Grupo indígena da Amazónia conquista Prémio Gulbenkian para a Humanidade

Coligação Alianza Ceibo trabalha há uma década na proteção de dois milhões de hectares de floresta tropical e pela justiça climática.

A Alianza Ceibo, uma coligação de povos indígenas da Amazónia, conquistou o Prémio Gulbenkian para a Humanidade 2026, no valor de um milhão de euros, anunciou hoje a Fundação.

A distinção reconhece o trabalho de uma década na proteção da Amazónia e na promoção dos direitos dos povos indígenas e da justiça climática.

A Alianza Ceibo é uma organização autónoma, sem fins lucrativos, que reúne os povos A'i Kofan, Siekopai, Siona e Waorani na proteção de mais de dois milhões de hectares de floresta tropical rica em biodiversidade no Equador, no Peru e na Colômbia.

De acordo com a Gulbenkian, a organização vencedora tem obtido "várias vitórias jurídicas históricas" contra a exploração de recursos e a desflorestação da Amazónia, proporcionando, ao mesmo tempo, água potável e energia renovável às comunidades locais.

"O prémio de um milhão de euros ajudará a Alianza Ceibo a manter e ampliar o seu modelo, liderado por povos indígenas, reforçando a proteção da floresta tropical e investindo simultaneamente na educação promovida pelas comunidades, na formação de lideranças e em oportunidades para a próxima geração de jovens indígenas", avançou a Gulbenkian, em comunicado.

Para o presidente da Gulbenkian, António Feijó, a organização vencedora é "um exemplo poderoso" da liderança indígena na luta pela justiça climática, "num dos ecossistemas mais preciosos da terra", a floresta amazónica.

"Perante a adversidade, a Alianza Ceibo uniu esforços além-fronteiras para tomar nas suas mãos o futuro dos seus territórios ancestrais. Mostra-nos o que pode ser alcançado quando nos unimos em torno de um propósito comum", declarou António Feijó, citado no documento divulgado pela Gulbenkian.

António Feijó destacou o trabalho da organização "num dos reservatórios de carbono mais importantes do planeta", incluindo "vitórias históricas" que permitiram travar a desflorestação e assegurar direitos territoriais.

A ex-chanceler alemã Angela Merkel, que preside ao júri do prémio, reafirmou que este distingue quem demonstra "um compromisso excecional" com a Terra e com a coexistência global entre as pessoas e o planeta.

"O prémio recorda-nos que cada pessoa, onde quer que esteja no mundo, tem o poder de fazer a diferença e que uma ação, quando inspira outras pessoas, pode tornar-se uma poderosa força de mudança em todo o mundo", sublinhou, numa mensagem divulgada pela Fundação.

Entre as conquistas alcançadas pela Alianza Ceibo, a presidente do júri enumerou "uma decisão judicial histórica" que atribuiu ao povo Siekopai o título de propriedade "do seu território ancestral", assim como a anulação de 52 concessões mineiras ilegais no território A´i Kofan, protegendo a montante todo o sistema do rio Aguarico, entre outras vitórias judiciais.

O trabalho da organização passou também pela instalação de 1.164 sistemas de filtragem de águas pluviais, que dão acesso a água potável a mais de 6.500 pessoas afetadas pela contaminação por petróleo na Amazónia equatoriana e também na Colômbia.

O júri considerou igualmente a construção de 200 sistemas de energia solar, que fornecem eletricidade a 208 famílias, três associações de mulheres, sete escolas e 14 postos de patrulhamento territorial.

A entidade vencedora, que representa cerca de 6.500 pessoas de 85 comunidades, foi escolhida entre 304 nomeações, representativas do trabalho desenvolvido por pessoas e organizações de 73 nacionalidades, de acordo com a informação divulgada pela Gulbenkian.