Gilsons quase no CoolJazz: "acreditamos muito na força agregadora da música"
Entrevista a João Gil, um dos elementos do trio. Os Gilsons atuam no CoolJazz, em Cascais, a 17 de julho.
Os brasileiros Gilsons atuam esta quinta-feira (17 de julho) no CoolJazz - festival que acontece ao longo do mês de julho em Cascais.
O Hipódromo Manuel Possolo recebe o trio - composto por José Gil, Francisco Gil e João Gil - para uma noite de celebração da música brasileira, já que antes atua o também brasileiro Jota.pê com quem os Gilsons partilham o tema 'Feito a Maré'.
José Gil, Francisco Gil e João Gil (filho e netos da figura incontornável da música brasileira: Gilberto Gil) chegam a Portugal para fechar o ciclo do álbum "Pra Gente Acordar" (2022) - álbum que meteu o grupo na lista de nomeações dos Grammys Latinos, na categoria de Melhor Álbum Contemporâneo em Língua Portuguesa.
Com o disco de estreia - que recentemente foi editado ao vivo - o trio também conquistou as estatuetas para Melhor Grupo e Projeto Audiovisual nos Prémios da Música Brasileira.
A celebrar sete anos de carreira, os Gilsons - que misturam samba, pop, afoxê, funk e matriz MPB - estão a preparar o segundo álbum que deverá sair no próximo ano.
Estão a celebrar sete anos de carreira. O que é que isso significa para vocês?
Estamos muito felizes por termos um projeto com longevidade. Um projeto em que há uma boa conexão com o público. A conexão com o público é sempre um pouco aleatória, mas quando acontece é a coisa mais incrível. É justamente o que dá corpo [ao projeto] e o que nos permite ir em frente. É o que nos permite continuar a fazer o nosso som, a lançar música nova e a dar os concertos. Já demos concertos por praticamente todo o Brasil. Já rodámos de norte a sul do país. Faltam-nos alguns estados, mas o Brasil é imenso. Também já tivemos a oportunidade de fazer a tournée europeia. Estivemos em Portugal e noutros países europeus. Este ano, voltamos a Portugal [para o CoolJazz] e regressamos em setembro ao resto da Europa. Já estivemos na Oceania, nos Estados Unidos, na Argentina, no Uruguai. Rodámos muito com este projeto. O tempo acabou por solidificar algo que, embora não seja palpável, acabou por ficar tangível.
A conexão com o público nos concertos por vezes até pode atingir uma certa transcendência...
Com certeza. Além de tocarmos e de produzirmos, somos fãs de música. Já fui a shows incríveis. Quando assisti a concertos de artistas, que para mim são autênticos ídolos, foram momentos inesquecíveis. Quando somos nós a estar no palco, do outro lado, temos noção da força de um concerto ao vivo. É onde vemos ao vivo um artista de quem gostamos e onde podemos ouvir ao vivo as canções que escutámos centenas ou milhares de vezes na rádio, no telemóvel ou em disco. Há uma troca. Naquele momento cantamos todos juntos. É algo mágico. Acreditamos muito na força agregadora da música. Não há nada no mundo tão agregador como a música.
Vão atuar no mesmo dia que o Jota.pê naquela que será uma noite dedicada à música brasileira. O que acham disso?
Dá uma noção da força da música brasileira em Portugal. Mostra como Portugal abraça cada vez mais a cultura brasileira. Temos uma ligação histórica de muitos anos. Mas também atribuo isso à força da cultura brasileira. Consegue chegar a muitos lugares, a lugares incríveis. Portugal, com essa conexão histórica e linguística, é um dos lugares onde a cultura brasileira é cada vez mais absorvida.
Partilham um tema com o Jota.pê, o 'Feito a Maré'. Como surgiu essa parceria?
É uma composição do José com o Jota.pê. Creio que o Jota.pê fez a primeira parte e depois o José completou a canção. É uma composição dos dois. Estamos muito felizes por estarmos no primeiro disco a solo do Jota.pê. É um artista que já está na cena musical há algum tempo. O "ÀVUÀ", o trabalho que fez em dupla com a Bruna Black, também é incrível. O álbum que fez a solo ["Se Meu Peito Fosse Mundo"] foi bastante premiado e tem cada vez mais notoriedade. Ficamos muito felizes. Somos fãs dele como artista, como cantor e como compositor. Foi uma grande alegria termos feito esta parceria. Também tocamos o Feito a Maré nos nossos shows. E o Jota.pê também costuma tocar o tema nos concertos dele. Vamos ver como vamos fazer no CoolJazz. Se vamos ser nós a ir ao espetáculo dele ou vice-versa.
Partilham um tema com o Jota.pê, o Feito a Maré. Como surgiu essa parceria?
É uma composição do José com o Jota.pê. Creio que o Jota.pê fez a primeira parte e depois o José completou a canção. É uma composição dos dois. Estamos muito felizes por estarmos no primeiro disco a solo do Jota.pê. É um artista que já está na cena musical há algum tempo. O "ÀVUÀ" - o trabalho que ele fez em dupla com a Bruna Black - também é incrível. O álbum que fez a solo ["Se Meu Peito Fosse Mundo"] foi bastante premiado e tem cada vez mais notoriedade. Ficamos muito felizes. Somos fãs dele como artista, como cantor e como compositor. Foi uma grande alegria termos feito esta parceria. Também tocamos o 'Feito a Maré' nos nossos shows. E o Jota.pê também costuma tocar o tema nos concertos dele. Vamos ver como vamos fazer no CoolJazz. Se somos nós a ir ao espetáculo dele ou vice-versa.
Sei que fecharam ou estão prestes a fechar o ciclo do álbum de estreia "Pra Gente Acordar". Que balanço é que fazem desse ciclo?
Em 2022, lançámos o nosso primeiro disco, o "Pra Gente Acordar", Já tínhamos lançado um EP ["Várias Queixas"] e alguns singles, mas, devido à loucura da pandemia, tivemos de adiar a ideia de editar um álbum. Só conseguimos editar um álbum completo em 2022. E foi a partir desse lançamento que começámos a rodar o mundo e a contectarmo-nos com públicos de países diferentes. É uma relação que continua a crescer, o que nos deixa muito gratos. Este ano, estamos finalmente reunidos para gravar o segundo disco. Entretanto, lançámos algumas músicas e também fizemos várias parcerias. Mas agora estamos em estúdio. Acho que o que finalizou o ciclo foi a edição ao vivo do "Pra Gente Acordar" - um espetáculo que demos em Salvador, que é uma cidade com a qual temos uma grande conexão. Isso e o mini-documentário, de três episódios, que lançámos no YouTube. Agora voltamos à Europa e no próximo ano editamos o novo álbum.
Como é a vossa dinâmica criativa?
Quase todas as canções partem de um de nós os três. Às vezes, é uma parceria - como o 'Feito a Maré' com o Jota.pê - outras vezes é uma criação individual e noutras vezes as canções resultam numa parceria dentro do próprio grupo. Temos várias formas de compor. Não há um método definido. Temos vários métodos para compor, mas a canção é sempre a nossa base. A partir daí, trabalhamos os arranjos, a instrumentação, vibe e o caminho que queremos dar ao tema. Fazemos essa construção a partir da canção. E essa construção é feita pelos três, o que para nós é uma alegria. O "Pra Gente Acordar" foi feito assim. Tem música dos três. Estamos a fazer o mesmo no próximo. Primeiro entendemos o conjunto de canções que temos para depois transformá-las num trabalho completo.
Constroem a vossa identidade com cada uma das vossas identidades...
Sim. Somos três pessoas diferentes, com gostos que se encontram em vários lugares e que se distanciam noutros. Algo que o Francisco pensaria não é necessariamente o que eu pensaria. O que José pensaria não é o mesmo que o Francisco ou eu pensaríamos. Estamos abertos a ouvir o que o outro tem para dizer. É essa a nossa dinâmica. Temos de entender o lugar de interseção. É o lugar onde nos encontramos mas também é o lugar onde nos distanciamos. E talvez seja aí, nesse lugar, que está o que é mais valioso. Pode ser o que vai dar o extra à música ou algo que não estávamos à espera. Acho que isso acontece em todas as bandas. Entender as ideias dos outros e estar aberto às dinâmicas dos outros e receber as várias opiniões. A soma do coletivo é que cria a sonoridade do grupo.
Aprendem muito uns com os outros?
O tempo todo. Somos pessoas muito diferentes. Temos personalidades diferentes. Acho que isso acontece com todas as pessoas que trabalham em grupo. Temos de estar dispostos a ceder, mas, ao mesmo tempo, há sempre um momento em que temos de mostrar a cara e dar voz. Temos de ser resilientes para defender as nossas opiniões de uma forma firme, porém, temos de estar prontos para ouvir o que os outros têm para dizer. É quase como a balança da dinâmica social.
E encontram-se em que lugares?
A gente se encontra em muitos lugares. Mas acho que a valorização da canção é o principal. Acreditamos muito na canção, na melodia, na harmonia e na história que se completa dentro da própria canção. Acreditamos na mistura musical como um conceito. Não queremos ficar presos a um género musical ou a um ritmo específico. Não temos receio de misturar. Aventuramo-nos na mistura e gostamos do exercício de perceber o que pode ou não funcionar. Gostamos muito de violão, de violão de nylon. Gostamos da musicalidade baiana, da musicalidade tradicional ou dos Blocos Afro que foram a nossa primeira influência musical. Crescemos a frequentar carnavais em família. Os Blocos Afro em Salvador são muito potentes. São uma grande influência nossa. Também temos gostos musicais muito parecidos. É isso. É uma dança entre o que nos aproxima e o que nos distancia.
