesis, “The Lamb Lies Down on Broadway” (de 1974), de uma forma muito rigorosa e sobredimensional. A bateria de Phil Collins estava ao centro do palco. A guitarra elétrica de Mike Rutherford tinha dois braços. O guitarrista Steve Hackett e o teclista Tony Banks tocavam nas pontas do palco.
Peter Gabriel estava todo maquilhado e com um casaco de couro como uma das indumentárias numa das suas personagens. O seu duplo era um boneco com a sua altura e fisionomia, que fazia movimentos impossíveis a um humano. Peter Gabriel encarnava também um ser monstruoso com várias esferas, incluindo dois olhos assimétricos e um buraco grotesco e grutesco que era a sua boca.
Phil Collins tinha um porta-aviões: um kit de bateria Gretsch a que nada faltava, mas sempre com um pouco mais de abundância, e um naipe de percussão, sobretudo sinos de todo o tipo: tubulares, chocas, campainhas.
O espetáculo contava com uma invulgar projeção de imagens deslumbrantes em três panos, com grande qualidade fotográfica. O espetáculo de art-pop embebia-se nalgum frenesim visual psicadélico, com muitos cenários em rotação rápida.
O baterista Ramón Galarza, que gravaria poucos anos mais tarde o álbum de José Cid “10.000 Anos Depois Entre Vénus E Marte” (hoje um disco de culto no prog-rock e afins), esteve presente nos dois espetáculos dos Genesis em Cascais. “Na altura, para mim, foi a realização de um sonho porque nessa altura havia pouquíssimos concertos [em Portugal], ainda por cima de uma banda que era das que eu mais ouvia e mais gostava”, declara-nos Galarza em entrevista por Zoom, fevereiro deste ano.
“Visualmente, para quem, como nós aqui, não estávamos muito habituados a ver coisas semelhantes, foi muito impactante. O Peter Gabriel não só era cantor como era quase um ator em palco. As roupas, as luzes… as luzes eram extraordinárias. Foi mesmo muito bonito. Não estou a dizer isto para ser simpático. É porque é mesmo verdade. Foi mesmo muito acima da média”.
Ramón Galarza era de tal forma fã dos Genesis, que, enquanto baterista, lhe passou pela cabeça um desejo malicioso: “eu ouvia-os tanto que tive um desejo que era que o Phil Collins, ao sair do avião, partisse uma perna e elem precisassem de o substituir. Sabia aquilo tão de cor e salteado e foi uma coisa que me passou pela cabeça”.
“Baterista português chamado à última hora para tocar com os Genesis” poderia fazer manchete no imaginário de Ramón Galarza mas não foi isso que aconteceu. Phil Collins cumpriu a sua missão. Na visão de Galarza, cumpriu-a muito bem. Para ele, Phil Collins “era um excelente baterista e era excelente a fazer os coros. Ele estava muitas vezes por trás da voz do Peter Gabriel e as duas vozes quanto a mim colavam divinalmente. Aliás, se quiser uma opinião minha, eu gostava muito mais do Phil Collins nos backing vocals do que como cantor principal. Ele era um grande cantor e teve um sucesso tremendo. Mas eu adorava aquela ligação entre as duas vozes. E depois eu também, sendo baterista e sendo fã da música dos Genesis, que era bastante sofisticada e difícil de executar. Eu admirava muito a capacidade que ele tinha de poder dar conta de recado em ambas as vertentes, tanto na bateria como na voz”.
Segundo Galarza, que também baqueteou para nomes como Rui Veloso (na sua histórica fase de afirmação) ou Anamar, Phil Collins “foi dos grandes bateristas e, acima de tudo, acho que foi muito inovador não só na sua forma de tocar, também a música dos Genesis se proporcionava. E de certeza que também aconteceu pelo input que ele deu como baterista, mas também pelo som. Ele tinha um som diferente daquele que nós estávamos habituados a ouvir. E isso também me fascinou logo desde o princípio”.
Voltando ao espetáculo dos Genesis em Cascais, houve intervenção da Polícia Judiciária, à procura de quem estivesse na posse de droga. E as redondezas do pavilhão eram patrulhadas por tanques militares e carros de assalto. Soldados fardados da COPCON misturavam-se com os espectadores normais na segunda noite.
Sentia-se os dias quentes da revolução também na escrita dos artigos de imprensa de então. Jorge Lima Barretto escreve no seu artigo que “os Genesis cumpriram tudo o que uma sociedade burguesa esperava deles: divertir, alienar, dar-nos prazer idealista”.
Ramón Galarza lembra-se do patrulhamento militar, mas o que tem mais presente na memória é a sobrelotação da sala, sobretudo na segunda noite, a 7 de março. “No segundo dia, a afluência de pessoas era tanta, havia tanta gente que vi grande parte do concerto entalado entre várias pessoas com os pés no ar, quase a levitar”. O Dramático “parecia uma lata de conservas, estava a transbordar”. Estiveram 20 mil pessoas nessa noite, num recinto com capacidade para dez mil, o que provocou danos como cadeiras partidas. Mas não houve distúrbios, tal como relata a imprensa de então.
Peter Gabriel atuou em Cascais em 1975 sabendo que estava a viver os últimos dias enquanto vocalista dos Genesis. Tirando a banda e os mais próximos, ninguém mais tinha conhecimento de que Peter Gabriel iria separar-se dos Genesis. A 22 de maio desse mês, Peter Gabriel atuaria pela última vez na qualidade de vocalista dos Genesis, na pequena cidade francesa de Besançon. Em agosto, Peter Gabriel anuncia a sua saída dos Genesis.
Uma nova estrela iria emergir, Phil Collins, que avança para a frente do palco nos Genesis. A banda inglesa afastar-se-ia drasticamente da empreitada prog-rock, para uma longa sequência cancioneira mais popular até ao início dos anos 90, dentro dos cânones do rock mais clássico. A partir de 1981, Phil Collins é chamado para uma mediática carreira a solo, que desenvolve em paralelo com os Genesis e que, às tantas, torna-se a sua prioridade maior.
Peter Gabriel desenvolveu uma carreira a solo tão invulgar, quanto eclética, a par da sua envolvência no ativismo e no universo editorial e empresarial da world music.
