IndieLisboa ocupa capital, com o mockumentary em destaque

Festival decorre até 10 de maio e transborda para lá do cinema, com concertos e tertúlias boémias.

Começa nesta quinta-feira mais uma edição do festival de cinema IndieLisboa. Um dos destaques deste ano é a retrospetiva dedicada ao formato de documentário ficcionado: o mockumentary. 

O IndieLisboa tem 14 secções dentro da vasta programação, quase o mesmo que dizer 14 micro-festivais dentro do mesmo festival. Há o IndieJúnior, para o público mais novo, e diversos ângulos noutras secções como o Silvestre, o Rizoma ou a Boca do Inferno. 

Uma das secções é o IndieMusic dedicado aos documentários sobre música. Um dos documentários do IndieMusic é sobre a pioneira do rock & roll em Portugal, Zurita de Oliveira. Este documentário vai motivar um concerto de tributo a Zurita de Oliveira a 1 de maio, no Damas, em Lisboa, com a participações de Xana, dos Rádio Macau, e a acordeonista Sandra Baptista (dos Sitiados e d’A Naifa).

Carlos Ramos é um dos diretores do festival, fortemente ligado à seleção de filmes de várias secções, incluindo o propalado IndieMusic. Este ano, voltamos a entrevista-lo. 

É um dos grandes destaques desta edição a retrospetiva do mockumentary?
É, vamos fazer esta retrospetiva sobre este género que nós gostamos muito, que é o mockumentary, que não é assim tão acarinhado quanto isso. Teve uma altura mais áurea entre os anos setenta e oitenta, principalmente. A ideia é fazer uma abordagem historiográfica, desde os primeiros filmes que se aproximam do que é o mockumentary. Estamos a falar de filmes que, de certa forma, encenam uma realidade, misturam o que é real e o que é que é falso, e fazem esse jogo. Começamos com um filme sueco que é o “Häxan” [de 1922], que vai ser musicado ao vivo na Cinemateca. A retrospectiva acontece toda na Cinemateca. É uma uma secção que é feita em parceria com a Cinemateca Portuguesa e vai até 2025 com um filme do Quénia, um sci-fi [“Memory of Princess Mumbi”, realizado por Damien Hauser]. É um género que tem sido um bocadinho esquecido, mas este género é muito interessante e bastante atual. É também outro ângulo de abordagem que tem a ver muito com a desinformação que circula. O que é que é verdade? O que é que é mentira? O que é que as pessoas acreditam? O mockumentary trabalha exatamente essa fronteira. Dentro deste género do mockumentary, há vários subgéneros por dentro e isso também vamos mostrar. Há comédias, porque o mockumentary está muito associado à comédia, e temos vários filmes históricos de mockumentary. O “This Is Spinal Tap” é um filme histórico do Rob Reiner, que faleceu há pouco tempo. Nas comédias também há um realizador que é icónico dos mockumentary, o Christopher Guest, que é um dos atores do “The Spinal Tap”, e um dos músicos. Ele é também um realizador de vários filmes de mockumentary, e um dos mais especiais é o que vamos mostrar, que é o “Best in Show”, sobre um desfile de concurso de cães, e é muito divertido. Além da comédia, há filmes políticos de mockumentary e um dos filmes mais interessantes da programação é o “Punishment Park”, do Peter Watkins, que tem eco no que está a acontecer nos Estados Unidos, com o Trump e com a polícia ICE. E este filme fala sobre uma polícia que prende as pessoas contra o regime na altura. Ele tem ecos bastante fortes com o que se passa atualmente. Isso é até meio assustador, mas tem esse lado bastante forte, político, e é um filme fundamental na retrospetiva. Há outro género que utilizou muito o mockumentary: os filmes de género de horror e terror. Estamos a falar do “Blair Witch Project”, por exemplo, baseado num found footage falso. Portanto, há aqui vários filmes dentro do mockumentary que vão a vários géneros. Normalmente, não fazemos a retrospetiva sobre um género cinematográfico, é mais sobre realizadores. Mas decidimos fazer também pelo que se passa na atualidade, esta desinformação que circula. Embora esteja muito focado nos Estados Unidos, é um género que cresceu muito. Temos também filmes portugueses, “Os Últimos Dias de Emanuel Raposo”, que é um mockumentary raro, português, absolutamente hilariante. Vamos ter um dos primeiros filmes do Buñuel, “Las Hurdes”. 

Curiosamente, quase que podia entrar nesta retrospetiva de mockumentary o filme de fecho deste evento, que é um documentário cómico, “The History of Concrete”. 
É, esse filme faz todo o sentido num ano em que temos a retrospetiva com o mockumentary, que é um filme do John Wilson. É a sua primeira longa, mas que segue na linha da série por que ele ficou famoso, que se chamava “How To with John Wilson”, que falava sobre coisas banais, mas com humor e com uma invenção e um génio de falar de coisas banais de forma, às vezes, filosófica. Ele é muito inteligente na forma como faz as reflexões. E este filme é a sua primeira longa e fala sobre o tema do cimento e do betão. Há uma diferença entre cimento e betão e no filme ele explica um bocadinho isso. E o filme é muito, muito engraçado. É um filme em que é o John Wilson, o próprio realizador, a deambular, a refletir sobre o cimento e o betão, com uma premissa. Isso também é engraçado. Ou seja, há um estilo nos Estados Unidos que se chama Hallmark, que é um tipo de filmes que é a antítese do que é o IndieLisboa. É uma cadeia de televisão que produz filmes superconvencionais para televisão, que seguem uma fórmula, essencialmente são romances de final feliz, e são filmes que se fazem muito… como um produto. E o que nós defendemos no Indie é a antítese disso: são filmes não-convencionais, que procuram outra forma de abordagem estética, narrativa, filmes de autor, e ele faz um workshop deste género, Hallmark, para fazer um filme sobre Hallmark. E é muito engraçado, pois não consegue financiamento e cria este filme sobre o betão e sobre o cimento, dentro do género próprio que ele faz, que são estes “How To with John Wilson”, que ficou famoso por esta série. A partir do betão, ele fala da vida, do estado atual do mundo, da sociedade, das coisas, hã, é, e é muito engraçado. É um filme muito, muito engraçado. Depois temos também o filme de abertura. 

Eu ia tocar já nesse assunto. 
É um filme muito, muito terno e muito melancólico. Estreou em Berlim, há pouco tempo. Chama-se “The Loneliest Man in Town”, da Tizza Covi e do Rainer Frimmel. São de nacionalidades diferentes, é uma dupla austríaca-alemã. A Tizza Covi vai estar cá na abertura e o John Wilson vai estar no encerramento também. Portanto, os dois vão estar cá. Já passámos alguns filmes desta dupla, e este filme fala sobre um músico de blues, o Al Cook, que vive em Viena, tem já uma certa idade, setenta e tal. Vive sozinho. E o filme tem uma rima com o que se passa atualmente no mundo, muito específica em Portugal e em Lisboa em particular, que é o problema da habitação. O que acontece dentro de uma cidade, como Viena, que está muito à frente de Lisboa na habitação pública, no controlo da habitação e dos preços das casas. Ele recebe ordem de despejo da casa onde sempre viveu, onde tem tudo, que é a sua vida. E o filme fala de uma forma também muito melancólica mas cómica também, sobre este processo de adaptação a esta ideia de receber uma carta: o que é que vai fazer, toda a sua vida está lá, os discos que tem lá, os livros que tem naquele apartamento, o que é que vai acontecer. E fala de todo este processo de forma muito terna, muito melancólica: do que é que fazemos à nossa vida quando recebemos uma notícia destas e tudo o que nós construímos até àquele momento da nossa vida, que parece que é um balão que estourou. O filme é muito comovente, mas tem um lado também de esperança.

O filme vai ver gravatas. 
Sim, sim! Ele vai ter uma reunião, é alguém que está deslocado do mundo de hoje. Ele vive no seu isolamento e numa certa ideia antiga de vida, fora de redes sociais e do digital. E ele é confrontado com algo que ele nem percebe bem, que é uma ordem de despejo. Ele é o único que vive ainda no prédio, que querem transformar num hotel. Só que há uma pressão enorme, como cortar-lhe a luz, para ele poder sair. E a forma como ele se relaciona com isso, com coisas do tempo de agora, que para ele são coisas que não fazem sentido, mas ele tem uma resistência muito bonita à forma como se adapta a todos esses jogos de má-fé. 

A nível de competição nacional, é impossível não reparar pelo menos em dois filmes, o “18 Buracos Para o Paraíso”, do João Nuno Pinto, e, “A Providência e a Guitarra”, do João Nicolau, nem que seja pelos elencos.
Vamos estrear [em Portugal] o filme do João Nicolau, “A Providência e a Guitarra”, que foi o filme de abertura de Roterdão [International Film Festival Rotterdam]. É um filme com o Salvador Sobral, tem uma lírica muito bonita e diferente. Ou seja, o texto do filme é muito bom e ele faz um jogo entre o que é que é a vida de artista e de músicos, neste caso, e faz um salto com os mesmos personagens entre o passado e o presente. É feito com um argumento de escrita muito elaborada e muito inteligente. O “18 Buracos Para o Paraíso” é um filme do João Nuno Pinto, passado no Alentejo. É uma história contada de maneiras diferentes por diferentes personagens e tem esse elenco de atores e atrizes bastante conhecidos, como a Rita Cabaço, a Beatriz Batarda, a Margarida Marinho. Eles estão numa propriedade, em que há uma seca, não há água, e então há perspetivas irreconciliáveis de ambos os lados e elas constroem essa história a partir daí. Mas depois há mais filmes da competição nacional que também fazem sentido. A estreia do Pedro Ramalhete, por exemplo, com o filme “Óculos de Sol Pretos”. O Pedro já teve uma curta nos Novíssimos. Esta é a sua primeira longa, sobre a precariedade do que é fazer um filme. É um filme feito com amigos, mas que é bastante universal. É um filme bastante divertido. Os filmes da competição nacional este ano são até mais divertidos do que costuma ser a competição nacional.

Terá esse filme alguma afinidade com “Aquele Querido Mês de Agosto”, do Miguel Gomes?
É diferente. Este aqui é bastante localizado na cidade de Lisboa, sobre um conjunto de amigos que está a fazer um filme. São amigos que foram colegas da escola de cinema e é um bocadinho como as coisas funcionam. Eu acho que é mais uma crítica e autocrítica ao meio do cinema. O “Kiss and Be Friends” da Ana Baldini e do Roly Witherow, é também uma comédia numa Lisboa contemporânea. É um filme que fala sobre o capitalismo e sobre a amizade. É um filme muito divertido e ácido sobre a intimidade, sobre a amizade, sobre uma geração, e passa-se nos vários paços de Lisboa que todos conhecemos e evoca esta vivência do que é viver também na cidade. É muito focado num conjunto de amigos, estudantes que estão cá na cidade. 

Aqui há um grande ecletismo no IndieMusic: folk americana, música cubana, música do mali, rock & roll português, rock alternativo português, rock alternativo norte-americano, free jazz, música eletrónica, música improvisada, música coral. Falta algum género musical ao IndieMusic? 
A construção da programação depende um bocadinho da matéria-prima que há todos os anos. É sempre eclético, mas este ano é bastante diverso nos géneros que temos. Temos também a música cubana, a Nova Trova Cubana, com o Pablo Milanés. Portanto, foi possível este ano construir uma programação muito variada geograficamente e a nível de estilos muito eclética. Esse é um objetivo de programação. São dez longas e três curtas, e a ideia não é afunilar num determinado género. Tentamos fugir do documentário mais convencional e tradicional. No IndieMusic há um registo muito de Talking Heads, que é muito usado nos documentários sobre música. Muitos filmes não o são e conseguimos fugir disso. Na verdade, tirando o continente asiático, eu penso que o mundo está mais ou menos representado. Primeiro saltamos para o continente africano, o filme sobre Amadou & Mariam, [“The Blind Couple From Mali”], este casal de invisuais do Mali. [O documentário] conta a história desta banda, que é muito importante e muito presente nos circuitos da chamada world music. Eles tiveram impacto quando na altura foram para França e foram produzidos pelo Manu Chao. Eu acho que a maior parte das pessoas já ouviu alguma música de Amadou & Mariam. Nós já passámos vários filmes do Mali, gostamos muito de música africana e do Mali em particular. 
Depois, atravessamos o Atlântico. E no Brasil temos um filme chamado Massa Funkeira, sobre o funk brasileiro, de favela, mesmo funk novo. O filme fala um bocadinho da história do funk, mas foca-se muito no atual, no agora. E é um filme da Ana Rieper, que é alguém por quem temos um grande carinho, porque esteve no IndieLisboa há uns anos, com um filme que ficou de culto, intitulado “Vou Rifar Meu Coração”, sobre música brega. A Ana Rieper vem cá ao festival mostrar este filme. Depois subimos um bocadinho [no mapa], passamos por Cuba, o Pablo Milanés, que eu já disse, é o fundador da Nueva Trova. É similar ao Canto Livre, daqui de Portugal, mas anterior ao Zeca Afonso. É um equivalente em Cuba. É um filme que tem um olhar até crítico, mais atual, um olhar sobre o Pablo Milanés, feito pelo filho adotivo do Pablo Milanés [Fabien Pisani]. Subindo [para os Estados Unidos], temos o tal rock alternativo… É um caldeirão de géneros, por parte dos Butthole Surfers. Para quem não conhece, pode ser uma das descobertas do IndieMusic, que é uma banda completamente caótica.

Caótica em todos os sentidos. 
Em todos os sentidos. Em palco, na vida, são pessoas bastante alucinadas, hã, e é muito engraçado, porque eles misturam também muita coisa, desde o rock ao punk, ao noise. 

Eletrónicas. 
Música eletrónica. Eles têm uma grande ligação àquela música emergente do final dos anos 80 e início dos anos 90 nos Estados Unidos, com todas essas bandas tipo Sonic Youth, Nirvana, etc. Grandes amigos deles todos aparecem no filme. 

Os Butthole Surfers souberam adaptar-se nos anos 90 àquela revolução operada pelo Beck, com ideias bastante próprias.
Cada álbum que faziam era uma coisa completamente diferente do álbum anterior. Ou seja, não seguiam um género, eles mudavam e dinamitavam a sua própria música. Nunca foram grandes, como foram bandas da época, como Nirvana, Sonic Youth, o próprio Beck. Estiveram sempre na vanguarda. Para quem gosta de música norte-americana alternativa dos anos 80 e 90, é obrigatório ver este filme, porque liga com todas as histórias destas bandas, incluindo [o produtor e músico]. Estão lá todos. 

Se houvesse um prémio de melhor título de filme no festival, se calhar ganhava este dos Butthole Surfers: “The Hole Truth and Nothing Butt”. 
Era este, porque isto traduz bastante bem o que é esse caos, eles tinham enorme humor. Eles usavam o humor, e o título capta bem esse humor também da própria banda. Depois, ainda nos Estados Unidos, virando ali para os anos sessenta, para a folk, temos um filme sobre o Festival de Newport, “Newport and the Great Folk Dream”, que aconteceu entre 1963 e 1965, e é um festival onde tocaram os maiores nomes da folk da altura, desde Joan Baez, Johnny Cash, Mississippi John Hurt, o Bob Dylan também. Foi neste festival que se fez história quando o Bob Dylan, que tocava guitarra somente acústica, eletrificou a guitarra num dos anos da edição, e nós vemos isso no filme - e foi um escândalo na altura. Estávamos dentro de um festival folk em que isso não era permitido. Ele ligou a guitarra e foi considerado Judas na altura. Vamos projetar o filme sobre o Sun Ra, essa lenda do jazz cósmico e da da espiritualidade. Também é um filme sobre a vida dele e sobre a Sun Ra Arkestra. Ainda no Brasil, um filme sobre a Jocy de Oliveira, que é uma pioneira da música eletrónica, e um daqueles filmes que funciona aqui dentro do IndieMusic também para descobrir coisas. O “Universo Circular - Jocy de Oliveira” é um filme do Dácio Pinheiro, que já tinha estado no IndieLisboa com um filme chamado “Eletronica:Mentes”, sobre a música eletrónica. Foi aí que ele conheceu a Jocy de Oliveira, que é contemporânea do John Cage e do Stockhausen, colaborou com eles, e é pioneira no Brasil da música eletrónica. Ainda é viva, tem noventa e tal anos, ainda compõe. Agora está muito mais focada em ópera experimental. E o filme traça toda esta carreira, é uma personagem absolutamente fascinante. Depois, há aqui quatro filmes portugueses, são estreias mundiais. Há esta missão do IndieMusic de apoiar e mostrar o que é que se faz sobre música portuguesa. Quando nós começámos, havia muito poucos filmes. Temos uma, uma, um filme de quarenta e, quarenta e cinco minutos, chamado Vintage Glitch, que também é um filme bastante experimental meio sci-fi, feito por um coletivo, onde está o Jorge Ferraz, o músico dos Santa Maria Gasolina em Teu Ventre, e que tem um projeto, Cellarius Noisy Machinae. E aé música dele, com textos dele, com uma animação sci-fi experimental em cima dos textos, é um objeto bastante conceptual, que passa com o filme sobre o Vítor Rua. Nós já tivemos um filme sobre os Telectu. É um filme do Nuno Calado e do Bigos Campaniço sobre o Vítor Rua, que é uma das mentes mais brilhantes da música portuguesa - quem for ver o filme acho que vai perceber isso,. Ele é fundador dos GNR, trabalhou com o António Variações. E os Telectu foram uma das bandas fundamentais da música portuguesa. Depois, nos filmes portugueses, temos ainda um filme sobre o rock de Viseu [""Percursos Alternativos"]. É um filme focado nas bandas rock de Viseu dos anos oitenta e noventa, mas acho que é super-universal para uma geração que fazia música nos anos oitenta e noventa. Era muito habitual nesses anos oitenta, amigos juntarem-se em garagens e arranjarem uma bateria, uma guitarra, um amplificador e tocarem. E este filme fala essencialmente sobre as bandas de Viseu. Há lá muitas bandas, algumas são muito locais e se calhar nunca ouvimos falar, mas há várias bandas que adquiriram contexto nacional, como, por exemplo, os membros dos Dirty Coal Train. Eram de Viseu e tiveram várias bandas. O Major Alvega, por exemplo. E é a história destas bandas dos anos oitenta, bandas de garagem dos anos oitenta e noventa de Viseu, mas que é muito universal para qualquer pessoa que teve esta experiência de fazer música. São os mesmos problemas, é um contexto bastante transversal a qualquer cidade de Portugal na altura, e havia uma certa pureza na música. Juntávamo-nos sem um plano se ia ter sucesso. Ter uma banda era por amizade, por diversão. A Francisca Marvão regressa [com o filme “Quem Tem Medo de Zurita de Oliveira?”]. Ela tinha feito um filme chamado "Ela É uma Música". Ela trabalha muito o contexto e o trabalho sobre as mulheres músicas, tirando-as da invisibilidade. Mostra-nos o que é ser mulher e artista e música. E ela, desta vez, faz uma pesquisa sobre alguém que também acho muito importante conhecer, que é a Zurita de Oliveira. Enquanto a Jocy de Oliveira é brasileira e pioneira da música eletrônica, a Zurita de Oliveira é pioneira em Portugal do rock. Ela foi a primeira mulher a gravar, a compor, a gravar e a cantar um tema rock chamado ‘Bonitão do Rock’, no início dos anos sessenta, não sei se mesmo em 1960. Numa altura muito improvável para uma mulher gravar músicas rock, ela foi a primeira. Andou pelo fado também. "Quem tem medo de Zurita de Oliveira?" é uma provocação. Quem é que tem medo destas mulheres músicas. Porque é que elas não têm mais espaço, mais visibilidade? A ideia é que esperemos que ninguém tenha medo. O que ela faz é um trabalho que tem algumas nuances com o filme dela, uma música que ela tinha feito. É muito inteligente, e que faz todo sentido no filme, que é dentro do contexto do trabalho dela, que vai não só pesquisar quem é esta Zurita de Oliveira, e ficamos a conhecer a história, é um trabalho de investigação muito interessante. Vai junto de amigas e desconhecidas de bandas músicas portuguesas. No trabalho de investigação descobriu as letras e composições da Zurita, algumas que não tiveram luz do dia e mete uma série de coletivos de mulheres, de bandas que já existem, outras bandas que se formaram de propósito só para o filme e interpretam. Uns trazem à vida estas músicas que nunca tiveram, que nunca tiveram luz e outras reinterpretam músicas da Zurita de Oliveira, como o ‘Bonitão do Rock’, por exemplo, ou artistas de várias bandas mais underground portuguesas, ou outros mais conhecidos, como a Xana, ou A Garota Não, por exemplo. 

A Xana vai participar no concerto de tributo à Zurita de Oliveira. 
Sim, neste filme, há um tanto deste projeto de tributo à Zurita que depois tem uma versão de palco no festival, no dia de projeção do filme, a 1 de maio, no Damas. Neste tributo à Zurita de Oliveira, as mulheres músicas que estão no filme vão subir ao palco no Damas em coletivos diferentes. Vai ser assim bastante enérgico, caótico, mas essa é a parte bonita. E vão desfilar um a dois temas cada, por coletivo, e vai ser durante toda a noite este tributo à Zurita de Oliveira. 
 

Temos vários festivais dentro do mesmo festival: IndieJúnior, Director’s Cut, Rizoma, Boca do Inferno, Silvestre, Cinema na Piscina.
Eu acho que isso é uma das forças e, às vezes, também fraquezas no sentido em que as pessoas se podem perder num programa imenso. O IndieJúnior, que tem um objetivo fundamental de literacia cinematográfica para o público jovem, a formação de públicos, que é um dos eixos estruturais que o IndieLisboa faz, e não o faz só no festival, ou seja, é um trabalho ao longo do ano. Nós continuamos a ter esse feedback que tu estás a dar, não só o Indie, e outros festivais que acontecem na cidade de Lisboa e no país, isto também tem estas secções para crianças. Isso é muito importante em todos eles. Aqui no IndieLisboa adquire uma dimensão bastante grande, estamos a falar de dez mil crianças nos onze dias, mas é um trabalho ao longo do ano, este. O IndieJúnior tem essa missão de formação do público, de criar esses estímulos de ir ao cinema, ir a uma sala de cinema, ver um filme em sala. E há muitos workshops também, atividades para crianças, há realizadores que vão estar lá, eles vão poder estar com as pessoas que fizeram o filme e falar sobre isso. E também trabalhamos com escolas, que elas próprias programam uma sessão dentro do festival, num projeto que a gente tem chamado "Eu Programo Um Festival De Cinema", para escolas do segundo e terceiro ciclo. É uma secção que cumpre um objetivo bastante diferenciador no festival. As outras secções são outras portas de entrada para o festival. O festival é muito grande, é um festival generalista, e às vezes isso é mal entendido. O que é um festival generalista menos sério? É um festival que há vários públicos e há coisas que está concedido para vários públicos do festival. Desde as pessoas mais cinéfilas, com secções de tradição internacional, de retrospetiva, como o Director’s Cut. São secções bastante cinéfilas, até secções que olham de uma forma mais divertida e podem ser outras portas de entrada, como O Cinema na Piscina. Criámos há uns anos esta secção, em que as pessoas podem dentro de uma piscina alguns clássicos de culto. Também há sessões para famílias, mas também há três clássicos este ano: o “Barbarella”, do Roger Vadim, o filme dos Monty Python, “Monty Python and the Holy Grail”, e o filme do Jacques Tati, “As Férias de Monsieur Hulot”.