"As Razões" de Gouveia e Melo. O Almirante rejeita "uma liderança arrogante"

O livro "Gouveia e Melo - As Razões", da jornalista Valentina Marcelino, apresenta o retrato íntimo e político do homem que desafiou o mar, a pandemia, o sistema e que se apresenta na corrida a Belém.

O novo livro de Valentina Marcelino, “Gouveia e Melo – As Razões”, mergulha na vida e no pensamento do atual candidato à Presidência da República, ex-Chefe do Estado-Maior da Armada e ex-coordenador da Task Force de vacinação contra a Covid-19. A autora, jornalista conhecedora das dinâmicas militares e políticas, revela o percurso, as convicções e os bastidores de um líder que se tornou símbolo de autoridade, competência e rigor num tempo de incerteza. Valentina Marcelino revela que mais do que uma longa entrevista, este é um retrato das motivações, valores e dilemas de um homem que decidiu avançar para Belém.

Neste livro o Almirante Gouveia e Melo recusa a ideia de arrogância e apresenta-se como um líder exigente. Como é que trabalhou essa dualidade entre exigência e imagem pública da dureza do Almirante? 

Essa foi uma parte desta entrevista que acabou por ser a mais extensa, porque tinha informações  de muitas pessoas que trabalham e trabalharam com o Almirante, que tinha ali uma parte um pouco dura e exigente a chegar quase ao arrogante. E também as posições públicas que tomou relativamente a assuntos polémicos, que nós conhecemos, como foi no caso Mondego ou quando houve o envolvimento de fuzileiros na morte do agente da PSP Fábio Sousa, que havia ali aquela dúvida sobre a característica dele. E eu, durante a entrevista, sempre que pude, fui puxando por isso, para ele se explicar um pouco como é que se via, como é que interpretava o fato das pessoas terem essa imagem dele. Obviamente que não reconhece de todo que seja uma pessoa arrogante. E explica bem isso no livro em várias partes. Justifica com o ser exigente e o querer o melhor das pessoas, tanto como quer dele próprio, diz que é mais exigente com ele do que com outras pessoas. O Almirante puxa pelas pessoas até ao limite que ele acha que as pessoas conseguem, e quem não consegue, ele fica bem com o assunto. Uma coisa que disse muito interessante foi que as pessoas que se esforçam, mesmo não tendo capacidades, são para ele as melhores. O que ele não gosta é os que chama "os preguiçosos", que são as pessoas que têm capacidades e não fazem o seu esforço em defesa do bem comum e nas suas missões.

Há uma passagem do livro que conta o episódio, e passo a citar, de "um praça que depois chegou a sargento nos submarinos. A certa altura da sua vida teve graves problemas familiares e refugiou-se no álcool. Foi um dos elementos que mais navegou comigo. Sob pressão de grupo e com ajuda profissional, esse homem extraordinário recuperou e tornou-se um dos nossos melhores e mais dedicados sargentos. Passou para a reserva e depois reformou-se, fez o curso de Direito e doutorou-se. Faleceu muito recentemente." Este episódio é de grande carga emocional. Foi importante incluir este lado mais humano para equilibrar o retrato que todos parecem ter do comandante?

O Almirante descreve várias situações de trabalho de equipa. Ele não está a colocar só nele o valor das missões que conseguiu alcançar. Tem vários episódios da equipa. O submarino teve trinta e um dias submerso, um recorde e tem outros. E criou laços muito fortes com muitas pessoas. Costumo dizer é que quem diz que é arrogante. e os detratores, são pessoas que nunca tiveram próximas e não trabalharam com ele, não o conhecem. 

O Almirante, neste livro, afirma que o sucesso em Portugal gera muita inveja. Foi apenas um desabafo pessoal ou uma crítica mais ampla à sociedade portuguesa? 

É um bocadinho as duas coisas. Nós temos pessoas brilhantes que têm sucesso lá fora e cá quando alguém se destaca de uma forma mais forte, acaba por aparecerem sempre pessoas a desvalorizar ou, ou a encontrar defeitos onde há mais qualidades. Acho que esse desabafo foi pessoal, mas também foi crítica em relação à sociedade portuguesa em geral. 

Foi difícil convencer o Almirante a expor esta dimensão mais pessoal, mais vulnerável, que nós vimos, por exemplo, no episódio do Sargento?  

Não, não convenci, foi tudo natural.O Almirante contou-a numa das sessões da entrevista. Uma coisa interessante foi que não tinha papéis nenhuns de apoio enquanto estava a conversar. Estava sentado com uma secretária entre nós, e ia falando. E, e não foi difícil porque o Almirante é uma pessoa que gosta de falar. Gosta de falar, gosta de conversar, gosta de explicar as suas ideias, usa muitas analogias por vezes. Foi a primeira vez que fiz assim uma longa entrevista. E de facto é uma coisa que, que dá muito prazer, porque temos tempo para conversar, para perguntar, para voltar atrás, para ir pra frente. E ele foi contando tudo isto naturalmente. Da vida pessoal falou bastante. Da « infância e da juventude e da relação com os pais e com o irmão.

Podemos encarar este livro como uma espécie de lição de liderança, um retrato humano do Almirante e também uma refleção sobre o país? 

Sim, é isso tudo. isto é uma radiografia ao pensamento dele sobre vários temas e sobre como ele se posiciona no mundo, como ele se vê a si, como é que ele interpreta a forma como as pessoas o veem a ele. 

E esta obra pode de alguma forma mudar a perceção pública do Almirante, torná-lo mais "humano"? 

Neste livro procurei que abrisse o mais possível o  seu pensamento e perceber também como é que ele pensava sobre sobre os vários assuntos. Não sei, isso agora serão as pessoas que lerem que podem fazer essa avaliação. Eu tenho na minha introdução do livro,  a capa do primeiro número do Diário de Notícias, 29 de dezembro de 1864. Nesse número foi publicado o manifesto sobre o que é que se pretendia com o Diário de Notícias. Isto em 1864 e dizia que "o jornal regista com a possível verdade todos os acontecimentos, deixando ao leitor, quaisquer que sejam os princípios e opiniões, comentá-los a seu favor". Eu acho que  é uma mensagem que serve para todo o nosso trabalho jornalístico. Nós tentamos registar e ter a possível verdade dos acontecimentos, e depois o resto cabe aos leitores avaliar.

Valentina Marcelino sobre livro Gouveia e Melo - As Razões