História de angolana explorada vale prémio da World Press Photo à portuguesa Maria Abranches
A distinção de um dos mais importantes prémios de fotojornalismo pode não ficar por aqui.
A fotógrafa Maria Abranches está entre os 42 vencedores regionais do World Press Photo, como foi anunciado esta quinta-feira. O trabalho "Maria" da portuguesa pode ainda vencer o prémio de "fotografia do ano" no próximo dia 17 de abril.
“Ainda estou um pouco incrédula, mas é uma grande honra poder ver esta história reconhecida por se tratar de um trabalho sobre uma e muitas mulheres. É um trabalho também pensado e desenvolvido por uma mulher. Isso também já é uma vitória e significa que as coisas estão a mudar, o que me dá algum otimismo”, revela a autora.
O projeto conta a história de Ana Maria Jeremias, uma “mulher angolana trazida por uma família de portugueses aos nove anos sob a promessa de poder estudar, algo que nunca aconteceu. Acabou por dedicar toda a sua vida a cuidar dos lares de muitas famílias há mais de quatro décadas. Foi separada da família, com quem perdeu o contacto durante 30 anos e voltou a encontrá-los passado esse tempo com a ajuda de uma juíza angolana”.
Maria Abranches diz que a vida de “Ana Maria” é comum à de “tantas mulheres que sustentam o mundo de forma silenciosa” que diariamente vêm de madrugada da periferia de Lisboa, onde vivem, para a cidade. “Nos raros momentos de descanso muitas vezes adormecem [nos transportes públicos] porque estão exaustas. Isso é muito impressionante para uma pessoa que como eu nasceu num meio privilegiado”, conta a fotojornalista.
A autora revela ainda que conhece a angolana desde os 11 anos, uma vez que “Ana Maria” trabalha na casa de uma das suas melhores amigas. Agora, com o prémio assegurado, Maria Abranches espera que estas mulheres sejam reconhecidas.
“Espero que possa ser devolvido à ‘Ana Maria’, e tantas outras mulheres, a voz que sempre lhes foi negada, assim como o seu direito à memória e à cidadania. Quero que seja, de certa forma, homenageada a presença secular africana em Portugal, uma vez que foi também determinante na construção da identidade portuguesa, em que as marcas do colonialismo, e as suas cicatrizes, ainda estão muito presentes. Tenho esperança que a visibilidade deste trabalho possa ser um ponto de partida para o debate sobre a reparação histórica”, destaca a premiada.
