Herlander: "sempre amei música e gosto de ver o impacto que tem nas pessoas"

Entrevistámos o artista português que vai atuar na Casa Capitão, em Lisboa, a 18 de abril.

"Cárie" é o título da mixtape que Herlander editou a 6 de março e que pode ser escutada nas várias plataformas digitais. 

O artista português, natural do Seixal, já tinha assinado um EP experimental em 2018 - altura em que a sua erupção criativa se manifestava em Londres, Inglaterra. Após essa experiência, e já com os pés em Portugal, o músico "tem explorado novas formas de cruzar som, performance e identidade. Compositor para teatro e instalações, tem vindo a colaborar com diversos artistas, como Ana Moura, Extrazen ou Odete, e a afirmar-se como uma figura essencial na vanguarda da música portuguesa", refere o comunicado de imprensa que apresenta o novo registo discográfico. 


"Filho de um músico que nunca teve oportunidade de gravar um disco, Herlander carrega também neste projeto uma dimensão geracional. ‘Cárie’ é um gesto de reconciliação com as suas raízes e uma celebração de uma identidade híbrida que durante anos pareceu difícil de encaixar. O título parte de uma metáfora direta: a ‘Cárie’ como a falha que quebra a uniformidade. Ao longo do seu crescimento, Herlander habituou-se a ocupar esse lugar, entre referências culturais distintas, heranças familiares e expectativas muitas vezes contraditórias. Em vez de suavizar essa tensão, assume-a como identidade".

Herlander sobe ao palco da Casa Capitão, em Lisboa, no dia 18 de abril, para a apresentar a sua primeira mixtape ao vivo.

Oiça a entrevista aqui:

Entrevista a Herlander

A mixtape chama-se "Cárie". Sei que é um título com várias camadas. Porquê este nome?

Pensei no título quando estava com alguns amigos que também fazem parte da minha equipa. E, na altura, estávamos a pensar num universo que me incorporasse como pessoa. E eu sou aquela pessoa que está sempre com doces no bolso ou a comer candies (doces). Mas, por outro lado, não queríamos ser literais ao ponto de chamar ao projeto "doce" ou "açúcar". Foi então que começámos a navegar por palavras que pudessem estar associadas a mim, tendo em conta que este projeto abrange o presente, o passado e o futuro. Quando chegámos à palavra "cárie" nem foi preciso dizermos nada. Apenas olhámos uns para os outros porque naquela altura sabíamos que tínhamos encontrado a palavra [certa]. O dente é algo muito sólido. It bites into things (morde coisas), consegue furar mas também é supersensível ao açúcar e a any other things (a outro tipo de coisas). Acaba por ser um resultado das circunstâncias a que é submetido. E a verdade é que durante a minha infância no Seixal sentia-me um pouco assim. Era uma criança muito diferente das outras. Expressava-me de uma forma diferente. Era muito loud (extravagante), colorido. E, nesse sentido, sempre me senti um pouco deslocado. Sentia que não fazia parte de uma linhagem de dentes que eram fully functional (plenamente funcionais) ou alinhados. Sentia-me um pouco torto, como se fosse uma cárie. Chegar a essa palavra foi uma associação muito direta e íntima, mas, ao mesmo tempo, é uma associação muito fun (divertida). Sentia que havia um universo paralelo àquele que queria transmitir com esta mixtape que acaba por expor muita vulnerabilidade. 


E o que é que sentias quando chegavas a casa nesses dias mais difíceis? 


Eu, que tenho ascendência angolana e portuguesa, fui criado pelo meu pai, que veio de Angola para Portugal. Era um imigrante que vivia numa cidade pequena como o Seixal. E como cresci num bairro em que havia um equilíbrio entre a comunidade PALOP e a comunidade portuguesa acabei por viver nesses "dois espaços". O meu pai, sendo uma pessoa que emigrou para este país, estava a navegar em coisas que naquela altura eram novas para ele. Mas eu, que nasci em Portugal, e os meus irmãos estávamos a ser criados como portugueses. Foi uma experiência nova para o meu pai. É certo que me sentia, muitas vezes, incompreendido, mas, por outro lado, o meu pai sentia exatamente a mesma coisa. Não conseguíamos look eye to eye (olhar olhos nos olhos). Mas os momentos que passava em casa eram sobretudo de refúgio. E usava a música como escapismo. Lembro-me que tinha uns fones que funcionavam muito mal. Tinha de rodá-los até que funcionassem. Mas quando funcionavam, eu ficava horas, dias, sentando, a ouvir música no MP3. Era nesse universo que me sentia mais seguro. Enquanto ouvia música, criava mundos e histórias. E essa forma de expressão foi sendo cada vez mais intensa e vívida. Sempre amei música e gosto de ver o impacto que a música tem nas pessoas. E a música também tinha um forte impacto no meu pai. Na altura, ele era uma pessoa muito uptight (preocupada). Como estava a criar quatro crianças sozinho preocupava-se muito com o trabalho. Mas sempre que ouvia música, o demeanor (comportamento) dele mudava completamente. Talvez tivesse sido por isso que, quando eu era mais novo, o impacto da música e da arte nas pessoas tivesse captado tanto a minha atenção. Os momentos em que metia os fones e escapava para o meu mundo tornavam a minha experiência e a minha expressão artística ainda mais “cárie”. Digo isto no sentido em que me ia afastando, em vez de tentar trabalhar para me adaptar. Agora olho para isso como uma vantagem mas, naqueles momentos, afastava-me em vez de tentar fit in (encaixar-me) nesses espaços. Agora acho que acabou por funcionar. 

Incluíste a voz do teu pai na mixtape. Conseguimos ouvi-lo a dar-te conselhos sobre a importância de tentar, de aprender e de crescer. Quão importante foi para ti incluir as palavras do teu pai neste trabalho? 

É muito importante, para mim, ter as palavras do meu pai no disco. Ele era uma pessoa muito ligada à música. Fazia música, tocava música. E também cantava. Foi o meu pai quem me deu as primeiras referências musicais. E também tinha sonhos. Um desses sonhos era precisamente o de ser músico. Tentou [persegui-lo], mas não correu tão bem como esperava porque, além de estar a viver num país diferente, começou a ter filhos muito cedo. De certa maneira, perdeu a oportunidade de poder expressar-se. Teve de entrar em "modo sobrevivência". Quis ter o meu pai no disco para que ele sinta que faz parte da minha experiência [artística]. Só consigo fazer o que faço, porque foi ele quem me abriu essa porta, foi ele que o permitiu. Por mais altercações que tenhamos tido um com o outro ou por mais difícil que tenha sido, foi o meu pai quem me abriu as portas. Só posso estar grato por ter a vida que tenho. É graças a ele. Consigo fazer escolhas e posso fazer escolhas porque o meu pai lutou para isso. Daí eu querer tê-lo do disco. Foi uma forma de desenhar uma linha de healing (cura) na nossa relação. É uma relação que foi evoluindo, crescendo. Quando eu era mais novo era mais atribulada. Mas tem evoluído. Nessa canção em específico, a '24', eu falo em crescer, em tornar-me adulto.


Falo em parar de romantizar a morte e em parar de pensar em coisas que quando era adolescente achava que eram edgy (arrojadas) e fixes. Agora, como adulto, reflito sobre essas coisas de uma forma diferente. E a presença do meu pai no disco também é uma forma de refletir sobre a vida que teve e no que teve de trabalhar para dar-me o que eu precisava. Quando o meu pai tinha 24 anos já tinha quatro filhos. Fazia todo o sentido do mundo ter o meu pai presente nesta mixtape

Também fui vasculhar a tua conta no Instagram e, enquanto o fazia, deparei-me com um texto no qual falas precisamente do sítio onde cresceste. Escreves sobre isso, lá está, com gratidão e falas da forma como essas vivências influenciaram o teu percurso artístico…  

Sim. Digo sempre que temos de usar a nossa história, o máximo possível, no nosso trabalho. E acho que tenho uma história muito particular que pode ser partilhada com as outras pessoas de formas diferentes. Esse é também o meu trabalho enquanto artista. Falo em incluir as minhas raízes no meu trabalho de forma a enhancing (a elevar) a minha experiência em vez de fugir disso ou tentar ser e fazer algo que esteja longe de quem eu era quando era criança. Quero usar o Seixal como referência no que faço, para onde vou. Foi o lugar que me deu as cores para criar. Se tivesse sido criado noutro sítio, como no centro de Lisboa, por exemplo, provavelmente a minha música iria ser superdiferente, tal como seriam as minhas referências. A minha vida teria sido diferente. Nos momentos em que reflito, em vez de estar triste ou miserável com certas coisas que aconteceram na minha infância prefiro pegar no que [essas experiências] me deram e transformar isso em algo que floresça noutra coisa. É bom ruminar ou refletir sobre o passado, mas eu quero algo floresça dessa reflexão.  

E, se calhar, na cabeça de muitos miúdos também floresce a esperança de poderem seguir o caminho da música, apesar de eventuais contextos adversos. Sentes que podes ser um exemplo para muitos desses miúdos? 

Sim, definitivamente. Espero consigam levar isto como exemplo. Ainda ontem estava a falar disso com um amigo. Não podemos ficar reduzidos a sermos apenas vítimas das circunstâncias, seja pelo sítio onde vivemos ou por uma questão de limitação cultural. Estou aware of all of that (consciente disso) mas prefiro pensar como é que posso usar [a adversidade] para elevar a minha experiência e não como algo que pode ser destrutivo. Gostaria que as pessoas pensassem assim. Gostaria que usassem o sítio de onde vêm como um superpoder para contar uma história diferente. (…) O conselho que dou é que agarrem nisso e pensem como transformar essa experiência num passo evolutivo enquanto pessoas.

E agora mergulhando nesta "Cárie". Trabalhaste nesta mixtape durante algum tempo, creio eu. Gostava de saber quais é que foram os maiores desafios? 

Sim, foi algum tempo. Um dos maiores desafios foi trabalhar sozinho. Sempre trabalhei sozinho, mas fazer esse caminho solitário acaba por ser uma viagem muito mais longa. Quando trabalhamos sozinhos só podemos confiar em nós. E como só ouvimos "a nossa voz", às tantas, não sabemos se essa voz está a ser produtiva ou destrutiva. Pode ser "uma voz" muito self-critical (autocrítica). Foi um challenge (desafio) estar constantemente a lembrar-me que tinha de confiar no meu instinto para fazer as coisas de determinada forma ou para não sacrificar outras. E depois também é o meu primeiro projeto like full blown (completamente desenvolvido) em português. Claro que, em determinados momentos, existe language switching (troca de idiomas) porque também falo assim. E eu queria que as letras refletissem ao máximo a forma como falo. Era muito importante manter tudo o mais natural possível. Quando estava a compor pensei que seria maioritariamente em português, porque é a minha língua nativa, mas, ao mesmo tempo, quis incluir estes bitaites de energia Gen Z. (risos) É a minha realidade e a realidade de muitas pessoas. (…) Acho que tinha de haver essa reflexão porque é accurate (precisa). Acho importante ter essa accuracy (precisão) neste projeto. 

Para manteres a tua identidade em todos os sentidos…

Sim. Houve uma altura em que ficava aterrorizado quando dava entrevistas. Sabia que, se dissesse palavras em inglês, podia ouvir comentários do género, "lá vêm estes miúdos com os estrangeirismos, agora já não querem falar em português". Mas, ao mesmo tempo, tinha de bater o pé nesta questão. Basta olhar à minha volta e para os meus amigos para perceber que falamos desta forma. Não vejo qual é o problema. A nossa cultura mistura-se com a cultura western (ocidental). Crescemos muito heavily inspired (fortemente inspirados) com a western culture (cultura ocidental). É a nossa realidade, portanto vamos lá misturar. 
 
Numa entrevista recente que deste ao Ípsilon (do jornal Público), creio que falaste na "pop Herlander". Quero saber que género de pop é esse…

Acaba por ser o meu universo. Sempre que mostro aos meus amigos uma música que considero ser a canção mais pop que fiz, eles dizem-me que aquilo não é pop. Acham que, por outro lado, é muito experimental. Isto acontece sempre que acho que fiz the popiest song ever (a canção mais pop de sempre). Acho que foi isso que criou o pop Herlander. Eu amo pop, não sou nada anti-pop. Acaba é por ser um pop diferente porque é muito blended (mesclado) com a cultura portuguesa e com a cultura PALOP. Queria muito espremer essas culturas dentro do pop que consumo. Não queria que o disco soasse a um artista pop western. Queria que soasse a Herlander. Quero que oiçam uma música minha e que digam, "esta é muito uma música Herlander". Então, acabou por nascer a ideia do pop Herlander. É um pop com muitas referências, que incluem o tal pop western mas também referências reais da minha vida, do meu crescimento. É o que torna o pop mais experimental, mais estranho. Acho que é isto que me descreve.     

Também sei que houve um concerto do Bonga que te inspirou para este trabalho… 

Ele é incrível. Estava supercativado a vê-lo. Foi muito inspirador vê-lo, com oitenta e tal anos, em cima do palco a tocar o seu instrumento. Fez-me querer começar o projeto de novo. Tinha começado a fazer outra coisa, mas, naquele momento, pensei que tinha de mudar a ideia inicial. Quis fazer algo em que sentisse as minhas referências. Algo em que me pudesse expressar unapologetically (descaradamente)

Queria que falássemos de algumas canções como, por exemplo, a 'Vertigens'. Quero saber que vertigens são estas e que me falasses um pouco da letra deste tema. Fiquei intrigada… 

O 'Vertigens' foi um full-blown rant (um autêntico desabado). Eu precisava de cuspir essa música na altura em que a fiz. A canção fala de não querer sacrificar a minha arte para poder entrar por certas portas. A música, tal como a cultura, está sempre a transformar-se. Quando digo que não me importo se sou um artista de nicho, as pessoas acham que automaticamente estou a dizer que quero ser um artista pequeno. E não é bem isso que estou a dizer. O que digo é que não me importo de demorar mais tempo a chegar aonde quero chegar, caso isso me permita fazer música como quero, como preciso de fazer. Numa das entrevistas que dei, houve pessoas que ficaram com a impressão que eu estava a taking a jab (a criticar) a rádio. Mas não é nada disso. Tenho muito respeito pela rádio. Eu amo a rádio. O que estava a dizer é que tenho confiança que o meu path (caminho) um dia se cruze com o da rádio.

A música, como disse, está constantemente em transformação. Quero criar a música da maneira mais honesta possível e depois ver com quem vai ressoar, onde é que vai passar. Quero poder ter essa interação. E digo o mesmo em relação ao sistema de labels (editoras). A Sony, onde estou agora, está a ser incrível para mim. É um processo que vai ser mais lento, mas estou muito consciente disso. Estou pronto para fazer o trabalho. É um path, talvez mais difícil, que se vai desenvolvendo. As vertigens são sobre a confiança e a altura [que sinto que atingi] apenas porque as músicas elevam-me a esse ponto. A música e a arte elevam-me. Sei que estou superalto, mas, ao mesmo tempo, não tenho medo disso, pelo menos, tanto quanto certas pessoas têm dos riscos que tomo.

Há um marco importante na tua vida que foi a passagem pela TroubleMaker Records. Essa experiência moldou-te enquanto artista e enquanto pessoa?

Sim. A TroubleMaker Records foi um início muito importante para mim. Eu estava em Londres quando conheci o nëss e a PHOEBE, que são duas pessoas que basicamente fundaram a TroubleMaker Records at the time (na altura). Quando os conheci estava prestes a lançar o meu primeiro EP. Era um EP muito experimental que já ninguém consegue encontrar na internet. Ainda bem (risos). Mas foi assim que os nossos caminhos se cruzaram. Também comecei a fazer shows aqui. E começámos a construir uma pequena comunidade. Foi isso que realmente começou a abrir portas, no sentido em fui conhecendo pessoas e comecei a dialogar com a comunidade underground de Lisboa. Foi muito importante passar esse tempo com a TroubleMaker Records. Foi vital. 

Encontraste a tua tribo de alguma forma…

Sim. Eu naquela altura precisava muito de uma tribo. Precisava de encontrar um grupo de pessoas a quem dar a mão para fazermos algo juntos. Porque eu estava a fazer tudo sozinho no início. Era assustador. Não fazia ideia do que estava a fazer, na verdade. E sem eles acho que não teria chegado a certos sítios. Ficarei grato por isso para sempre.  

E como é que vais transportar o teu mundo e a pop Herlander para o palco da Casa Capitão? 

Meu Deus, eu estou super excited (muito entusiasmado). Vai ser o início desta viagem. Eu digo sempre que sou mais um performer do que um studio artist (artista de estúdio). E, apesar de amar fazer música em geral, performing (atuar) é a minha vida. Vou cantar as músicas do "Cárie", obviamente. Estou muito entusiasmado. Estamos agora a construir o show. Só espero que toda a gente goste. Esperem muita cor, muita "Cárie" energy, muitos saltos, muito dança, muito choro… 

Vais ter gomas à entrada? 

Vou tratar disso. É uma boa ideia. Mas eu estou muito entusiasmado, muito entusiasmado.