Golden Slumbers: irmandade pop com asas

Entrevista às irmãs Falcão, a propósito do recente álbum "I Love You, Crystal".

De um ninho de conforto doméstico cantado em baixo volume, esvoaçam dez canções com vontade de sonhar. Assim é "I Love You, Crystal", o novo álbum da dupla de indie pop Golden Slumbers, deixado a maturar durante quatro anos, até nos cair nas mãos com uma simplicidade enriquecida por subtis detalhes.

Às irmãs Catarina e Margarida Falcão, junta-se esporadicamente a outra mana, Marta, nos coros (a par de Mané AP). Se Margarida e Catarina são as arquitetas e criadoras das canções, Miguel Nicolau foi o chefe-de-obras que tornou o sonho realidade, com os seus mil e um ofícios de instrumentista, arranjador, produtor e misturador.

A cumplicidade de irmãs sente-se quando se entrevista Catarina e Margarida. As respostas são dadas em sintonia (numa sincronização ao milésimo de segundo) ou em complemento, como se fosse numa canção.    

Trabalharam neste álbum durante mais de quatro anos. Foram determinadas neste perfeccionismo?
Margarida Falcão - Acho que de certa forma sim. Houve alguma dificuldade em encontrar o produtor certo e isso atrasou o processo. Na parte da composição, fomos exigentes na escolha final. Compusemos dezenas de canções, até chegarmos ao produto final.
Catarina Falcão - E demos muitas voltas. Por exemplo, o "I Love You, Crystal" já existia e depois rearranjámos e voltámos a compor. Houve imenso trabalho, montes de canções foram para o lixo. Mas valeu, porque chegámos ao produto final.

 

A pandemia e a distância geográfica entre vocês as duas também atrasaram o processo?
MF - A distância física nem por isso, porque a maioria das canções estava pronta antes de eu ter ido para Londres em 2020. De setembro a março/abril, o Miguel Nicolau esteve a fazer a produção mais à distância.
CF - Por zooms e trocas de mails.
MF - Foi gravando maquetas e isso tudo. Se eu estivesse estado em Portugal, não teria feito grande diferença. 
CF - Na verdade, foi o timing certo, porque limámos algumas coisas até à altura de gravarmos o disco. 

Este lote de canções parece respirar num conforto doméstico e ao mesmo tempo soar a uma fábrica de sonhos com uma tendência esvoaçante, como se fosse uma casa suspensa num balão, sempre pronta a descolar. O álbum poderia ser visto desta maneira?
MF - Claro.
CF - Acho que o disco pode ser visto como as pessoas quiserem. Mas gosto muito dessa imagem.
MF - Sim, é muito poética.
CF - Obviamente, nós somos irmãs e há sempre uma familiaridade nas nossas composições. Se conseguirmos passar essa intimidade para fora, é muito bom. 
MF - Eu penso que a produção foi um fator determinante nesse ambiente sonhador. Acho que faz muito sentido o que estás a dizer. 

 

Há uma telepatia entre irmãs que atalha naturalmente a construção das canções?
CF - Acho que sim. Somos pessoas muito diferentes, com gostos diferentes. Fisicamente, não temos nada a ver.
MF - Somos pessoas parecidas, desculpa. 
CF - Vês como somos pessoas diferentes.
MF - Mas estás errada [risos de ambas]. Claro que somos parecidas.

Como é que se complementam? Em que é que cada uma pode dar mais que a outra?
MF - Em termos de processo de composição é muito equivalente, muito fluído e muito natural. Em termos de produção e de arranjos vocais, a Catarina tem muito mais paciência. 
CF - Mas tu tens também bastante jeito.
MF - Mas eu perdi a paciência. Era uma coisa que gostava com 16 ou 17 anos e que deixei de gostar. 
CF - Mas, por exemplo, na música que fecha o disco, 'You See', os arranjos são todos da Margarida. São, talvez, os meus arranjos preferidos.
MF - Mas o resto do álbum é quase todo da Catarina.
CF - Em termos criativos, a Margarida é uma pessoa que puxa mais. É mais metódica. Geralmente, és mais organizada do que eu e mais exigente no cumprimento dos prazos. Desbloqueias imenso as ideias.
MF - Mas tu também desbloqueias imenso.

 

Vocês fizeram tudo sozinhas em termos instrumentais?
CF - Não, não, não. As bases instrumentais, sim. 
MF - Guitarras, baixo e voz.
CF - Ideias para sintetizadores ou riffzinhos de guitarra, fazemos nós. Mas a grande parte dos arranjos foi feita com o Miguel Nicolau, com 90% de input dele, seguindo as nossas ideias. Houve muitas trocas de impressões. Este disco ganhou muito com as mãos do Miguel. É muito talentoso e conseguiu materializar as ideias que queríamos, que não estávamos a conseguir transpor... por incapacidade técnica.   

A vossa cabeça cancioneira está automatizada apenas na língua inglesa? Às vezes, sai-vos sem querer uma canção em português?
CF – Nunca compus nada em português.
MF – Eu compus umas duas em português que ficaram imitações do B Fachada. Não sou nada contra a composição em português, acho ótimo. Mas ainda não consegui ter essa naturalidade. Ouvimos quase sempre músicas em inglês. Em miúdas, praticamente não ouvíamos músicas em português. Estivemos num colégio inglês, onde ganhámos essa naturalidade. Eu julgo imenso as minhas letras em português, muito mais que em inglês. 

 

Sentem-se mais próximas de Simon & Garfunkel ou das CocoRosie? 
CF/MF - De Simon & Garfunkel [em uníssono].
MF - Eu nem conheço as CocoRosie.
CF - Eu gosto muito das CocoRosie mas já não as oiço desde para aí a última vez que vieram cá, em 2015. Já não oiço a música delas há imenso tempo.
MF - No início, éramos muito comparadas às First Aid Kit, que são também duas irmãs, viradas para a folk e para a americana. São da Suécia. 
CF - Somos mais Simon & Garfunkel. Não diria que somos a versão feminina deles, mas eles são uma referência para nós.
 
A pop é a vossa zona de conforto?
MF/CF – Sim! [em uníssono]
CF – Nós ouvimos tanta pop quando éramos miúdas, além de outras coisas como a Tracy Chapman e Simon & Garfunkel. Como verdadeiras adolescentes, gostávamos de Britney Spears, Christina Aguilera, Spice Girls.  
MF – Nem diria adolescente, porque não tinha sequer cinco anos. E depois, Jonas Brothers. Acho que sempre tive bom gosto para a pop que eu gosto. Ainda hoje adoro Britney Spears.

Mas depois foram elaborando os vossos gostos...
CF – Sim, eu lembro-me perfeitamente da vez em que comecei a ouvir música alternativa, a partir dos 15 anos: Feist, Cat Power, Yeah Yeah Yeahs... e a Laura Marling, uma das minhas artistas favoritas. Eu disse "uau, que música tão fixe e diferente daquela que eu estou habituada a ouvir". Hoje ouvimos um pouco de tudo.