Happy Mess: alguma coisa já mudou

Sai nesta sexta-feira o novo álbum "Jardim da Parada". Entrevista ao vocalista Miguel Ribeiro.

Os Happy Mess, com dez anos de existência, entram num novo ciclo no novo álbum Jardim da Parada, com a conversão da banda à língua portuguesa, depois de vários discos feitos em inglês.

Para essa transformação, chamaram alguns dos criativos na língua de Camões, como os escritores José Luís Peixoto, Bruno Vieira do Amaral ou o companheiro de redação do vocalista Miguel Ribeiro, Rodrigo Guedes de Carvalho (pivô da SIC e também com currículo literário), e ainda letristas de excelência do meio musical como os portuenses Rui Reininho (dos GNR) e Capicua.

Falámos com o vocalista Miguel Ribeiro, o homem de Valpaços que é também de "Jardim da Parada", o espaço icónico do seu bairro lisboeta de Campo de Ourique.

Sentes-te mais exposto que nunca neste disco, ao te tornares o único vocalista, ainda por cima a cantar agora na língua materna?
A verdade é que sim. Senti-me muito exposto e este processo de adaptação foi longo. Foi mais de um ano a experimentar todos os dias em casa. Montei um miniestúdio em casa e trabalhei muito esta mudança do inglês para o português. Não é só traduzir, é encontrar uma voz nova, encontrar uma abordagem diferente à canção. Percebi que muda radicalmente a sonoridade da própria canção, independente do que seja a base em termos de acordes dos arranjos. A voz tornou-se numa das grandes apostas que eu imprimi neste disco. Comecei [a cantar] sozinho e fomos tendo várias vozes femininas. Regresso outra vez a esse espírito. Não me sinto um cantor, sinto-me um vocalista de uma banda pop ou rock alternativa. Nesta fase em que estamos a preparar os concertos ao vivo, para traduzir o que está no disco para o palco, começo a sentir-me mais confortável, de tal maneira que na minha cabeça já é estranho às vezes cantar em inglês.  

 

O que é que levou a pensar que não fazia sentido continuares a cantar em inglês?
Não houve nenhum momento em que achasse que o inglês deixasse de fazer sentido. As nossas referências são muito anglo-saxónicas, o inglês desde sempre foi uma abordagem que queríamos para as nossas canções, por uma questão de nos sentirmos mais confortáveis com a sonoridade que o inglês traz para as canções. E talvez por preguiça também. O português obriga-te a uma reflexão mais séria às letras do que o inglês. Em inglês tudo soa bem, o inglês é muito fácil para cantar. O português é das línguas mais difíceis. Digo eu com alguma propriedade porque desde miúdo que cresci junto à fronteira com Espanha. Eu cantava canções do pop-rock espanhol. Percebi que o português tem muitas sibilâncias, é muito cru e é preciso saber suavizar a língua portuguesa. Esta nova geração conseguiu fazer isso com alguma intuição. Achei que se eles conseguem, eu também consigo. Tivemos vários booms na música portuguesa nos anos 80 e nos anos 90. Apanhei aquilo tudo dos GNR e dos Xutos & Pontapés. Eles conseguiram-no mas muito por causa dos seus protagonistas: o Reininho que canta as suas letras e tem uma interpretação própria, os Xutos & Pontapés encontraram uma maneira de comunicar com o público visceral. Mas poucos conseguiram fazê-lo, 20 a 30 num universo de mil tiveram essa facilidade, dentro do universo onde me situo [pop-rock]. 

Houve alguma letra com que tivesses tido mais dificuldade em adaptar?
A minha estratégia de trabalhar com outras pessoas é estar presente e ir acompanhando todo o processo. Eu já tinha a canção escrita, e o trabalho mais difícil foi o deles, que tiveram que se adaptar às melodias que eu tinha criado. A minha parte estava mais facilitada. Contudo, estive sempre muito atento e próximo. Até o caminho lírico fui acompanhando. Acabou por ser relativamente fácil. Todos conseguiram chegar à canção rapidamente. Para mim, não tive grande dificuldade em incluir o português de outras pessoas. 

Nesse trabalho com o outro letrista, vais fazendo sugestões, emendas?
Sim, alteramos muita coisa. Mas depende dos casos. Com o Rui Reininho, não tivemos que mudar absolutamente nada. A primeira letra que o Bruno Vieira Amaral escreveu, não tive que mexer uma virgula. Depois tivemos que escrever mais duas e tivemos que fazer um volta-para-trás. "Afina aqui, vamos mais por ali". Falámos muito ao telefone e por What's App. Isso acabou por acontecer em alguns momentos. Houve a necessidade de ir mais para a frente ou para trás. Com a Capicua, mudámos uma coisa ou outra. A métrica dela não cabia bem na minha forma de cantar, mas o essencial ficou. As coisas vão para a frente e para trás. Com o José Luis Peixoto, aconteceu exatamente o mesmo. Ele percebeu e rapidamente chegámos lá. O facto de estar a trabalhar com escritores grandes mas também amigos ajuda bastante, porque a comunicação é fluída. Não há aqui egos, nem protagonismos. A música é o fim. 

O Rui Reininho define-se "como um homem de um só take". Sentiste isso quando gravaste com ele o tema 'Espiral'?
A voz do Reininho é a única além da minha - há também a parte dos coros da Ana Cláudia e do Paulo [Mouta Pereira, nos teclados]. Fiz-lhe um desafio louco. E como temos esse lado um bocadinho louco em comum, ele entendeu logo a ideia. Quando gravou, eu não estava presente. Ele gravou no Porto, no estúdio do Alexandre Soares - ex-GNR e atual Três Tristes Tigres e também participa num tema nas guitarras. O Alexandre disse-me que ele foi lá e foi logo à primeira ou à segunda, só para termos duas hipóteses sobre aquilo que queríamos. Ele é muito intuitivo e criou um universo muito próprio. Quando 15 dias depois lhe pedi a letra - ele canta em francês -, ele disse-me: "sei lá a letra, eu improvisei, não faço ideia". Ele é o verdadeiro artista.   

 

Já conhecias pessoalmente o Rui Reininho?
Conheci-o ainda muito miúdo - ele não se lembra. O Alexandre Soares é primo do meu pai. Eu tinha dois primos nos GNR - o Alexandre Soares nas guitarras e o Manuel Ribeiro nas teclas -, numa altura em que eram cinco. Desde miúdo eu tive essa proximidade, fui aos ensaios. Conheci o Reininho, conheci o Tóli [César Machado]. Já falei com eles sobre isto, mas, naturalmente, não se lembram. Mas lembro-me eu, porque foi muito marcante. Em miúdo, eu tinha a sorte de receber as maquetas dos GNR quando eles ainda estavam em estúdio. O Manuel trazia-me, o Alexandre dava-me a mostrar quando ia a Valpaços, onde eu ainda estudava. 

Muito antes de seres jornalista, tiveste em primeira-mão o álbum "Psicopátria" [de 1986], por exemplo?
O Psicopátria, exatamente! Lembro-me de ter ouvido maquetas do "Psicopátria". Lembro-me de ter ouvido a primeira maqueta do 'USA' e 'Homens Temporariamente Sós' [ambos do lado B do máxi-single 'Vídeo Maria', de 1988]. Para mim, foi inacreditável ter tido uma cassete com a música que só iria sair seis meses depois. Para um adolescente como eu, era muito valioso.     

 

O título "Jardim da Parada" assinala uma ligação a Campo de Ourique? 
Pode ter uma leitura mais poética ou mais concreta. O lado concreto era que grande parte da banda era de Campo de Ourique, onde ensaiávamos e tínhamos um pequeno estúdio. O Jardim da Parada era o sítio onde íamos depois de ensaiar, para beber um copo e conversar. Há esse lado de proximidade quotidiana. Vivo ali ao lado do Jardim da Parada. Tem um lado poético e idílico, um jardim imaginário que quisemos criar neste disco, com um universo muito nosso. Neste contexto de pandemia em que tanta coisa dramática aconteceu, quisemos criar o nosso oásis. Imaginámos desde o início um jardim. Juntámos o lado prático ao poético. O Jardim da Parada pareceu-nos intuitivo. 

O facto do álbum ter sido gravado à distância teve algum impacto na sonoridade da banda?
Tornou-se um disco mais cerebral e menos visceral. Eu levava muitas ideias para a sala de ensaio e discutíamos muito no momento. "Experimenta isto", "põe aquilo". São aquelas discussões que ocorrem até encontrarmos um rumo. Desta vez, foi uma coisa mais pensada, não explodimos tanto, não discutimos tanto uns com os outros. Eu mandava uma ideia, eles ouviam. Não respondiam imediatamente, só o faziam dois ou três dias depois, quando me apercebi que as coisas não estavam a ir no bom caminho. Mandavam ideias de volta. Trabalhámos muito com o mail, com o What’s App, fizemos muitos Zooms.  

 

É difícil a imagem de vocalista de uma banda pop-rock sobrepor-se à imagem mediática de jornalista pivô da SIC?
Tenho sempre feito um esforço ao longo destes dez anos para não misturar as coisas. Tenho feito o esforço de fazer o meu trabalho de jornalista e tentei não trazer o jornalista para a música. Essa mistura pode ser perigosa. Pode haver a ilusão de que aquele jornalista de televisão se aproveita por ser conhecido para ter um projeto. Tento sempre fugir a essa mistura desses dois universos, primeiro porque o tipo de música que faço não é compatível com a televisão generalista onde eu trabalho, quer seja a SIC ou a SIC Notícias, e depois porque não quero beneficiar do eu jornalista. Quero que o eu compositor, o eu músico, o eu letrista se imponham por si só e imponham o seu próprio caminho. As pessoas que gostam, devem gostar da música que faço e não da figura que leva as notícias todos os dias.   

 

É uma decisão que gostavas ter tomado mais cedo, a de te aventurares numa banda pop-rock?
Às vezes, penso nisso: "será que devia ter começado mais cedo?". Talvez, mas nunca chego a uma conclusão definitiva. Acabei por fazer as coisas que senti que tinha que fazer. Durante muito tempo, quis investir na minha carreira de jornalista, senti que não tinha muito espaço para o fazer, sentia-me confortável a trabalhar e a compor em casa. Juntar-me com amigos numa garagem e tirar prazer disso. A minha decisão de fazer deste projeto algo mais sério e profissional foi quando achei que poderia organizar a minha vida sem prejudicar nada daquilo que eu queria fazer. Só quando tive condições para me debruçar nas músicas e nos palcos com seriedade é que tomei essa decisão. Até lá senti que podia fazer as coisas de forma pouco estruturada e poderia pôr em risco a vontade que eu tinha de fazer algo mais sólido. Se calhar, tomei a decisão certa: esperar até ter a disponibilidade mental para me debruçar um projeto. Quando faço dez anos de carreira de palcos, talvez me dê razão essa lógica.  

 

Quando tomaste as rédeas de uma banda pop-rock de forma mais séria, encaraste isto como uma aventura, atendendo ao risco que envolvia?
Como um desafio. Gosto muito de me desafiar. Sou o tipo que gosta de ter uma cenoura para correr atrás dela e gosto de ter missões impossíveis pela frente, seja no jornalismo, seja no meu lado artístico enquanto compositor e artista. Gosto do desafio do quase impossível. "Vais gravar um disco? Isso é impossível". Às vezes, essa minha inconsciência e essa minha capacidade de me superar contribuem para que as coisas aconteçam.

Com tantas mudanças de membros, há o risco dos Happy Mess serem vistos como a banda do Miguel Ribeiro?
Há esse risco, sim, e não me ofende, sendo que não tem sido só um trabalho meu, mas também de todos os músicos que têm estado comigo ao longo destes anos: os que vieram e os que foram. Sou a força motriz? Sim, somos eu e o João Pascoal o elo de ligação e o fio condutor criativo destes anos todos, que teve gente maravilhosa que contribuiu para tudo isto. Se sou a cara do projeto desde o início, sim, é inegável. 

 

Os Happy Mess tocam no dia 25 de outubro no Teatro Maria Matos, em Lisboa, no dia 28 de outubro na Casa da Música, no Porto.