"Ilha do Tesouro" chega ao palco com uma heroína e uma mensagem de igualdade
Clássico de Robert L. Stevenson ganha nova vida em Lisboa pela Companhia Gato Escaldado.
A clássica história de Ilha do Tesouro, publicada por Robert Louis Stevenson em 1883, regressa agora aos palcos numa adaptação pensada para toda a família, mas com uma novidade significativa: o jovem Jim Hawkins dá lugar a Jo, uma protagonista feminina. A encenação é de David Correia, que procurou criar um espetáculo onde a aventura, o humor e a imaginação se cruzam com uma reflexão subtil sobre representatividade e igualdade.
Mais de 140 anos depois da publicação do romance, David Correia acredita que a obra continua a manter uma surpreendente atualidade. Para o encenador, o segredo está na capacidade que a história tem de despertar a imaginação.
“Continua a ser atual porque é uma história que continua a puxar pela nossa imaginação, continua a puxar pela nossa criatividade, a dar-nos vontade de explorar outras coisas”, afirma.
Numa época marcada pelo domínio das tecnologias e dos ecrãs, o responsável considera que narrativas como esta desempenham um papel importante.
“Numa época em que estamos cada vez mais agarrados aos telemóveis e ao digital, ter uma história que nos leva a criar e a brincar é muito importante”, sublinha.
Uma aventura para rapazes e raparigas
A principal alteração desta adaptação é a transformação da personagem principal numa rapariga. A decisão surgiu logo nas primeiras fases de criação do espetáculo.
“Quando começámos a pensar neste espetáculo fomos rever adaptações anteriores e percebemos que havia uma enorme predominância masculina. Isso deixou-nos com vontade de mudar essa situação”, explica.
Para David Correia, a aventura nunca deveria estar associada a um único género.
“Achamos que não é uma história para rapazes. É uma história para toda a gente. Tivemos necessidade de mudar não só o protagonista, mas também outras figuras, como o capitão do navio, que passou a ser uma capitã, ou o doutor, que passou a ser uma doutora.”
O objetivo é mostrar às crianças que os sonhos e as aventuras não têm género.
“Rapazes e raparigas têm a possibilidade de sonhar com o que quiserem”, defende.
O desafio de condensar um clássico
Levar um romance de grande dimensão para o palco obrigou a um exercício de síntese.
“O maior desafio foi criar uma versão dramatúrgica que respeitasse a história original, mas perceber o que era realmente necessário colocar em cena e aquilo que tinha de ficar de fora”, revela.
O resultado é um espetáculo com cerca de uma hora de duração, pensado para crianças a partir dos seis anos, mas sem esquecer os adultos.
“A ideia foi criar uma versão divertida, que desse origem a um bom espetáculo e a um bom momento em família.”
Humor, ritmo e muitas reviravoltas
A encenação aposta num ritmo acelerado, característica que David Correia considera essencial para uma comédia.
“Uma comédia precisa sempre de muito ritmo. Neste espetáculo está sempre tudo a acontecer e isso é muito importante para que as coisas resultem”, explica.
Encontrar o equilíbrio entre aventura, suspense e humor exigiu várias revisões do texto.
“Foi necessário trabalhar muito o guião. Fizemos uma primeira versão, uma segunda, uma terceira, até encontrarmos a fórmula mais equilibrada.”
Mesmo os momentos mais tensos foram trabalhados de forma a manter o tom familiar da produção.
“Tentámos transformar os vilões e os momentos mais tensos em algo mais cómico, de forma a equilibrar todos os ingredientes da história.”
A magia do teatro numa era digital
Num momento em que as crianças são constantemente estimuladas por conteúdos digitais, David Correia acredita que o teatro continua a oferecer algo insubstituível.
“O teatro continua a ser uma experiência única”, garante.
O encenador recorda situações em que crianças habitualmente mais irrequietas ou com dificuldades de concentração se deixaram envolver completamente pelo espetáculo.
“Quando vemos uma criança que normalmente não consegue estar quieta ficar fascinada pelo teatro, percebemos a magia que isto ainda tem”, afirma.
Para o responsável, nada substitui a energia de um espetáculo ao vivo.
“Há fascínio em vermos pessoas reais à nossa frente a transmitir emoção e energia. Essa energia é única e continua a chegar às novas gerações.”
Imaginar o impossível
Uma história repleta de navios, piratas, ilhas misteriosas e tesouros escondidos coloca desafios particulares quando é transportada para o palco.
“Visualmente não vamos ter todos os cenários que o cinema nos permite ter, mas podemos criar isso através da imaginação”, explica.
David Correia destaca também o recurso a ferramentas contemporâneas, como música, sonoplastia e transformação de vozes, para reforçar a experiência teatral.
Ainda assim, considera que o maior efeito especial continua a ser a participação do público.
“Precisamos da ajuda das pessoas para imaginarem aquilo que lhes estamos a mostrar. E essa continua a ser uma das grandes magias do teatro.”
Personagens que cresceram nos ensaios
Ao longo do processo de criação, algumas figuras ganharam um protagonismo inesperado. É o caso de Trelawney, personagem que o encenador considera ter adquirido uma forte dimensão cómica nesta versão.
“Acho que ficou uma personagem muito interessante e muito divertida”, refere.
Também a Doutora que acompanha Jo ganhou maior profundidade, enquanto Long John Silver mantém o estatuto de figura central da narrativa.
“Continua a ser aquele pirata com coração de ouro que todos conhecemos”, resume.
Com humor, aventura, suspense e uma mensagem de inclusão, Ilha do Tesouro promete levar crianças e adultos numa viagem onde a imaginação continua a ser o maior dos tesouros.
De 12 a 27 de setembro, a Companhia Gato Escaldado apresenta o espetáculo A Ilha do Tesouro, na Academia de Santo Amaro, em Lisboa.
