Graça Freitas, o rosto do combate à pandemia

A vida da médica especialista da infância em Angola à Direção-Geral da Saúde.

Graça Freitas é médica, especialista em saúde pública. Presidiu a comissão técnica de vacinação a partir de 1998 e assumiu o cargo de diretora da Direção Geral da Saúde em 2017. Até hoje, continua a ser um dos rostos mais associados à pandemia em Portugal.

Nasce em Angola. Que memória tem destes primeiros anos fora do país? 

Tenho uma memória muito presente. Eu iniciei a faculdade em Angola ainda, portanto eu vivi lá a minha infância e a minha adolescência.

Nasci no Huambo, no Planalto Central. O meu pai era funcionário da administração pública portuguesa. A minha mãe, ao contrário da maior parte das senhoras, que tinham os filhos em casa com boas condições, foi para um hospital público. O meu nascimento foi muito fácil do ponto de vista do parto propriamente dito e muito complexo dos dias a seguir num hospital que não tinha condições. Costumo dizer: "A grande prova da minha vida foi sobreviver ao meu nascimento".  O hospital, de fato, não tinha condições.

A partir desse meu nascimento na cidade do Huambo, passamos a viver naquilo que se chamava o mato. O meu pai era funcionário da administração portuguesa e, portanto, fazia comissões nos sítios mais inóspitos que possa imaginar, porque ele estava a iniciar a carreira. Portanto, a carreira começava sempre pelos piores sítios. Fiz a minha vida em África assim.

Já depois de ter a escolaridade iniciada numa dessas terras do mato, onde tinha que sobreviver porque era muito pequena, muito fracota e os miúdos não me poupavam, quando tinha oito anos nós viemos à dita Metrópole, Portugal Continental e os arquipélagos, passar aquilo que se chamava a licença graciosa dos funcionários. Eram cinco meses de férias, porque o tempo que se levava de navio era tanto que tinha que haver umas férias mesmo grandes de anos em anos. Depois não saímos daqui porque os barcos iam cheios de militares para a guerra das ex-colónias. Fiz em Portugal a terceira classe à espera de um navio que nos desse o retorno para a África. Quando esse ano acaba, percebo pela primeira vez que estava num país paupérrimo, porque a minha escola primária, que era só de raparigas, tinha imensas dificuldades, as meninas não tinham perspectivas nenhumas de futuro. O meu pai toma uma decisão que eu não volto para o mato. Vou para um colégio no Huambo, à data a cidade de Nova Lisboa, para ser educada porque o meu pai chegou à conclusão de que se eu não tivesse uma educação melhor daquela que estava a ter até então, não teria um futuro brilhante. 

Lembro-me perfeitamente da minha vida em África, dos meus anos de colégio. Fiz os últimos anos do secundário já no liceu misto, o meu colégio era só raparigas, depois matriculei-me e frequentei o primeiro ano da faculdade na Universidade de Luanda. 

Ainda vivi o 25 de Abril lá. Foi um processo ainda longo, dezoito anos, interrompido pelas férias, e que depois culminou com eu ter sido uma retornada. Faço parte do grupo de pessoas a quem chamaram os retornados. Se bem que, tenho de dizer, pela minha coloração e pigmentação, quer da pele quer do cabelo e dos olhos, eu passei perfeitamente despercebida. Nunca fui vítima de bullying por ser retornada, porque as pessoas não me identificavam como uma retornada. Passei essa fase sem grandes traumas, a não ser o do regresso, mas integrei-me muito facilmente na vida aqui em Lisboa e gosto muito de cá viver. Não foi uma fase muito traumática.

Durante estes anos, havia o peso do que era a Guerra Colonial? Conseguia se perceber ou de lá passava um bocadinho ao lado? 

Até vir das grandes férias em Lisboa, não me apercebi por uma razão muito simples: apesar de estarmos no dito mato, no interior - em regiões muito pequenas e muito abandonadas de África -, em povoações minúsculas, não estávamos em zona de guerra nessa altura. Tinha tido uma experiência, só que não sabia que era a guerra colonial. O meu pai, quando era muito pequena antes de andar na escola, e é a memória mais antiga que eu tenho, foi colocado numa zona de guerra em 1961, tinha começado a guerra colonial.

Foi colocado numa terra remota no distrito do Uíge. O meu pai fez uma coisa incrível. Todas as mulheres e crianças tinham sido evacuadas de lá, mas o meu pai levou-nos. Tenho essa memória da guerra. Não sabia é que era uma guerra colonial. Só sabia que estavam uns contra os outros, os que viviam em África contra nós e vice-versa. Foi uma fase muito traumática da minha vida. Essa comissão do meu pai foi breve, depois retomamos para uma zona absolutamente pacífica, onde iniciei a escola primária, e até me fui esquecendo do que tinha passado quando era mais pequena. Só mais tarde, é que eu me apercebi, de facto, que havia uma guerra.

Depois, tenho um irmão mais novo, e começou a instalar-se algum receio de que se a guerra continuasse o meu irmão acabaria também por ir para a guerra. Isso não aconteceu porque, felizmente, houve o 25 de Abril.

Tive uma experiência muito pequena ainda da guerra, vivida, vista, sofrida. Essa experiência interrompeu-se e depois fui tomando consciência 

Faz ideia de quantas vezes é que mudou de casa nestes primeiros anos? 

Muitas, muitas. Eu, a minha mãe e o meu irmão, por brincadeira, começaávamos a contar as casas onde vivemos.

A administração pública na altura das colónias tinha uma coisa interessante. De um dia para o outro, mudava um funcionário e a sua família de sítio para centenas de quilômetros numa das colónias em relação ao sítio onde estava. Quando chegávamos tínhamos uma casa com umas mobílias precárias e às vezes iguais às da casa anterior, porque devia ter comprado tudo junto. A casa tinha mobílias, louça, roupas e, portanto, os funcionários e as famílias pegavam numa mala com as suas próprias coisas e mudavam-se de sítio.

As comissões não eram habitualmente muito grandes e havia uma grande rotatividade. Tive mais estabilidade do que o resto da minha família porque estava num colégio durante seis anos, apesar de não ser interna. Ia para casa passar férias.Comecei pequenina, muito cedo, a atravessar África para conseguir ir passar as férias escolares com a minha família. Isso tornou-se, a partir dos nove anos, uma rotina na minha vida que era apanhar aviões e ir ter com a família e depois regressar. Digo-lhe que me custava horrores regressar. Tinha um pavor de deixar a minha mãe e voltar para um colégio, numa cidade pouco tropical que era o Huambo. Era uma cidade do Planalto e tinha uma vida muito europeia e não tinha guerra.

Lembra-se de como é que viveu o 25 de Abril ainda em Angola? 

O 25 de Abril aconteceu, ninguém nos disse nada e o autocarro que nos levava da cidade de Satélite onde eu vivia para o meu liceu, saiu à hora combinada no dia 25 de Abril e nós fomos para as aulas.

Quando saímos de regresso para casa e apanhámos o mesmo autocarro, um colega meu, já mais politizado do que nós, pós-se de pé no meio do autocarro, apoiou as mãos nos bancos e falou-nos pela primeira vez do que se estava a passar. Vou-lhe ser sincera, não entendi muito bem o que é que ele nos estava a dizer. Quando cheguei novamente à cidade onde eu vivia, estava um colega do meu pai à minha espera, preocupadíssimo. Lembro perfeitamente, num Land Rover que era os carros que se usavam, o senhor já tinha alguma idade, e perguntou-me o que é que eu achava do que se estava a passar. Pensei que me estava a falar das manifestações de estudantes que aconteciam em Portugal continental e disse: "Oh, são mais umas manifestações". Percebi que o senhor tinha ficado surpreso por eu ter dado aquela resposta. Quando cheguei a casa, aí percebi que tinha acontecido. A minha família obviamente estava com pouca informação, mas muito preocupada, porque anteviam que pudesse acontecer, que era o movimento de eventualmente se ter que retornar a Portugal.

Nesse dia foi uma mistura de bons sentimentos, a questão da liberdade era importante para nós todos de estarmos satisfeitos com isso, mas de preocupação porque isso podia implicar uma grande mudança na vida que nós tínhamos tido até ali.

Como é que escolhe a medicina? 

Vou ser muito sincera. O meu pai, como eu disse, tinha a ideia de que eu tinha que estudar, ser educada e que ir pra universidade. Havia um lema na minha família que era: não cases e não chumbes e eu mando-te para o Japão, porque eu tinha esse sonho desde criança. O meu pai, sabendo que muitas jovens da minha geração casavam muito cedo e que muitas não acabavam os cursos superiores, tentava convencer-me a não casar nem chumbar com uma viagem. Certo é que eu não casei nem chumbei. Fui vivendo a minha vida académica em África, com uma visão das coisas de certa forma privilegiada.

A medicina surge quase por exclusão de partes. Tinha duas grandes vocações, se assim se pode chamar. Gostava imenso das coisas relacionadas com a terra, a agricultura e a silvicultura. Gostava de ver plantações, das pessoas que viviam nas fazendas. Para mim, aquilo era a vida ideal, mas na minha família ninguém tinha terras e, portanto, era uma vida que não tinha grande sucesso. Por outro lado, os cursos ligados à agricultura eram muito masculinos e o meu pai não dava para me enviar para escolas desse género, não teria grande futuro. Ninguém imaginava naquela altura que eu pudesse ser agricultora. Portanto, abandonei rapidamente essa ideia. Depois, gosto muito de arquitetura e de património construído, só que tinha um grande handicap, não sabia matemática o suficiente para ser arquiteta.

Dito isto, tinha escolhido ciências, portanto não podia ir para um curso de letras - só se andasse para trás, coisa que o meu pai não permitiria. Não podendo ser nem agricultora, nem arquiteta, as minhas grandes amigas da altura tinham bem claro que queriam ser médicas. Achei que não seria má ideia. E foi uma boa decisão, mas foi uma decisão por exclusão de partes.

Lá acabei o ensino secundário e depois, com grande apoio até da família e dessas minhas amigas, fui fazendo o percurso de me matricular na Universidade de Luanda, de escolher uma residência universitária - porque os meus pais nessa altura estavam a viver no Huambo e ainda eram seiscentos quilómetros. Portanto, sempre com muito apoio das grandes decisoras sobre a minha vida, já que tinham tomado quase a decisão por mim: fomos para a mesma residência, para as mesmas turmas, fizemos esse percurso.

Nunca me arrependi dessa decisão.

Faz o primeiro ano ainda em Luanda, depois vem para Lisboa. Sentia-se uma diferença nas universidades? 

Era tudo diferente. Não sei se eram as universidades, se eram os países... As regiões que eram completamente diferentes. Estávamos a viver em Portugal um processo revolucionário. O própria vida do dia-a-dia não seria exatamente igual ao que teria sido dois ou três anos antes, a própria Universidade de Lisboa, a Faculdade de Medicina, vivia ambiente que não era igual ao que se vivia nos outros anos. Nós tínhamos reuniões gerais de alunos para protestar contra uma série de coisas com alguma frequência. Creio que era completamente diferente. Por outro lado, não havia clandestinidade.

Bom, comparando com Luanda, era uma diferença abissal. A fase pós 25 de Abril em Luanda foi muito atribulada. Não tínhamos um ano letivo normal. É bom ter-se esta ideia que quer nas colónias, quer em Portugal, se viveu um período que não foi típico. Quando eu fui para a faculdade já tinha havido o 25 de Abril e quando retornei a Portugal exatamente a mesma situação. Foram anos de alguma turbulência, que nós nos adaptávamos, é evidente, com maior ou menor pragmatismo.

A característica mais importante nessa altura não tinha a ver com a universidade. O meio universitário, apesar de tudo, é um meio especial e não era assim tão diferente. A vivência da cidade de Luanda, um país tropical e uma vida muito mais livre mesmo antes do 25 de Abril, e depois uma vivência diferente, noutra cidade em que não tinha raízes anteriores, a não ser esporádicas. Acabei por ficar com adaptada e adotar Lisboa muito rapidamente.

Naqueles anos a seguir ao 25 de Abril, o meu mundo estava muito circunscrito à cidade de Lisboa e à universidade. Aí, na faculdade de medicina, estava com os meus colegas que tinham vindo da África. Portanto, não havia assim uma diferença tão grande. 

Estes anos de universidade acontecem num cenário muito particular. 

Nós fazíamos de facto muitas manifestações.

Às vezes penso que foi verdadeiramente extraordinário ter acabado os cursos no período que era suposto acabar. Nós não nos dedicávamos apenas a estudar, a fazer os testes e a passar os anos. Nesse intervalo, havia uma grande participação na vida cívica e uma grande liberdade social. Nós tínhamos, nessa altura uma capacidade imensa de, sem dinheiro praticamente nenhum, sem sítios em Lisboa - não havia nem muitos teatros, nem muitas cervejarias, nem muitos bares, nem muitos restaurantes, não havia nada, era outro mundo. Com esse pouco mundo que existia, tínhamos uma vida social intensa.

Vivi intensamente, sobretudo até ao quarto ano, da faculdade, com os grupos que tinham vindo das ex-colónias. Eu pelo menos, sentia a obrigação de passar os anos e de estudar e de fazer os exames, conseguíamos compatibilizar e fazer em condições. A adaptação a uma realidade diferente e depois uma grande agitação. Não vivi no tempo mais parado antes do 25 de Abril, tirando a tal antiga terceira classe, que passei cá, e achava que era tudo muito estagnado.

Após o 25 de Abril, foram, de facto, anos intensos politicamente, civicamente e socialmente. Criei aí, se calhar, uma forma de ver a vida muito comunitária, ainda hoje a minha geração fala muito as equipas, trabalhar em equipe para a comunidade, porque nós vivíamos em grupos. Não éramos pessoas isoladas quando eu fiz a faculdade, não estava cada um no seu canto 

Acaba o curso no início dos anos oitenta, como eram os hospitais? 

Era tudo diferente. Comecei a minha carreira no Hospital Santa Maria, onde tinha feito o curso. O que havia de drasticamente diferente em relação a agora era a demografia, nós tínhamos uma população que não era tão envelhecida.

Fazíamos o nosso trabalho num hospital mais precário. Apesar de ser o maior do país e o mais desenvolvido, tinha grandes carências até ao nível físico, - não sofria intervenções de obras, de reestruturações, de modernizações -, mas tínhamos, de facto, equipas maiores do que agora e menos doentes, porque a população era mais nova e, portanto, mais saudável. Não havia tanta carga de doença, tanta doença crónica e tantas pessoas idosas. Havia uma maior adaptação entre a procura e a resposta.

Apesar das condições físicas, volto a dizer, do hospital não serem as ideais. Obviamente não havia a tecnologia e a inovação terapeutica que há atualmente. Lembro-me de nós em Santa Maria nos inscrevermos para uma lista para irmos de autocarro à zona do Marquês de Pombal, ver um camião TIR de um laboratório de radiologia privado, onde estava montado o primeiro aparelho de TAC que se viu em Portugal. Nós fazíamos uma excursão, não havia TAC em Santa Maria.

A evolução nestes últimos quarenta anos foi muito rápida? 

Muito rápida. No espaço de uma vida, ativa, quando me lembro do início de termos ido fazer uma verdadeira excursão para ver um aparelho TAC, eu tenho alguma dificuldade em acreditar que aconteceu. Há pouco tempo encontrei uma colega de curso, que eu não via há muitos anos, e disse: "Olha, lembras-te que nós fomos ver um aparelho TAC? Fomos mesmo, não fomos?" Porque tudo mudou de facto e houve um desenvolvimento enorme do ponto de vista da inovação das tecnologias, da indústria farmacêutica, do arsenal de medicamentos que nós temos. Mudou a oferta dos serviços.

Passamos de não ter nada, nada, nada, nada, que era o tempo dos meus avós - a angústia de ficar doente, de não haver dinheiro para ir para o hospital e ser internado e operado - para um Serviço Nacional de Saúde e para um grande desenvolvimento desse serviço. Depois passamos para o esquema misto público e privado. É uma concentração de mudanças muito rápidas.

Penso é que nós, os profissionais e os seres humanos em geral, não temos tido o tempo suficiente para interiorizar e consolidar uma mudança, porque as mudanças tornam-se obsoletas muito rapidamente. Hoje novo, moderno, ótimo, amanhã pode não ser. Paradoxalmente, depois há coisas que permanecem intemporais, como, por exemplo, o arsenal de antibióticos que temos que tratar com muito carinho, porque não se descobrem todos os dias moléculas novas. Isto são os paradoxos da ciência e da inovação. Obviamente, outra grande mudança que houve foi na forma como comunicamos a todos os níveis. Isso alterou completamente as relações, incluindo entre médicos e doentes e entre profissionais de saúde e a população.

É de facto um mundo muito gasoso. Eu vim de um mundo em que se metia a água dentro de uns cubinhos no frigorífico e dava tempo para sair de lá sólido. Depois começamos a pôr essa mesma água, mas tirávamos e só havia uma película de gelo. Era líquido, não dava tempo para solidificar. Agora estamos numa realidade que é completamente gasosa. Adormece de uma forma e acorda-se quase com outro paradigma. Isto tudo é muito rápido 

Em 1998, tornou-se presidente da Comissão Técnica de Vacinação. À altura já se questionava tanto as vacinas? 

Não se questionava tanto, mas grosso modo havia países em que a vacinação tava completamente abandonada, os menos desenvolvidos que viviam da Organização Mundial de Saúde, da UNICEF, dos Rotários e dos Lions, portantode mecenas. Não tinham programas organizados e havia grandes epidemias pelo mundo, de tudo, incluindo a Hepatite B.

Depois havia os países mais desenvolvidos, que tinham programas de vacinação organizados já há alguns anos, como nós. Portugal tinha um programa nacional de vacinação, nascido com a primeira Diretora-Geral, a doutora Maria Luísa Van Zeller, com o doutor Arnaldo Sampaio, pai do nosso presidente, e com uma série de outros médicos, que tinham desenhado um programa muito bem em 1965. Eles compararam o nosso país com outros europeus e chegaram à conclusão que, vou citar, "a situação em Portugal era desprimorosa por comparação", porque nós não dávamos vacinas de forma organizada. Quem vivia nas áreas urbanas, podia ir a um consultório e ter um pediatra, era vacinado. Quem fosse do mundo rural, provavelmente, não seria vacinado. Portanto, eles criaram um programa que mudou totalmente a face das doenças no país. Eu sou do tempo, não gosto de dizer esta frase, de que de vez em quando na minha escolinha, lá no meio da África, um aluno ou uma aluna desaparecia, percebia mais tarde que tinha morrido, por exemplo, com sarampo - que é uma doença que uma pessoa pensa que não mata ninguém. Nessa altura, as pessoas tinham assistido ao verdadeiro milagre que foi a vacinação organizada. Havia paralisia infantil, poliomielite, muitas pessoas tinham membros com problemas de locomoção, atrofias. Num ano apenas a poliomielite desapareceu em Portugal, fizeram uma campanha em que deram mais de três milhões de doses.

Não havia esse movimento anti-vacinação, porque estava muito presente o benefício. As pessoas têm que ver a relação benefício, hipotético-risco, e como se via se introduzíssemos novas vacinas como o caso da Hepatite B, bem introduzidas nos programas, com uma boa campanha de formação dos profissionais, comunicação com a população, com uma base científica muito estruturada e com uma cadeia logística que não permitisse ruturas no sistema ou minimizasse essas ruturas, dávamos confiança às pessoas para que elas se vacinassem. Qualquer pessoa que tenha visto paralisia infantil, uma criança morrer com difteria, ter tétano que era uma doença horrível de sofrimento e depois de morte, nunca mais se esquecia. A vacinação tinha uma grande adesão da população na altura, porque as pessoas viam claramente os benefícios, e o programa estava muito bem estruturado, baseado numa grande confiança para que fosse aceite pelos profissionais e aplicável pela população. Eu disse toda a minha vida às pessoas com quem trabalhei: a vacina acaba no braço ou na coxa da criança e mesmo assim ainda tem que ser monitorizada mais um tempo para saber se dá alguma reação.

Sempre houve pessoas que optaram por não se vacinar ou não vacinar os filhos. Isso era respeitado, porque desde o 25 de abril e com a nossa Constituição, a vacinação não é obrigatória. É fortemente recomendada, incentivada, mas não é obrigatória.

Recebe um prêmio pelo contributo para o sucesso da eliminação da poliomielite no país e na Europa. Quando trabalhou de perto com o Programa Nacional de Vacinação, fazia ideia de que ia deixar esta marca na saúde pública?

Não, não. De tal maneira não fazia ideia que não tenho grandes penas em relação ao passado. Mas quando Portugal e a Europa eliminaram a poliomielite, quando eu recebi esse prêmio, a cerimónia foi em Copenhaga num museu onde está um baixo-relevo egípcio com uma pessoa com o seu membro atrofiado apoiado num bastão. Não sabia que me iam dar o prémio, depois me mandaram. Naquela altura, tava cheia de trabalho e disse: "Olha, eu não vou a Copenhaga", e ainda hoje me arrependo de não ter ido, porque foi uma cerimónia única.

A Europa eliminou, como continente, a poliomielite. ortugal contribuiu. E depois eles foram de facto bastante simpáticos e enviaram um diploma ao país, a minha medalha e depois ainda foram mais inclusivos, porque eles enviaram medalhas comemorativas para eu dar a quem eu entendesse que tinha contribuído para a eliminação da poliomielite.

Nunca perspetivei à medida que fui trabalhando que isso pudesse deixar uma marca e a poliomielite foi um marco na minha vida, porque eu tive a consciência quando vi a medalha de que aquilo tinha acontecido de facto e que eu tinha participado. Até porque eu tenho ainda amigos vivos com poliomielite, sou da era em que não havia vacina e os nossos pais tinham muito medo que nós apanhássemos. O tétano era aquela, aquelas tinham mais medo, mas a poliomelite, também. Portanto, eu vivi a minha infância em África, solta e livre, mas com medo de algumas doenças, nomeadamente a poliomelite. Portanto, não tinha essa noção. 

Assume o cargo de diretora da DGS interinamente em 2017 e começa o mandato em 2018. Mesmo antes da pandemia, já era cargo com muito peso?

Era um cargo com muito peso, que eu hesitei muito em aceitar. Não foi uma coisa natural em mim. Tinha sido doze anos subdiretora-geral de Saúde, houve uma coisa silenciosa que a maior parte das pessoas não se apercebeu, mas eu a partir da altura do final do século passado quando houve a célebre gripe das galinhas de Hong Kong, que eu vou para subdiretora-geral de Saúde para começar a aprender a tratar de emergências de saúde pública, os planos de preparação e resposta a emergências. Na sombra do Francisco Jorge, trabalhei sempre esta área e tive sempre a apoiá-lo em todas as emergências de saúde pública, o Ébola, o Marburgo, a pandemia da gripe A, todas as que nós fomos tendo ao longo da vida.

Hesitei muito em ser Diretora-Geral. Obviamente que essa questão de ser interina era quase natural, porque não ia haver uma vacatura. O Francisco Jorge fazia setenta anos e cessava à meia-noite. Portanto, eu era a subdiretora da área médica e substituí-o. Tive muitas dúvidas em querer ser Diretora-Geral. Vou ser sincera. Não buscava o reconhecimento público ou a exposição. Queria fazer um trabalho bem feito, mas eu gostava de fazer esse trabalho nos bastidores. Fazer o melhor que eu sabia, estudar, dar pareceres, aconselhar, discutir muitas vezes, mas ir para a linha da frente não. Depois o ministro Adalberto Campos Fernandes, mandou-me uma mensagem de grande incentivo para que eu, de facto, entrasse no concurso para Diretora-Geral da Saúde. Foi essa mensagem do professor Adalberto que me levou a tomar a decisão de aceitar ser Diretora-Geral da Saúde, já não a substituir o Francisco Jorge, mas por concurso e por um mandato de cinco anos. Sem sonhar tudo o que iria acontecer 

A primeira mensagem que passou quando chegam os primeiros casos de Covid foi um pedido de tranquilidade . Essa calma era sentida? 

Olhe, era sentida e eu vou dizer-lhe porquê, não tem nenhum mistério. Desde 1997 que estava a ir, sobretudo no âmbito da União Europeia e da Organização Mundial da Saúde, mas também aqui em Portugal, formação e exercícios de preparação para emergências em saúde pública.

Lembro-me de uma vez ter ido a uma dessas reuniões, não tinha havido ainda a Gripe A, estávamos a preparar para uma pandemia hipotética. Pessoas dos cinquenta e três países da Organização Mundial da Saúde estavam representados naquela sala, estava lá a representar Portugal e disseram uma coisa espantosa: "Vamos ter uma pandemia, provavelmente de gripe. Não sabemos quando, nem de que tamanho, nem com consequências. Mas no fim dessa pandemia, vamos ter vítimas - vai haver pessoas que adoecem, que morrem, que perdem empregos -, vamos ter heróis - pessoas que vão sobressair - e vamos ter bodes expiatórios - grande parte deles tão dentro desta sala, que são as pessoas que vão estar nos cargos da administração pública" . E eu ouvi aquilo e no avião pa cá, pensei: "Eu chego a Lisboa e demito-me, porque eu não quero ser bode expiatório, de maneira nenhuma". Falei com o Francisco Jorge, era o meu diretor geral: "Olha, eu tenho que falar contigo, tenho que te contar o que é que aconteceu ontem na reunião e também te quer dizer que não tenho vocação para ser bode expiatório de coisa nenhuma". Bem, dito isto, claro que não me demiti, claro que fiquei, mas fui tendo esta noção.

Depois houve uma coisa que eu aprendi na faculdade de medicina e interiorizei para o resto da minha vida: nunca angustiar um doente. Sempre que vi um doente, eu como médica de um lado da secretária e ele do outro ou numa marquesa, nunca quis que o doente, para além das preocupações que já tinha e da gravidade da sua doença ficasse angustiado por mim. Portanto, quando tudo isso aconteceu, ao entrar nas salas de gravação pensava: "Estou aqui sentada e dali estão os portugueses e as pessoas que estiverem a assistir, que são como se fossem os meus doentes. Estão preocupados, estão angustiados, estão ansiosos, porque não sabem o que é que se está a passar e não sou eu que os vou preocupar mais".

Saúde pública é a medicina aplicada às pessoas e aos territórios.

Qual foi o dia mais marcante deste período da pandemia? 

Houve muitos. Tenho que recuar um bocadinho para lhe dizer que também no início da pandemia, dia 1 de janeiro, quando nós já sabíamos as primeiras coisas, pelo menos na DGS, não era a primeira vez que nós víamos aparecer um vírus novo que depois não resultava em pandêmico. Portanto, há uma fase em que se pensa: "Olha, pode ser mais um destes vírus que aparece e que depois não vai ter o potencial de se transmitir ativamente entre as pessoas". Portanto, pode ser controlado com outras medidas e desaparecer, como já aconteceu.

Em determinada altura, percebe-se que a situação estava a evoluir. Não me hei-de esquecer das imagens que vi de Itália. Acho que marcou o mundo inteiro. Já tinha marcado a cidade do ano deserta, quando nós vimos uma cidade chinesa sem ninguém. Note que em 2013, a convite da China, eu e uma pessoa do laboratório, a doutora Helena Rebelo de Andrade, fomos à China no pós-SARS e não havia praticamente cidadãos chineses na rua. Nós fomos à Muralha da China sem ninguém, porque ainda estavam no pós-medo da pandemia, que não aconteceu, mas que podia ter acontecido.

Nós ativamos uma coisa que não se aperceberam. Tínhamos uma linha de apoio ao médico, em que médicos atendiam outros médicos quando havia uma crise. Ébola, por exemplo, em África. O doutor Francisco Jorge mantinha essa linha muito circunscrita, ele e eu atendíamos telefonemas. Era uma linha muito pequena, feita com médicos que estávamos habituados a fazer aquelas triagens, o doutor maltês no Hospital Curry Cabral. De repente tivemos que escalar aquela linha para centenas de médicos que tinham que atender outros, mesmo quando não havia casos porque eram as pessoas suspeitas, tinham sintomas e tinham vindo de um país onde havia casos, por exemplo, de Itália. Quando essa linha se têm que expandir para centenas de médicos a atenderem outros médicos e outros profissionais de saúde, eu percebi que a escala estava a ser grande.

Depois, numa noite, um comboio ficou parado na linha porque uma cidadã tossiu. Toca-me o telemóvel e dizem-me- a minha colega daquela zona onde o comboio estava estacionado: "Há aqui um comboio parado, tudo em pânico e tem uma cidadã que vai a caminho de Madrid que está a tossir." E eu pensei: "Pronto, agora estamos já noutro patamar."

Depois, obviamente, não posso deixar de dizer, dois momentos marcantes foi o início da vacinação, mas simultaneamente aquele mês horrível que coincidiu com dezenas de pessoas a morrerem. Além de todas as pessoas às quais eu presto um enorme tributo, porque foi uma verdadeira catástrofe para elas e para as famílias, nessa altura, também um amigo meu, o Celso, morreu. E, portanto, houve ali uma situação que também me tocou pessoalmente e que ainda hoje me toca bastante, porque coincidiu com eu própria estar com Covid na cama, doente, ainda não vacinada - foi em dezembro, a vacinação tinha começado naquela altura.

Outra questão que eu não posso deixar de dizer é a perda total da noção dos dias. Há pouco tempo, uma amiga disse-me: "Lembras da Sexta-feira Santa da pandemia, de quando estamos em pandemia?" Eu disse: "Olha, não me lembro nem do domingo de Páscoa, quanto mais da Sexta-feira Santa." Não tinha, de facto, a noção exata, porque os dias repetiam, são sempre diferentes, mas sempre a um ritmo intenso. Quando tento localizar certos episódios, tenho que ir buscar as agendas ou tenho que ir buscar os jornais ou as notícias, porque na minha própria memória ficou uma grande amálgama de todos aqueles dias intensos.

Podia ser um "bode expiatório", mas acaba por se tornar uma "heroína".

Essa é ainda a grande estupefacção do pós-pandemia. Não tive tempo para, em direto, acompanhar o que se estava a passar nos meios de comunicação. Chegava a casa muito tarde, ainda trabalhava depois durante a noite e, portanto, nunca tive a oportunidade de ver uma conferência de imprensa. Podia ver uns segundos que alguém selecionava pra eu ver - o meu irmão, o meu marido, a minha equipa de comunicação.

Por outro lado, trabalhei todos, todos, todos os dias e não tinha contacto com a população, porque também estava confinada. Não tinha feedback do que se estava a passar, a não ser em breves momentos em que não estávamos confinados e que eu ia a uma loja, mas nessa altura estava tudo quente e não havia esse reflexo. Começo a ter o feedback quando as coisas acalmam, quando as máscaras deixam de se usar, quando a vida retoma à normalidade possível e saio, de facto, à rua, sozinha - cheguei a ter proteção policial, aos quais agradeço muito, um serviço extraordinário. Nem queria sair à rua porque não me sentia muito bem e não tinha tempo.

A primeira vez que eu saí à rua para dar uma volta ali ao pé do rio, uma pequena caminhada, foi aí que eu percebi que as pessoas, de facto, me reconheciam. A primeira fase foi só de reconhecimento. Depois as pessoas foram interiorizando as coisas - já passamos, conseguimos, fizemos - e entraram na fase de ser extremamente cordiais, de ser extremamente amistosas, de ser extremamente simpáticas. Claro que há exceções, mas de um modo geral muito carinhosas até naqueles dois anos a seguir à pandemia. Não me senti uma heroína, mas pensei, mais uma vez porque pautei muito da minha vida por isso, é uma missão cumprida. Sou uma pessoa de missões e levo essas missões até o fim.

Fui a Angola nessa altura, quando cheguei ao hotel achei extraordinário que as pessoas me tratavam pelo nome: "Dra. Graça para a frente, Dra. Graça para trás." E eu pensei: "Mas isto é um hotel extraordinário, conhecem os hóspedes. A gente mal põe aqui o pé, começam-nos a tratar pelo nome." E não liguei. No dia seguinte, cheguei ao pequeno-almoço, continuei a ser tratada por Dra. Graça, continuei a achar que o staff do hotel era maravilhoso até que vou à porta do hotel e uma jovem também a passar na rua trata-me por doutora Graça. Chamei-a e disse: "Olhe, como é que você sabe quem é que eu sou e o meu nome?" E a miúda olhou pra mim e disse: "Nós? Nós só víamos você." A RTP África e Angola, antes de ter os seus próprios mecanismos de comunicação, transmitiam e, ingenuamente, não estava ainda nesse módulo, nem me tinha lembrado que em África tinham assistido às conferências.

Depois desta carreira riquíssima, o que ainda lhe falta fazer? 

Sabe que eu não sou uma mulher de grandes planos, tirando o que tinha que acabar o curso e que foi delineado pelo meu pai. Eu aceito os desafios que vêm, tento não desistir das coisas que começo - mas de algumas já desisti, não faço tudo bem. O que tento é estar suficientemente aberta ao mundo que me rodeia.

Nesta fase da minha vida, aceitar aqueles desafios para os quais eu sei que ainda terei alguma capacidade e que, em simultâneo, me dêem algum prazer em executar. Porque trabalhei muitos anos, tive uma vida muito intensa. Uma vida aparentemente calma, mas que foi atribulada por baixo da superfície, e agora pretendo manter-me ativa, atenta ao mundo em que estou, colaborar no que for possível , mas tentar retirar daí alguma paz, algum prazer. Alguma coisa que me permita também ter um direito, que eu acho que todos temos e que eu ainda não consegui, que é o direito ao ócio, o direito a não fazer nada, relaxar. Não tenho conseguido, ainda estou empenhada em algumas causas que acho que posso ajudar.

Já não quero mais nada, não tenho ambições, nem faço planos. Espero estar à altura do que me for acontecendo ao longo da vida, é a única coisa. Estar à altura dos desafios. Tanto quanto eu puder, com lágrimas e suspiros, não desistir porque, no fundo, tem a ver com a resistência. Eu costumo dizer que sou uma resistente mansa. Eu não sou uma passionária, não vou para a rua, não dou tiros, não atiro pedras, não faço guerras, mas tenho uma forma de resistir que é a maneira como eu estou na vida, que é aceitar os desafios o melhor que sei e posso, tentando não angustiar o meu próximo. Não angustiar o meu concidadão, o meu vizinho, o meu familiar, não lhe fazer mal.

Sou médica: primeiro não fazer mal e depois tentar fazer o bem, é o meu lema.

Esta entrevista faz parte do Podcast 'Revolucionárias' que pode ouvir no site da rádio ou nas plataformas de podcast.