IndieLisboa: a capital às escuras, mas com a luz do projetor

O grande festival de cinema lisboeta toma a cidade durante os primeiros 11 dias de maio. Entrevista ao diretor Carlos Ramos.

A capital portuguesa volta ao corrupio do festival de cinema IndieLisboa nos primeiros 11 dias de maio. Vão ser projetados 240 filmes, entre longas e curtas-metragens, de 15 secções diferentes. Os cinemas São Jorge e Ideal, a Culturgest, a Cinemateca ou a Piscina de Penha de França são alguns dos espaços que acolhem esta odisseia cinematográfica. O diretor do IndieLisboa, Carlos Ramos, realça a importância da produção nacional na programação do festival.

Carlos Ramos

Uma das maiores novidades deste festival reside na aposta no restauro dos filmes da secção Director’s Cut, como o caso da longa-metragem da cineasta iraniana Marva Nabili, “The Sealed Soil”, rodada antes da nefasta revolução islâmica de Khomeini, que queimou uma série de fitas.

Carlos Ramos

Eis algumas das secções da programação do IndieLisboa, com o enquadramento do diretor Carlos Ramos. 

Foco - Charlie Shackleton
O IndieLisboa procura também “uma abordagem mais criativa e experimental ao cinema e pessoas que estão a contar histórias de maneira diferente. O Charlie Shackleton é uma dessas pessoas de uma liberdade formal de contar uma história, que é o que a gente procura na programação”.  Há, efetivamente,  muitos filmes de resistência também.

Retrospetiva - Binka Jeliaskova
“A Binka Jeliaskova é uma militante de resistência”, e os seus filmes vão passar integralmente na Cinemateca. “É uma homenagem ao seu cinema, ela já morreu há vários anos, irá cá estar a filha dela para acompanhar a retrospetiva. A Binka é uma cineasta pioneira búlgara, foi a primeira mulher a realizar uma longa de ficção na Bulgária.com o filme “Éramos Jovens”. Ela é bastante desconhecida no Ocidente ainda.  Esta será, penso eu, a segunda retrospetiva a nível mundial da Binka”. “É uma obra marcada muito por um contexto político e geográfico, quando ela começou a filmar no final dos anos 50. Era uma resistente antifascista, uma partisan. Depois, dentro de um regime soviético”, o seu cinema “acabou por ser também discriminado e quatro dos filmes dela estiveram proibidos durante muito tempo. Um filme dela não pôde ser mostrado mais de 20 anos. Nós vamos passar a retrospetiva integral, não é uma obra muito extensa, são nove filmes, sendo que o primeiro ela realizou em conjunto com o marido, o Hristo Ganev, que esteve cá em Portugal na altura do 25 de Abril a filmar.  Vamos passar estes novos filmes em cópia de 35 milímetros, o que é muito importante também para nós, com o apoio do arquivo búlgaro. É a oportunidade para se conhecer um cinema muito de resistência, muito militante.  Os filmes são divididos em três partes: uma trilogia da resistência; a trilogia do cárcere, em que mostra as mulheres na prisão, as condições, as mulheres que davam a luz na prisão num tempo que a condição feminina era muito diferente; e a trilogia do silêncio, com filmes muito mais intimistas e poéticos”.

Carlos Ramos

IndieMusic
“Há muita música de cultura negra este ano.  Por exemplo, temos o hip-hop. Há aqui alguns ecos engraçados e rimas engraçadas entre filmes portugueses e filmes internacionais. Por exemplo, no hip-hop há um filme sobre a Margem Sul”, “Filhos do Meio – Hip Hop à Margem”, “principalmente focado no Miratejo.  Foi um local central do desenvolvimento do hip-hop português: Black Company, Xullaji, Valete. Há todo um conjunto a fervilhar do hip-hop no Miratejo anos 90, e que faz uma rima com um filme da Dream Hampton chamado “It Was All A Dream”, que conta uma história que nós já conhecemos, que tem a ver com a era dourada do hip-hop, naquele duelo entre as costas dos Estados Unidos da América, com os grandes nomes como o Notorious B.I.G., o Dr. Dre, o Snoop Dogg. Só que tem uma diferença e por isso é que este filme é tão interessante que não é alguém a contar uma história de fora para dentro, é alguém que estava dentro. É a jornalista Dream Hampton, da mesma geração destes músicos que estavam a começar. Agora, para nós, são grandes nomes do hip-hop, mas na altura estavam a começar. E ela era amiga deles, era jornalista e teve acesso a tudo.  E vários anos depois, ela fez este filme com material que ela própria gravou, as entrevistas, as conversas que foi tendo. E nota-se algo também que nós já conhecemos, tem a ver com uma certa importância destas pessoas todas, retratando a misoginia em todo este universo do hip-hop. Ela é uma feminista também.


“Outra rima muito interessante tem a ver com música eletrônica, também nos anos 90. Historicamente, no IndieMusic, quando alguém faz um documentário, fá-lo a posteriori, de um movimento, uma memória do que foi.  Não é muito comum termos muitos filmes do agora. O filme “Paraíso”, do Daniel Mota, conta-nos a história da música eletrónica e do techno, as raves em Portugal no início dos anos 90. Todo este universo, se calhar para algumas pessoas, é desconhecido, para outros não, mas tem a ver com esta emergência das raves que vêm importadas de fora, dos Estados Unidos e da Inglaterra, coisas absolutamente incríveis que foram feitas numa época diferente, muito ‘do it yourself’, com amadorismo. Eram grandes raves em castelos, coisas que agora seriam inimagináveis e que aconteceram nos anos 90 e que quem passou por isso conhece bem”. E desde a emergência de sítios fundamentais a nível nacional, discotecas, não só em Lisboa, mas espalhados por todo o país”. O documentário “Paraíso” “faz uma rima também com um filme americano sobre a house music – Move Ya Body, The Birth of House - e o nascimento da house music na sequência do ‘disco’, e de toda a problemática que a house music teve, a dificuldade que teve. E conta aquele episódio muito conhecido da queima de discos vinis num estádio.  E ele conta-nos a história da house music, como é que surgiu, baseado em Chicago”. 


“Também há uma rima muito forte, que tem a ver com o filme da Catarina Alves Costa, ‘Orlando Pantera’. O Orlando foi um músico que morreu muito jovem, aos 33 anos, e foi fundamental. Apesar de pouco conhecido, está a reemergir agora, mas muitas das músicas que nós conhecemos nem sabemos que foram compostas pelo Orlando Pantera, o ‘Na Ri Na’, por exemplo. O filme mostra-nos esta história para muitos desconhecida do Orlando Pantera, que foi fundamental na história da música de Cabo Verde e muito influente em todos os músicos, desde Mayra Andrade, Dino D’Santiago, Lura, por aí fora. Este filme faz também uma rima com Milton Nascimento, ‘Milton Bituca Nascimento’, um filme da Flávia Moraes, que é um filme que nos fala sobre a história de vida do Milton, com todos os grandes nomes, desde o Caetano Veloso, o Chico Buarque, que trabalharam com o Milton, grandes músicos norte-americanos também do jazz. O documentário acompanha a última digressão do Milton Nascimento, que passou cá em Portugal. A Carminho e a Maro participam no filme”.

Carlos Ramos

“Há ainda o Sly Stone – ‘Sly Lives’ . O Questlove, que nós mostrámos há uns anos com o filme Summer of Soul, com grande sucesso no IndieLisboa, volta agora com um filme sobre um cometa chamado Sly Stone, uma das personagens mais importantes da história da música, reconhecido nos Sly and the Family Stone. É um músico fundamental da soul, do funk, que está desde há muitos anos em reclusão. Ele ainda vive, mas desapareceu do meio, está em reclusão. O Questlove faz um filme sobre alguém que adora. Ele trabalha esta ideia que está no próprio título, o Black Genius. O que é que isso do Black Genius? O Sly Stone é considerado um génio por muita gente. Teve uma vida recheada de episódios e o filme é muito importante para perceber como o Sly Stone teve diferentes momentos de estrelato e de apagamento. Foi muitas vezes ostracizado, mas é uma força enorme na música da soul e do funk”.  

Carlos Ramos

O IndieLisboa tem como sessão de abertura a comédia "Une Langue Universelle", do canadiano Matthew Rankin, a ser exibida hoje no cinema São Jorge, às 19h00.