Iggy Pop: o lado errático da noite
A Iguana abre o ano musical... E é mesmo a abrir, no novo álbum "Every Loser", que sai nesta sexta-feira.
É Iggy Pop que abre hoje o ano discográgico. E perdoem-nos a redundância, mas é mesmo a abrir, neste novo álbum "Every Loser." Assim que o disco arranca em 'Frenzy', Iggy Pop está indomável em modo Stooges, a cantar o que faz: que está num frenesim. Dir-se-ia que repete o verso até à exaustão. Mas exaustão é coisa que não existe no setentão mais traquinas do planeta. Rebelde e enérgico mas também rufia e rude, Iggy Pop não tem paciência para ortodoxias: "I got a dick and two balls".
"Every Loser" tem como corda de ligação entre as 11 faixas (incluindo os dois interlúdios) o olhar sobre o falhado. Não é só o toxicodependente ou a prostituta, mas também o músico frívolo que é uma marioneta da indústria fonográfica. O padrinho e pai do punk personfica-se no 'Neo Punk' do título do tema. Volta a pôr o pé a fundo no pedal do acelerador com toda a sua engrenagem sonora, enquanto mostra o seu sarcasmo para os novos bonitões e mauzões do punk, com mais alma de celebridades do que de operários do palco. Já 'Modern Day Ripoff' é punk mais prosaico, com Iggy Pop a sacudir-se como um bicho em sofrimento, no relato de uma experiência ao engano com uma monitora de sadomasoquismo.
Em 'Strung Out Johnny', o rocker acalma, larga o punk de alguns dos temas e deixa-se abraçar por uns sintetizadores, narrando o circuito vicioso de um heroinómano - "First time you do it with a friend/Second time you do it in a bed/Third time you can't get enough/And a life gets all fucked up" -, ou como explicar com conhecimento próprio em quatro minutos como uma vida se pode despedaçar. O não-participante da narrativa torna-se participante e toma a letra nos versos finais: "estou viciado, mamã" ["I'm strung out mommy"]. Este é talvez o momento mais tocante do disco.
O humor negro é o explosivo para denotar os muros que tapam a verdade. É essa a arma que Iggy Pop usa em 'New Atlantis', onde cruza o apocalipse de uma prostituta de Miami com o apocalipse do mundo, e em que alterna o registo de voz-off mais sombrio de uma peça sobre a cidade balnear do estado de Florida com o cantor gozão que imagina o reverso da utopia de Atlantis.
No resto, Iggy Pop eclipsa-se e diminui-se numa banalidade que não lhe reconhecemos. O rocker que se vai intercalando entre obras mais elétricas e discos mais reflexivos, tem resistido ao longo dos anos como uma força viva que sabe abanar. Mas em "Every Loser", Iggy Pop está longe do seu melhor.
Artigo de opinião.
