HMB sobre o novo álbum: "reúne a experiência de vida de cada um e isso passa para a música"
"Neste Deserto Nascem Flores" é o nome do registo que está disponível a partir de hoje, 15 de março, nas lojas e várias plataformas digitais.
Héber Marques, Fred Martinho, Daniel Lima, Joel Silva e Joel Xavier estão de volta aos discos. "Neste Deserto Nascem Flores" é o registo que sucede a "Melodramático", álbum que chegou em 2020 e no meio da pandemia.
Quatro anos depois, os HMB apresentam o quarto álbum de originais, que é também o primeiro do grupo a sair com o carimbo da Warner Music Portugal.
No intervalo de edições discográficas, o coletivo lançou alguns singles, entre os quais 'Lembra-te de Mim' (com Rui Veloso) e 'A Chapa Tá Quente' (com Pedro Abrunhosa).
'Sol e Lua' foi a faixa escolhida para servir como single de apresentação do disco que o grupo diz ser "um ponto de viragem". "Neste Deserto Nascem Flores" conta com as participações de Pedro Tatanka (em 'Money'), EU.CLIDES (em 'Última Lágrima') e Joana Silva (em 'Força Motriz'). As vozes dos coros são dos TuneUp Voices.
Conversámos com o Héber Marques sobre o novo registo. "Neste Deserto Nascem Flores" - composto por 10 faixas - está disponível a partir de hoje, 15 de março, nas lojas e plataformas digitais.
Qual é que foi o ponto de partida para a criação deste álbum?
Creio que foi a canção que dá título ao disco, embora já tivéssemos uma série de músicas a orbitar. No meio do processo criativo, de experimentação e de gravação, encontramos sempre a peça que serve para começar a montar o resto do puzzle, o resto do quadro. A música que deu o mote a este álbum foi mesmo a 'Neste Deserto Nascem Flores'.
E porquê este título para a canção e para o disco?
É uma forma de olhar para as coisas áridas. Estar na indústria da música e ter uma banda é algo que exige muito de nós. Não exige apenas a parte musical de uma pessoa. Exige o todo. E, com isso, vem o desgaste. Há uma série de sacrifícios que têm de ser feitos. Há até perdas. Tudo isso, por vezes, deixa uma espécie de deserto. É daí que surgem os bloqueios de escrita, por exemplo. Tem tudo a ver com a parte emocional. E este disco chega como uma luz sobre esse deserto. É um ponto de viragem. Achamos que estamos a terminar e a começar um novo ciclo. Temos essa convicção. Embora não saibamos propriamente o que nos reserva, ter essa convicção já é esperançoso o suficiente.
Numa entrevista recente, disseram que "Neste Deserto Nascem Flores" é um álbum mais maduro do que os anteriores. Em que sentido?
É mais maduro no sentido em que foi feito por pessoas que já estão a entrar na casa dos quarenta. (risos) Somos pessoas diferentes. Já não somos os HMB que fizeram o primeiro disco, nem o segundo, nem o terceiro. "Neste Deserto Nascem Flores" é um álbum que reúne a experiência de vida de cada um de nós e isso passa para a música. Passou não só para as letras mas também para a abordagem musical.
Quando vocês editaram o "Melodramático", em 2020, disseste-nos que o álbum resultou da "reflexão de algumas crises individuais e que acabou por ser lançado em plena crise coletiva". Há um intervalo de quatro anos entre os dois registos e esse período pode ter servido com um bom espaço temporal para reflexão. "Neste Deserto Nascem Flores" nasceu de quê?
Há sempre espaço para reflexão. À medida que vamos amadurecendo, vamos melhorando nesse ponto. O que é uma pena. Seria bom saber o que sabemos hoje com a energia de antigamente. (risos) Houve espaço para reflexão, para mudanças, para coisas que precisavam de ser curadas. Acho que o "Melodramático" abriu esse processo. Serviu como começo.
Sei que vocês relevam muito a intuição no processo criativo. Para que lugares é que a intuição vos levou enquanto grupo. Como é que olham para esta fase dos HMB?
Quando éramos novos tudo o que tínhamos era o entusiasmo. Aquela música "estranha" era o que, por alguma razão, nos juntava. Depois fomos caminhando. Fomos continuando a explorar novos cenários, novas paletas de cores e novas sonoridades. Esse entusiasmo foi o que nos foi galvanizado. Foi nessa altura que fizemos 'O Amor é Assim', que acabou por ser uma canção super bem sucedida. Tornou-se histórica até. Isso aconteceu tudo numa fase em que, em termos criativos, era música mais acessível que tínhamos feito até então. Foi a fase do 'Peito', etc. Isso levou-nos para um sítio de algum deslumbramento. Acaba por ser natural, acontece no percurso de muitos artistas. Começamos a achar que vai ser sempre assim. Que vamos encontrar sempre um público em êxtase e com muita fome de nos ver. Só que não é bem assim. A verdade é que tudo muda, tudo passa. O desafio passa a ser o de encontrar um novo lugar que não se confunda com o vazio. Eu, pessoalmente, ao perceber que essa excitação e esse entusiasmo já não estavam lá, acabei por confundir esse tal novo lugar com a sensação de vazio. E isso não é verdade. Há muito mais para ver na vida. É apenas um suposto vazio, não é um vazio. É outro lugar. Chegarmos ao ponto onde estamos agora demorou algum tempo. A proposta que os HMB oferecem agora, com o álbum e os espetáculos, é a experiência de vida. É perceber que existem alturas de êxtase, de entusiasmo e de muita alegria, mas que também existem momentos mais calmos ou até mais tristes que podem ser apreciados. Não só podem como devem. Começamos a viver quando aprendemos a apreciar aquilo que de menos bom nos acontece. É essa a proposta dos HMB. Queremos trazer o público para aquilo que nós entendemos como "experiência de vida". Isso reflete-se até no alinhamento [dos concertos] que estamos a preparar. É uma montanha-russa, tal como é a vida.
O single 'Sol e Lua' também é, de certa forma, sobre esses dois contrastes que se complementam. O lado mais solar e o lado mais lunar. Qual é a história desta canção?
Existe a história mais prática e a história mais abstrata, a que está no subconsciente. Vou ser muito honesto em relação à história mais prática. Apercebi-me que estava toda a gente a cantar sobre a Lua e impus a mim próprio o desafio de inventar algo sobre o assunto. A dada altura, quando mostrei o que estava a fazer ao Daniel Lima, ele encolheu os ombros e disse-me: "acho que teria mais piada, se fosse o Sol a cantar para Lua". Fiquei a pensar naquilo e cheguei à conclusão que ele tinha razão. Comecei a alterar a música para ser uma conversa entre o Sol e a Lua. Na altura, ainda não me tinha lembrado dos paralelismos ou conexões que podemos fazer com a vida. Mas a verdade é que é bom ir buscar esse lado mais esotérico. Por vezes, esquecemo-nos que somos seres espirituais. Não somos só matéria física e química. Fui buscar o lado dessa quimera que, no fundo, traduz-se naquilo que é a vida. Muitas vezes, andamos atrás de coisas que só alcançamos depois de penarmos muito. Noutras alturas, nem sequer conseguimos alcançar o que queremos. A beleza está precisamente na luta.
E nestes tempos complexos, onde é que está o depósito da esperança?
Eu vou buscar essa esperança à única esperança que salva, que é em Deus, em Cristo. Se hoje tenho uma banda e se ainda continuamos juntos, é graças a essa esperança, a essa convicção. Estar numa banda e durante tanto tempo é como estar num casamento. É preciso haver perdão e muito amor. Às vezes, é preciso matar o ego. São ensinamentos que encontro na figura de Cristo e na minha fé. Acho que o mundo também precisa disso e creio que o ateísmo já teve mais força. As novas gerações estão mais ligadas ao misticismo. Estão a perceber que há algo mais. E acho que também estamos cá para apontar para a existência desse "algo mais". Para a conexão com esse "algo mais". Estou a falar da minha convicção, da minha experiência pessoal. Não posso falar pelo resto da banda. Não somos todos cristãos protestantes. (risos)
Que outras canções deste álbum é que destacas?
É sempre difícil pedir aos pais para dizerem qual é o filho preferido. Muitas vezes, os pais não dizem para não magoar os outros filhos. Como as canções não têm sentimentos, posso responder a isso. A preferência varia [com o tempo]. As que preferimos quando estamos a meio do processo, a trabalhar o disco, podem ser diferentes daquelas passamos a preferir quando terminamos o álbum. Em termos de história e de significado, a minha preferida tem sido a 'Neste Deserto Nascem Flores'. Como um todo, como uma música e como uma obra é a 'Última Lágrima'. É a canção que tem a participação do EU.CLIDES. [...] Ele também adorou a canção e disse-nos que fazia muito sentido colaborar connosco nesse tema.
As pessoas não têm noção, mas o EU.CLIDES é um guitarrista incrível. Toca muito bem. Aliás, ele não toca, ele expressa-se na guitarra. Regravou as minhas guitarras, algo que eu fiz questão que ele fizesse. E fez muito bem. E também cantou. Tudo o que ele pôs na canção é só bonito. É uma canção muito bonita. Quero muito que as pessoas a oiçam. Não tem nada a ver com o registo de HMB. Na verdade, é uma música pouco convencional. Nem tem um refrão sequer.
Além do EU.CLIDES, convidaram o Tatanka, a Joana Silva e os TuneUp Voices. O que é que cada um destes convidados deu ao álbum?
Nós fazemos os duetos porque é algo que faz muito sentido para nós. As nossas colaborações são sempre autênticas e genuínas. Até podiam ter acontecido por sugestão de outras pessoas ou da própria editora, mas não foi isso que aconteceu. Fizemos os duetos que faziam sentido para nós. O Tatanka, por exemplo, canta apenas uma frase na canção 'Money'. Quando escrevi essa frase já estava a imaginá-lo cantá-la A frase surge várias vezes ao longo do tema e o Tatanka canta-a de maneiras diferentes. No meio da canção até fez um acting que, na minha opinão, ficou muito bom. (risos) Sou suspeito mas acho que ficou muito bom. Vale a pena ouvir. Conheci os TuneUp quando atuaram connosco num concerto em Almada. Gostei muito deles. Não só pelo talento mas também pelas pessoas que são. A Joana Silva faz parte desse grupo mas na faixa 'Força Motriz' faz um solo.
O uso dos coros cria sempre uma atmosfera mais transcendente. Foi essa a intenção?
Os coros surgiram porque faziam sentido. E esse sentido é algo muito intrínseco em nós. Nós, HMB, somos músicos antes de sermos artistas. Também existe o contrário. Mas nós fazemos o que a música pede. Se a música pedir um coro, nós damos-lhe um coro. Se a música pedir uma guitarra portuguesa, como também acontece neste disco, nós damos-lhe uma guitarra portuguesa. Nenhum de nós toca guitarra portuguesa, mas arranjamos alguém que toque guitarra portuguesa. É isso que torna a coisa mais imprevisível mas mais bonita. Isso também acontece por acharmos que o que fazemos não é nosso. Nós somos um veículo para alguma coisa. Estamos muito gratos por podermos viver do nosso talento e das nossas capacidades musicais. É uma benção que não calha a todos.
