Happy Mondays: easy Ryder emboscado pelo som

Velha máquina da Madchester fez em Lisboa a rodagem de clássicos como 'Kinky Afro', 'Loose Fit' e '24 Hour Party People', mas a gerigonça já não acelera como dantes.

Olhando esta noite para o palco mais adiantado que reduz a arena do Campo Pequeno e sentindo as bancadas depauperadas, seria difícil imaginar que os Happy Mondays foram uma das bandas mais influentes do rock dançante de há menos de 40 anos. Os Mondays foram uma instituição do movimento da Madchester, uma cena maraca, ou melhor de maracas. O dançarino Bez hasteia-as permanentemente, tal como o vocalista dos Stone Roses, Ian Brown, fazia com a pandeireta, como se fossem próteses de que dependem para atuarem em palco. 
 
Quanto ao vocalista Shaun Ryder, é um milagre de sobrevivência, com a mesma omnipotência de saúde férrea de Keith Richards e Mick Jagger dos Rolling Stones, a quem permitiram todos os excessos. Ryder galopou pelo dito cavalo  e meteu-se em todo o tipo de trips. Hoje, ei-lo sorridente no Campo Pequeno, porém, mais inchado, aconchegado no seu maior peso, com uma pose mais estática. As comparações com o passado glorioso são sempre inconvenientes. O cabelo já não mora na cabeça de Ryder, menos janota nas roupas e mais parecido com um turista inglês de Albufeira de calções, de vaidade abandonada. 

A cantora dos coros Firouzeh é a primeira a destacar-se, com um brilharete vocal na introdução ao tema 'Kinky Afro', onde consta o manual de rufia de Shaun Ryder, que não está com meias medidas: “Son, And I don't have a decent bone in me/What you get is just what you see”. No entanto, a algazarra de rock com dança é já só uma memória no Campo Pequeno, sem a força incisiva de antigamente, numa versão mais esparsa, mais derivada pelos sintetizadores, com a cantora a dar musculação vocal como uma máquina de oxigénio num SOS, enquanto Bez é o dançarino agitador que continua a mexer-se bem e com boa linha. Só o cabelo grisalho diz a sua idade. Mas o aviso estava logo na primeira canção: o som estava mau e estoirava a perceção das sinuosidades das músicas. Os Happy Mondays estavam emboscados numa terra-fantasma de ausência de envolvência sonora. 

'God's Cop' é o segundo tema do alinhamento e foi outra pedrada no charco à época. E por pedrada, tem também o significado que se sabe vindo de quem vem, Shaun Ryder e os seus junkies. Na pele de amigo do alheio, o personagem (sempre no risco de ser o próprio Shaun) tem um esquema cúmplice de malandragem com o polícia. Mas Ryder (ou a personagem) despista-se da lei, mas não da pista de dança. Os beats bombam, mas também os acordes de guitarras icónicos da Madchester.

Novidade, os Happy Monday seguem a ordem, mas é só a das faixas do famigerado álbum “Pills 'n' Thrills and Bellyaches”. Faixa nº 3 do famigerado álbum “Pills 'n' Thrills and Bellyaches”, terceira canção do concerto: 'Donovan'. A letra da canção é nova debochada, e quando isto acontece o sol é sempre invocado para as figuras de estilo da gente que se porta mal: “Oh sunshine, shone brightly/Through my window today”. Pois, pois.

'Performance' é o primeiro tema da noite que não é do álbum “Pills 'n' Thrills and Bellyaches”, um rock escangalhado onde rave e psicadelismo se misturam como sempre. Bez, incansável, é também o cheerleader que pede aplausos ao guitarrista Mark Day, que tece as suas malhas icónicas para a Madchester.

O público aviva com 'Loose Fit', a canção de guia musical para todo o movimento de Madchester, incluindo para os Primal Scream no álbum “Screamadelica” (de 1991). O sistema de beats processados do tema faz parecer o acorde da guitarra como um sample, mas na verdade é um riff original dos Mondays, mais propriamente do seu guitarrista Mark Day, curvado sobre o instrumento e tapado com a sua boina.

Shaun Ryder fala muito mas o seu sotaque camufla o que diz. Está em modo de figura de corpo presente e pouco mais pode fazer que sorrir, sobretudo perante o portento vocal de Firouzeh, que se torna a estrela em várias das canções, como o caso do tema 'Bob's Yer Uncle'. Shaun Ryder continua entretido a numerar por anos cada tema que interpreta. Os números percebemos. “Vamos lá a 1989”, diz ele. Ou seja, a ‘Hallelujah’. Os Happy Mondays brincam ao sagrado e profano, como os mais pecadores dos irmãos, numa canção mítica em que a cantora Firouzeh tem um pináculo de cantora de gospel mas numa capela notívaga sem vitrais e crucifixos. 


“Vamos a 1986”, diz agora Shaun Ryder. O tema é evidentemente ‘24 Hour Party People’, o tal que inspirou o nome do filme sobre a editora de Manchester, Factory, realizado por Michael Winterbottom. A música funciona como uma certidão de nascimento da estética da banda: rave & roll e as missivas de desbunda, em que quando se é traquinas em adulto, a coisa vai demasiado longe do que as mães nos ensinam. O modo vocal rufia de Ryder tem complementaridade gramatical, porque aquelas letras - “Plastic face can't smile the white out” - não são para meninos. Bez intensifica a sua ginástica de braços, antes da achega do “Mellow Man”, a palavra-chave para se entrar em 'Step On', tema capturado a John Congos e metamorfoseado e convertido ao clubbing pela agilidade boémia dos Mondays. Enquanto Shaun cumpre o serviço vocal, Bez esmerar-se e dá-se ao público. Salta do palco e aproxima-se da multidão e bebe um copo com a malta como se fosse dar um salto ao bar.

Vem finalmente um entusiasmado aplauso, não se sabe muito bem se ao concerto, ou ao passado influente do grupo. Enquanto a banda se recolhe, é o próprio Bez a fazer a festa para o encore, como um líder de claque. A banda lá regressa para o tema final 'Wrote For Luck', espécie de assinatura de um livro de reclamações contra o dealer: “I order a line, you form a queue”. Shaun Ryner está desalinhado com o dealer e com a lei. 'Wrote For Luck' é uma pedrada no charco que ainda bate hoje, com muitos espectadores a fazerem as suas danças solitárias nas bancadas mais despidas. Bez ainda puxa Shaun mais para a frente, para um momento que se queria galvanizador, mas Shaun prefere ficar no seu curto perímetro a meio do palco. Só está à espera que o concerto acabe. Foram 75 minutos de duro embate entre o passado glorioso e este presente de serviços mínimos.