Monges medievais eram mais propensos a ter vermes do que pessoas comuns
Uma das explicações é que os monges, frades e freiras fertilizavam as plantações que cultivavam na sua horta com as próprias fezes.
Na Idade Média, os monges, as freiras e os frades viviam uma vida fácil quando comparada com o modo de vida do povo. Viviam as suas vidas tranquilamente dentro de conventos e complexos monásticos, liam manuscritos, rezavam e cuidavam dos jardins onde cultivavam a sua própria comida. Tinham inclusivé acesso a instalações sanitárias, enquanto muitos camponeses da época não tinham acesso a saneamento básico.
Era expectável que os frades medievais estivessem menos expostos a parasitas transmitidos por contaminação fecal do que os habitantes da cidade. Contudo, um estudo realizado por Tianyi Wang, que contempla os restos mortais de 44 cidadãos medievais de Cambridge, revela exatamente o contrário. Acontece que os frades agostinianos locais eram quase duas vezes mais propensos do que a população geral da cidade a serem infetados por um grupo de parasitas: bactérias intestinais.
Este estudo sugere que o estilo de vida dos frades na Inglaterra medieval colocou-os em contato regular com as fezes, apesar do seu estilo de vida superior.
Na época medieval, os médicos acreditavam que as bactérias intestinais desenvolviam-se a partir de um excesso de fleuma. Para tratar uma infeção, era recomendado o consumo de absinto ou a ingestão de uma solução contendo toupeiras em pó. Essa falta de compreensão médica explica o porquê de muitas pessoas viverem com parasitas na Idade Média.
Estudos anteriores analisaram os tipos de parasitas intestinais presentes na Europa medieval, analisando os sedimentos de fossas e latrinas, que teriam sido usados por muitas pessoas diferentes ao longo do tempo.
Mais recentemente, os investigadores começaram a avaliar qual proporção de uma população que pode ter sido infetada por bactérias intestinais. Foi medido o sedimento da pélvis de sepulturas, onde os intestinos e as bactérias estavam localizados em vida.
Os resultados sugerem que pelo menos um quarto a um terço das pessoas medievais tinham bactérias intestinais aquando da sua morte.
Identificando restos mortais
Até agora, ninguém comparou quão comuns os parasitas podem ter sido em diferentes grupos de pessoas com estilos de vida diferentes. Era expectável que aqueles que tinham uma alimentação mais diversa e saudável, apresentassem níveis mais baixos de parasitas. Tal não foi possível aferir através dos restos mortais descobertos. A maioria das pessoas medievais foi enterrada num cemitério paroquial comunal, nua e com uma mortalha. Não apresentavam qualquer identificação na pedra tumular ou qualquer outra evidência que pudesse descrever o seu estilo de vida.
Um grupo de pessoas medievais que foram enterrados nos seus próprios cemitérios distintos eram os monges e freiras que viviam em ordens monásticas. Como muitas vezes há bons registros do estilo de vida desses grupos, foi possível comparar estudos sobre seus restos mortais com estudos da população geral da época.
No entanto, nem todos os enterrados no cemitério de um mosteiro ou convento tinham realmente vivido lá. Pessoas ricas da mesma cidade podiam pagar para serem enterradas ao lado dos religiosos, pois acreditavam que isso aumentaria a chance da sua alma passar rapidamente para o céu. Até recentemente, o desafio era como diferenciar esses dois grupos.
Encontrando os frades
Quando os arqueólogos escavaram o cemitério dos frades agostinianos em Cambridge, notaram que muitos dos enterros tinham fivelas de cinto posicionadas na frente da sua pélvis. Ficou claro que os frades tinham sido enterrados nos seus hábitos e cintos, não nus com uma mortalha como era a população em geral. Essas fivelas de cinto permitiram aos arqueólogos determinar que sepulturas eram de frades e quais eram dos leigos ricos da cidade.
No estudo foi usado o método de microscopia para detetar os ovos de vermes intestinais no sedimento pélvico de 19 frades agostinianos com fivelas de cinto.
Descobriu-se que a lombriga e o tricurídeo tinham infetado a população medieval de Cambridge. As lombrigas adultas têm cerca de 30 cm de comprimento e os tricurídeos têm cerca de 5 cm de comprimento. Surpreendentemente, descobrimos que 58% dos frades agostinianos estavam infetados, mas apenas 32% do cemitério paroquial estavam infetados. Essa diferença é estatisticamente significativa.
Hábitos imundos
Era espectável que os frades tivessem uma prevalência de infeção menor do que a população geral. Tanto a lombriga quanto o tricurídeo são disseminados pela contaminação fecal de alimentos e bebidas. Por outras palavras, a presença destes vermes indica uma falha de saneamento.
Os conventos agostinianos muitas vezes tinham latrinas e instalações para lavar as mãos, e desfrutavam de mais riqueza e luxo do que os camponeses pobres que viviam na cidade. Então, por que os frades seriam mais propensos a sofrer de vermes?
Uma explicação plausível era que eles fertilizavam as plantações que cultivavam na sua horta. Era prática no período medieval que os mosteiros cultivassem plantas para consumo próprio, e também era prática fertilizar as plantações com fezes.
Naquela época, as pessoas ficavam tão felizes em fertilizar plantações com fezes humanas retiradas de fossas quanto a utilização de estrume. É possível que os frades tenham sido reinfetados por parasitas quando as fezes das suas próprias latrinas foram esvaziadas e usadas para fertilizar os jardins.

