Gonçalo Malafaya: "quero fazer canções com histórias com as quais as pessoas se possam identificar"

Entrevista ao cantautor que se estreia agora como intérprete a solo com o single 'Estação'.

Gonçalo Malafaya, que já compôs para artistas como Mariza, Paulo Gonzo, Gisela João ou Syro, estreou-se em fevereiro como intérprete a solo e escolheu a canção 'Estação' como single de avanço.   

O cantautor e multi-instrumentista, natural do Porto, estudou Songwriting (composição de canções) durante quatro anos no prestigiado ICMP London, em Inglaterra, tendo tido a oportunidade de aprender diretamente com compositores britânicos e norte- americanos de renome, como é o caso de Sophie Daniels, Jonathan Whiskerd ou Paul Stanborough. 


A pandemia que parou o mundo há cinco anos obrigou-o a regressar a Portugal, mas, enquanto viveu em solo inglês, o músico atuou em eventos do SOFAR Sounds em várias cidades do Reino Unido e fez parte do trio Mondegreen, com quem percorreu os palcos de Londres, York e Leeds.

A residir atualmente em Lisboa, Gonçalo Malafaya continua a compor para outros artistas ao mesmo tempo em que trabalha no álbum de estreia que deverá chegar em 2026. 


Como é que começou a tua ligação com a música e quando é que sentiste que a música seria o teu caminho? 

Foram momentos diferentes. A minha ligação com a música começou quase sem querer. Quando tinha à volta de 13 anos pedi três prendas de Natal à minha madrinha: um set de pistolas do 007, uma guitarra do Toys 'R' Us e uma versão platina de um jogo da Playstation. Como a única coisa que não estava esgotada era a guitarra foi isso que recebi. Também na altura, o meu pai, que pertencia ao Orfeão Universitário [do Porto], ensinou-me três canções na guitarra. Aprendi-as numa semana e depois ainda aprendi uma outra canção através do [site de partituras] Cifra Club. A dada altura, comecei a aprender a tocar sozinho. E foi assim que começou. Equacionar a música como uma carreira aconteceu mais tarde. Aos 15, 16 anos entrei na escola de música Rock School Porto, onde também já dei aulas, e nessa escola a música era dada como se fosse um desporto federado. Durante a semana tínhamos "os treinos" e ao fim de semana tínhamos "os jogos", que eram os concertos. Chegávamos a atuar fora do Porto. Fomos ao Algarve, Viana do Castelo, etc. Isso aproximou-nos da realidade de ser músico. Até porque os professores naquela escola também eram músicos em atividade.

E cresceste a ouvir o quê?

Desde pequeno que fui influenciado musicalmente por vários membros da minha família. Mostraram-me coisas completamente distintas. O meu avô Manel mostrava-me jazz, a minha mãe é uma grande conhecedora de tudo o que tem sido feito na pop desde os anos 60, o meu pai estava mais virado para as estrelas rock e para os solos de guitarra, e o meu tio Gonçalo estava mais ligado à pop que se fazia no início dos anos 00, altura em que eu era miúdo. E depois havia a influência dos meus amigos e das rádios. Acabava por ouvir um bocado de tudo.                 

E isso reflete-se, de alguma forma, na tua identidade musical? 

Sim, sim. Costumo dizer que as pessoas que gostarem de ouvir a minha música vão ouvir coisas muito diferentes. Não quero estar limitado a um só tipo de música. Só assim é que posso ser fiel a quem sou artisticamente. E acho que sou capaz de me expressar bem em campos musicais diferentes precisamente porque sinto que tenho estado em contacto com vários géneros desde sempre.     

A dada altura, decidiste ir estudar música para Londres. Como é que foi essa experiência?

Foi fantástica. Foi uma cidade incrível para mim desde o primeiro minuto. Só voltei [a Portugal] porque tive mesmo de voltar. Tive de regressar na altura da pandemia porque não conseguia trabalhar. Ainda assim fiquei por lá até a conta bancária ficar sem dinheiro. Até costumo dizer que é a única coisa que não está resolvida na minha vida (risos). Fui para Londres para fazer o mestrado em songwriting (composição de canções) e foi lá que percebi como fazer da composição de canções uma profissão. Aprendi como é que nos podemos livrar do fantasma do bloqueio criativo, por exemplo. Aprendi como tornar o processo [de composição] mais mecânico, mais eficaz e mais rápido. Mudou tudo. Antes escrevia quatro ou cinco canções por ano. Cada canção podia demorar três dias ou três meses. Mas em Londres passei a escrever uma ou duas canções por semana. E ainda tinha direito a receber feedback de compositores britânicos e norte-americanos bastante conceituados. Vamos adquirindo capacidades de autoanálise que nos ajudam a que não sejamos tanto autocríticos. Passa a ser um mecanismo mais fluido. Passamos a entender melhor o processo de escrever muitas canções. Umas vão ser boas, outras vão ser mais medianas. Mas está tudo certo. É algo que acontece com toda a gente.  

Gonçalo Malafaya sobre dar voz às suas composições

Tens referências mais old school em matéria de composição de letras ou até de temáticas?

Sempre me fascinou a análise das letras dentro das músicas. Posso falar [das canções] do Rui Veloso ou do Pedro Abrunhosa que ouvia quando estava a crescer. Em ambos os casos, sempre me pareceu que as letras eram as armas das canções. Durante os três anos da faculdade senti que o jazz e a música avant-garde estavam a adensar-se [na minha vida], mas quando cheguei ao terceiro ano senti que já não queria fazer esse caminho. Sentia que não era a  forma de transmitir o que queria às pessoas. E foi por isso que transitei para o songwriting. Como tocava muito guitarra acabei por descobrir o John Mayer e por perceber que podia haver uma união entre os dois mundos. É um artista que toca guitarra a um nível muito elevado e também é um mestre a compor canções. Percebi que quando o John Mayer estudou na Berklee [escola de música norte-americana] aprendeu songwriting com o Pat Pattison, que também me deu aulas em Inglaterra. Percebi que tudo isto acaba por ser uma ciência que começou a ser teorizada no country americano para depois ser ensinada. Foi nessa altura que senti que cantar e escrever canções podia ser o meu caminho. Já o fazia há algum tempo e quando o fazia na faculdade tinha feedback positivo dos meus colegas. Comecei a experimentar e fui ficando cada vez mais fascinado com o trabalho do John Mayer. E assim é até hoje. Acho que é a minha maior influência.      

Sobre compor em português e inglês

Manter a autenticidade no teu trabalho artístico é uma prioridade para ti?

A 100%. As pessoas conectam-se com coisas reais. Isto não significa que as canções tenham de ser todas autobiográficas. As minhas não são. Significa que devemos criar coisas que soem reais. Falo em criar canções com letras que sejam tridimensionais ou histórias com as quais as pessoas se possam identificar. Não é só estar tentar ser, embora ache que também há espaço para isso. Mas eu gosto de compor sobre situações reais, com pormenores quotidianos que as pessoas possam "agarrar". A ideia é criar imagens interessantes, quase como se as pessoas pudessem colocar um capacete de realidade virtual quando estão a ouvir as canções. Como se fosse uma experiência sensorial.    

A música e a inteligência artificial

Isso leva-me à 'Estação', a canção com a qual te estás a apresentar. O tema é sobre uma despedida, certo?

É mais sobre o término de uma relação, sendo que o foco está no momento da despedida. (...) Uma estação é um lugar de despedidas. É um lugar com o qual estou bem familiarizado porque sou do Porto e estudei em Lisboa. Todas as semanas passava pelas estações de Santa Apolónia e da Campanhã. Como estudei em Londres e tenho pais emigrados no Brasil, desde os meus 18 anos, também estou familiarizado com os aeroportos. É um sentimento familiar. É sobre uma despedida e um coração partido, com detalhes e pormenores do quotidiano.

Como foi compor o single 'Estação'

Que outras histórias gostas de cantar?

Tenho uma canção, que se chama 'Os Amores Que Ninguém Entende', que é sobre uma história de amor de duas pessoas que são os opostos uma da outra. Nunca passei por essa situação mas achei uma ideia interessante. Duas pessoas muito diferentes que funcionam juntas. Tenho duas canções sobre este tema. Há uma outra canção, à qual dei o nome de 'Telescópio', que é sobre a perda de alguém. Tive a felicidade de chegar aos 30 anos com os meus quatro avós vivos por isso apenas imaginei como poderia ser. Quando era pequenino, diziam-me que as pessoas iam para o céu quando morriam. Então, achei que um telescópio era uma forma de estar mais próximo das pessoas que partem. Também escrevi uma canção que é uma carta de amor ao Porto. Gosto muito de ser do Porto, do norte do país. A canção chama-se 'Um Sítio Mais a Norte'. (...)

Uma canção que é uma carta de amor ao Porto

E também tenho uma sobre a ideia de o tempo nunca parar de passar. É sobre essa inevitabilidade. Gosto de escrever canções sobre coisas, pensamentos ou situações pelas quais as pessoas passam diariamente. Quando transmito o que sinto estou a ser real porque também passo pelas coisas, excetuando no caso do 'Telescópio', claro. Gosto de escrever sobre coisas que considero serem pertinentes para as pessoas. Algo que retrate o dia a dia delas. Um medo, uma insegurança, uma euforia ou uma alegria que tenham tido na vida. Dou um exemplo. O Stevie Wonder compôs a canção 'Isn't She Lovely' para a filha que tinha acabado de nascer.    

Presumo que todas essas canções façam parte do teu álbum de estreia… 

Acho que sim. Eu estou sempre a escrever para mim. E escrevo sem sentir pressão sobre o que tem ou não de ficar. Quero escrever mais canções. Sei que vão ser histórias reais sobre coisas diferentes. Claro que, na qualidade de cantautor, é muito difícil fugir dos corações partidos.

Tens algum conceito definido para o álbum?

Não. Nem sei se vai ser um álbum conceptual. Talvez seja um disco só com histórias. Com perspetivas ou com metáforas que me pareçam interessantes.

O que é que para ti é mais importante num artista, além da autenticidade de que falámos há pouco?

A identidade. É a capacidade de um artista ser reconhecível em poucos segundos. Seja pela voz, pela forma como escreve ou pelo som, como é o caso dos U2, por exemplo. Mesmo sem ouvirmos o Bono a cantar conseguimos perceber que são eles. Falo da marca distintiva dos artistas. O Pedro Abrunhosa precisa de cantar mais do que uma frase para sabermos que é ele quem está a cantar? Eu acho que não. Não sei se é de estar mais atento mas às vezes oiço uma canção e sei que foi a Carolina Deslandes que a compôs mesmo quando não é ela a cantar. Há um traço de identidade. É isso que para mim define um artista. É ser único num mundo em que saem canções todos os dias. 

Ser artista nos dias de hoje

Que conselhos é que dás a quem está agora a começar a compor canções ou a aprender música?

Eu ainda dou masterclasses ou formações. Sobretudo no Porto. E o que digo sempre aos meus alunos é que começam a perder no dia em que perderem a paixão. Digo para se divertirem, para curtirem quando estiverem a compor ou a interpretar canções. Essa é a maior arma para conseguir singrar. Fazer dinheiro nunca poderá ser o argumento.

Sobre os maiores obstáculos

O argumento tem de ser querer fazer música, estar apaixonado pela arte de fazer música. Vão bater contra as paredes, vão ter dissabores e vão encontrar obstáculos mas têm de acreditar no talento e na paixão que têm para querer fazer música. É isso que os vai tornar inabaláveis.      

A paixão pela música e a canção preferida