Imagine Dragons na Luz: "a vossa vida vale sempre a pena"

Os norte-americanos regressaram a Portugal com confetti, energia renovável a cada tema e palavras de esperança.

Imagine-se. Os dragões foram à Luz e todos os que estavam no estádio (cerca de 60 mil) torceram efusivamente por eles. Vibraram com eles, cantaram com eles e refletiram com eles. E foram muitas as pessoas que se acomodaram no amplo recinto para o regresso do grupo de Las Vegas, que desta vez voltou a Portugal sem Daniel Platzman, o baterista que deixou a banda em 2024. É a sexta vez que os temos por cá. Prometeram voltar.

Não veio Platzman, mas veio Andrew Tolman, músico que ajudou a fundar o grupo e agora acompanha ao vivo Dan Reynolds, Wayne Sermon e Ben McKee. 

Um círculo gigante no grande ecrã e um som nas colunas, propício à criação de uma atmosfera de antecipação, preparou a entrada dos músicos. 

Da vasta e intergeracional massa humana - que pintou praticamente todo o estádio - soltaram-se os primeiros gritos. O entusiasmo coletivo foi a primeira labareda a explodir. Chegara a hora de recebê-los.  

Foi então que Dan Reynolds, Wayne Sermon e Ben McKee se elevaram, sem pressa, numa plataforma para depois assumirem as respetivas posições. Já no palco, saudaram, com entusiasmo, a multidão. 

Aplausos ecoaram em todas as esquinas do estádio. Ergueram-se os telemóveis para a captação do momento e ergueram-se ainda mais as expectativas para o concerto que estava prestes a começar.

Mais do que a um espetáculo, assistimos a uma experiência de pura conexão - em momentos mais efusiva, noutros mais serena. Uma experiência de unidade numa autêntica bolha de alegria comunitária que talvez tenha sido ainda mais evidenciada pelo andar atrapalhado do mundo, que parece querer erguer cada vez mais muros - fictícios ou de cimento. E ainda houve uma frase convicta e vital que marcou. Marcou não só a experiência, mas, achamos nós, tocou muitos dos que estavam ali. "Não estão sozinhos, a vossa vida vale sempre a pena”. Palavras de Dan Reynolds, homem que não receia expor as suas lutas e que tenta ajudar como pode quem as trava.

O piano aconchega a primeira do alinhamento. 'Fire in These Hills' - do recente "Loom" - é cantada por Dan Reynolds com a vastidão do deserto lá atrás. O tom é profundo, honesto e confessional. O frontman canta com a intenção clara de chegar a todos. Parece querer desabafar com eles, sem grande pudor em ser vulnerável - sendo esse um hercúleo sinal de força. Ter o privilégio de poder fazer isso ao vivo, conectando-se com os que o escutam, é algo a que o norte-americano sabe dar valor e parece honrar em cada concerto que dá. 

Sempre que pode, Reynolds celebra os fãs. Ergue os braços, parecendo querer aclamá-los, e puxa por eles. Bate com as mãos no peito. Saúda o céu. E rodopia depois, num êxtase mais pessoal, quase sempre debaixo de uma chuva de confetti. No palco é onde Dan Reynolds se sente livre. E a liberdade é como o amor, contagia. 

“Está uma noite perfeita. Esta noite é para vocês”, exclama para todo o estádio. 

"Loom" - o sexto disco de estúdio - incorpora turbulências e mudanças recentes na vida do cantor mas também no seio do grupo agora reduzido a um trio. As impermanências e reviravoltas escoaram para um álbum que (para felicidade dos fãs) meteu os Imagine Dragons na estrada outra vez. E agora em estádios. Mas 'Loom' não é só isso. É um disco que também se abre para novos começos. Encaminha-se para a aceitação pessoal e aponta para o exercício da autodescoberta enquanto banda. 

A digressão serve "Loom", é certo, mas o alinhamento dos espetáculos reflete o percurso do grupo. Mais do que isso. Serve, sobretudo, quem os segue. São os próprios Imagine Dragons que o dizem. Fazem questão de tocar o que sabem que os fãs querem ouvir. 

Transição direta, por isso, para o muito bem recebido 'Thunder', do álbum "Evolve". Sem surpresa, o coro de milhares na Luz acompanha o irrequieto e carismático Dan Reynolds. O hit é cantado, de uma ponta à outra, em uníssono, enquanto Reynolds, vestido com uns calções e com a clássica t-shirt de alças, percorre o palco, no meio de explosões pontuais de fogo de artifício. Entrega por momentos o protagonismo a Wayne Sermon que avança para a frente com a guitarra nos braços. Reynolds ajoelha-se com o companheiro. O momento cúmplice insufla o estádio de êxtase. 

Ao terceiro tema, mais um álbum para revisitar, agora "Mercury – Act 2", de 2022. Entre os momentos de acalmia relativa e as explosões catárticas de 'Bones', a cantoria coletiva volta a ecoar no estádio. Nem por um segundo o energético Reynolds, com evidente “magia nos ossos” e energia renovável a cada tema, cantou sozinho

É dado depois um espaço justo às proezas na guitarra de Wayne Sermon antes da escapista e upbeat 'Take Me to the Beach'. Reynolds abraça-o durante o solo.

Agora de tronco nu e visivelmente suado, o vocalista continua a orquestrar, com a mesma genica, a multidão, chegando-se à frente sempre que pode para confraternizar, com a proximidade possível, com o público. Chovem bolas de praia gigantes e coloridas que ficam a saltitar em cima da pista do bar de verão que se improvisou naquele momento no recinto. 

'Shots', que anda pelas profundezas do remorso, salta depois do alinhamento, movimentando-se de forma festiva, como quem espera pela oportunidade de redenção. Ouve-se Dan Reynolds a gritar: "amo-te, Lisboa".

Chega 'I’m So Sorry', o momento em que Wayne Sermon vai para a frente do palco, com o instrumento em braços, para pôr a descoberto o nervo do rock n’ roll. Como moeda de troca recebe uma ovação. 

Após a descarcarga mais rockeira de 'I’m So Sorry', regresso ao disco "Evolve" com 'Whatever It Takes'. Dan Reynolds agarra o tema com a mesma entrega e a simplicidade épica que o define. 

Pausa para uma reflexão partilhada sobre o percurso do grupo. "Obrigado por cantarem connosco, por sentirem alegria connosco, por dançarem connosco, por chorarem connosco, obrigado por existirem connosco, obrigado por nos deixarem estar aqui na vossa cidade maravilhosa", disse Reynolds aos que tinha à frente. "Sentimos falta de Portugal, é bom estar de volta", acrescentou. 
   
Com toda a calma, os músicos caminharam depois para o meio do estádio onde formaram uma rodinha acústica. 'Next To Me', canção que guarda a fórmula do conforto do amor, une as vozes e transforma o estádio num céu estrelado com as luzes dos telemóveis. Por esta altura, a voz de Dan Reynolds soa a gratidão. 

Grato e com vontade de maior proximidade com os fãs, salta para junto deles em 'I Bet My Life'. Cumprimenta-os e dá-lhes a mão, com um sorriso afável e olhos a brilhar.    

Segue-se depois 'Bad Liar', faixa de "Origins", que, mais uma vez, dá-nos acesso direto aos desabafos mais íntimos de Reynolds. 

Outro um tema, mais uma catarse. 'Wake Up', que versa sobretudo sobre a luta de Reynolds contra a ansiedade, ergue-se no estádio para um exercício salutar de terapia coletiva aos saltos. 

Do álbum de estreia, "Night Visions", saltaram de seguida 'Radioactive' e 'Demons' - dois dos temas que avolumaram (e de que maneira) a popularidade dos Imagine Dragons praticamente na casa da partida. 'Radioactive' mereceu um esforçado e aclamado duelo de bateria entre Dan Reynolds e Andrew Tolman. E 'Demons' voltou a convocar o coro de milhares para acompanhar o frontman que encetou o tema, com delicadeza, ao piano. Já em 'Natural', Reynolds soltou garra visceral.  

Muito do que Dan Reynolds guardou nas batalhas que travou contra a depressão e a ansiedade estão nas canções e na expressão em palco. O próprio fala publicamente da dificuldade que, ao longo de vários anos, teve em expressar-se e de como essa luta constante agravou os seus problemas de saúde mental. Há bem pouco tempo, num dos concertos desta digressão, disse que ser livre era o seu maior desafio. Agora Dan Reynolds, que recorreu (e recorre) à terapia, celebra estar vivo e não se contém na expressão.

"Quero dizer-vos que já estive do outro lado. Já sofri com a depressão e com a ansiedade", disse-nos já quase no final do concerto. "Espero que saibam que caso estejam a passar por isso, não estão sozinhos. Têm pessoas à vossa volta que vos amam e que se preocupam convosco. Por favor, não guardem para vocês. Falem com alguém da vossa família, com um amigo. Se tiverem meios, consultem um terapeuta. A terapia não faz de vocês pessoas fracas, faz de vocês pessoas sábias. A vossa vida vale sempre a pena. Repitam comigo, a vossa vida vale sempre a pena”. Aplausos e, pelo que vimos bem perto de nós, algumas lágrimas selaram o momento do lado de cá.

'Walking the Wire', 'Sharks', 'Enemy' e 'Birds' também foram encaixadas no alinhamento para esta noite. Ainda houve tempo para todas estas canções e para mais algumas palavras do conversador Reynolds: "obrigado por trazerem a vossa energia e as vossas vozes". 

No final um hino à superação. 'Believer' concentrou o ato final. Com símbolo do infinito em chamas no ecrã, Dan Reynolds ergue os braços para o céu. Parece estar a mover-se dentro de si, talvez a exercitar a gratidão por estar ali, a expressar-se e a ser livre. Agradece com vénias a todos os pontos do estádio. A banda sai após um agradecimento coletivo na ponta do palco. 

Da vulnerabilidade, das dúvidas e da dor se forma a força. Soltam-se confetti e acredita-se que o bom vem a seguir. O apoteótico 'Believer' fechou um concerto de heróis.