Inês Sousa sobre álbum de estreia: "queria mesmo que fosse um processo de amor"
Entrevista à cantora, compositora e multi-instrumentista.
Inês Sousa editou "Mikado" - o álbum de estreia - em outubro. A cantora, compositora e multi-instrumentista abraça agora a aventura em nome próprio depois de ter integrado bandas de artistas como Julie & the Carjackers, Afonso Cabral, Mais Alto! ou Tipo.
"Mikado" - disco composto por 12 faixas - está disponível nas várias plataformas digitais e em formato CD numa edição da editora Louva-a-deus.
"Quando ouvimos a palavra 'mikado' pensamos imediatamente no famoso jogo de destreza que todos conhecemos. O que muitos não sabem é que é também um tipo de tecido, muito usado no fabrico de vestidos de noiva", conta o comunicado de imprensa que apresenta o álbum. "Assim nasceu este 'Mikado', criado e construído como o tal jogo de destreza, jogado a seis mãos com os cúmplices produtores e arranjadores João Correia e António Vasconcelos Dias, músicos extraordinários e artesãos responsáveis pelo tecido que vestiu este conjunto de canções", lê-se ainda na nota.
O concerto de lançamento de "Mikado" está marcado para o dia 20 de novembro, no espaço Bota Anjos, em Lisboa. O início do concerto está marcado para as 21h00.
Inês Sousa é uma das compositoras convidadas pela RTP para participar no Festival da Canção 2026 com uma canção que será revelada em janeiro.
Oiça a entrevista completa:
Como é que te sentes com a edição do teu álbum de estreia...
Sinto-me muito contente e aliviada. O disco demorou algum tempo porque foi feito sem pressas, com muita calma. Sinto um alívio muito grande ao vê-lo cá fora. Estou muito feliz mas posso dizer que a maior sensação é mesmo a de alívio.
Sinto isso mesmo. Sinto que neste álbum houve tempo, dedicação e amor. Imagino que tenhas o coração cheio...
Sim, sim. Está a demorar "a cair a ficha", porque ando constantemente a correr de um lado para o outro. Ando sempre cheia de trabalho. Mas sabe muito bem ver que as pessoas estão a ouvir as canções que compus em casa, de pijama. (risos) É uma sensação incrível saber que há pessoas que não conheço de lado nenhum a ouvir e a gostar do disco.
Como é que foste criando esta coleção de 12 canções?
Há quatro músicas que foram compostas pelos meus produtores, o João Correia e o António Vasconcelos Dias. Perguntei a ambos se podia escrever as letras para essas duas e acabei por incluí-las no álbum. São as mais antigas. Uma, inclusivamente, é de 2010. As restantes, que fiz de propósito para o disco, foram compostas durante a fase horrível da pandemia. Comecei a compor antes da pandemia mas fui fechando as composições durante a pandemia.
Foi uma fase de resguardo forçado. Passámos, coletivamente, por diferentes texturas emocionais. Isso refletiu-se na tua composição?
Acho que sim. Passámos por um trauma coletivo. E eu na altura tinha um bebé de seis meses. Acho que senti uma sensação de reclusão ainda maior. Mesmo em casa não tinha propriamente liberdade para fazer o que me apetecia uma vez que tinha um bebé de colo que precisava do meu cuidado. Fiquei muito feliz [com a maternidade], mas, ao mesmo tempo, foi um pouco sufocante. Acho que, mesmo sem intenção, acabei por escrever sobre isso no tema 'Dia Não', que é uma das canções com música do António Vasconcelos Dias.
São 12 canções e sei que o número 12 é importante para ti. Porquê?
Sim, é.
Fizeste questão que o disco fosse composto por 12 canções?
Não fiz propriamente questão que fossem 12 canções mas acabei por forçar um bocadinho. Tenho uma simpatia muito grande pelo número 12, embora não tenha nenhuma explicação para isso. Não tem a ver com mística nem nada. Adoro a palavra "doze". Tenho uma ligação com esse número. O que aconteceu foi que havia duas canções que tinham introduções muito longas. E então pensei que podia separar as introduções dos temas e criar dois interlúdios, cada um com uma faixa própria. E [com estas alterações] consegui que o disco ficasse com 12 temas. (risos)
A primeira faixa, que se chama "Mikado" tal como o álbum, é apenas uma harmonia de vozes. Porquê este título?
A palavra "mikado" fazia parte da letra da canção 'Carne Viva', que é a última faixa do disco. Compus a letra dessa canção a meias com o João Correia. É, aliás, a única letra que não é cem por cento da minha autoria. A parte da letra do João incluía a palavra "mikado", mas não tinha a ver com o jogo. Referia-se ao "tecido mikado" que é um tecido bastante usado em vestidos de noiva. Por acaso, cortei essa parte porque achei que não encaixava com o resto da letra. Mas, como só conhecia o significado relacionado com o jogo, achei incrível. Acho que a ideia do jogo por si só é super poética. Falo da minúcia que temos de ter para tirar os pauzinhos sem fazer cair os outros. Do ponto de vista poético, é uma imagem forte. E depois há o significado de ser um tecido usado em vestidos de noiva. Como tenho várias letras com alusões à imagem de tecer ou a fios que unem laços achei que podia ser um bom título. Esta é a explicação mais bonita. Mas posso dizer que também usámos a palavra "mikado" para dar nome ao nosso grupo de WhatsApp. Foi o "nome de guerra" que usámos desde o início do álbum.
É interessante mencionares a última canção porque quero saber se o fim desse tema se cruza com o início da primeira faixa. Parece que as duas faixas estão ligadas. É propositado?
Foi propositado, sim. Foi para embrulhar o conjunto de canções. Como se as embrulhasse em tecido mikado. (risos) Quis começar como acaba. Não sei. Quis dar-lhe algum sentido. Quis dar uma espécie de conclusão ao álbum.
Escolheste a canção 'Tornado' como single de apresentação. Porquê este tema? Imagino que escolher um single de apresentação para o álbum de estreia não seja assim tão fácil…
Não foi uma decisão super fácil. Honestamente, para mim, era um pouco indiferente porque gosto de todas as canções. Mas a reação das pessoas ao single é sempre algo imprevisível. Havia algumas questões no ar. Não sabíamos se devíamos escolher uma canção mais direta, mais orelhuda ou se devíamos optar por um tema um pouco diferente mas mais "difícil de entrar". Optámos pelo 'Tornado' por ser um tema mais fácil, mais alegre.
Li algures que escreveste a canção 'Tornado' de rajada. Como é que costuma ser o teu processo de composição?
Comecei a compor há relativamente pouco tempo, isto se comparar com os meus colegas que compõem há muitos anos. Mas tenho um punhado de canções e posso dizer que todas elas surgiram de maneiras diferentes. As que surgiram de rajada são as minhas preferidas. Acho que são as que funcionam melhor, mas também são as mais raras. Neste disco há duas, a 'Tornado' [o primeiro single] e a 'Guerra Fria', que é o single mais recente. Mas por norma componho primeiro a música e depois fico a matutar na letra. Começo a fazer uma espécie de jogo de palavras por cima da melodia que criei. Depois vou fazendo cedências. Escolho certas frases, deito fora palavras que não encaixam tão bem. Altero a melodia para encaixar as palavras ou vice-versa. Se a melodia for muito importante para mim, adapto as palavras. Não é propriamente um trabalho de rajada, vou fazendo aos poucos. Também vou afinando arestas às que saem de rajada. O mais raro é quando a letra e a música saem ao mesmo tempo.
Usas instrumentos muito interessantes para vestir as canções. Como é que vais tecendo a canção até ao resultado final?
Não há nenhum instrumento que eu domine muito bem, mas o piano é o instrumento com o qual me sinto mais à vontade. E por isso costumo compor ao piano. Por vezes, componho só de cabeça. Imagino uma melodia e só mais tarde é que me sento ao piano para ver a harmonia. Mas por norma crio a música ao piano. Depois gravo com o telefone e mando para os produtores. Sem eles este disco não seria o que é. Estou mesmo grata por terem feito este álbum comigo. Acho que até lhes mandava a música e a letra em simultâneo. A partir desse momento, começava o trabalho à distância. Íamos vendo até onde é que podíamos levar cada canção. Eles sugeriam arranjos e eu mandava referências de ideias que tinha na cabeça. Tendo em conta as minhas parcas skills pianísticas não conseguia executar ao piano o tipo de ambiente que imaginava para a música. Por outro lado, também fazia questão de enviar as maquetas o mais simples possível para que eles tivessem espaço e liberdade para criar. Às vezes, dava algumas indicações. Dizia-lhes, por exemplo, "na minha cabeça imagino que pode ser um pouco ao estilo da Fiona Apple". Estou a inventar. É só para dar um exemplo, embora seja grande fã da Fiona Apple.
Também sou.
Ai que bom, adoro. Foi um pouco por aí. Dei-lhes liberdade total. Eles conhecem muito bem o meu gosto. Conhecemo-nos há muito tempo. Somos amicíssimos. Somos quase família. Eles sabem aquilo que gosto e o que me fica bem em matéria de arranjos e de ambientes musicais. Foi tudo feito com muito cuidado. Disse-lhes que não tinha pressa. Não queria que trabalhassem por obrigação. Queria mesmo que fosse um processo de amor. Tinha zero pressa. Não tinha prazos. Queria que viesse de um sítio de gosto. Acho que foi. Não podia estar mais feliz com o envolvimento deles. Costumo dizer que foi um álbum feito a seis mãos. (…)
E ainda há um segundo single, o 'Ainda'…
Estávamos indecisos entre o 'Tornado' e o 'Ainda' para primeiro single. Acabámos por decidir que seria o 'Tornado' mas achámos que o 'Ainda' deveria ser o segundo. Achámos que era um tema representativo do resto do disco. Talvez até mais que o 'Tornado' que acaba por ser uma canção mais solar. O 'Ainda', tal como o resto do álbum, tem uma carga mais lunar. Também achámos que era uma canção radio friendly, não sei se esta expressão existe. (risos) Mas por mim podia ser qualquer uma das canções. Gosto de todas. Pelo meio ainda lançámos mais duas canções, mas só para as redes e para plataformas. Durante o verão escolhemos outros dois temas para lançar, canções que não seguiram para as rádios. Não foram singles oficiais. Lançámos esses temas porque estava cheia de vontade de revelar mais faixas do disco.
No videoclipe do single 'Guerra Fria', que foi realizado pelo Ricardo Reis, estás vestida de noiva...
Exatamente.
Casaste as ideias...
Certo, certíssimo. Exatamente. Por isso é que achei que fazia sentido embrulhar tudo em tecido mikado.
E dizes que esta canção é uma espécie de fight song (canção de luta), o que é que isso significa?
Sim, porque fala em discussão. Essa canção tem um pouco a ver comigo. Aliás, todas as canções têm a ver comigo, como é evidente. Eu não sei discutir. Não tenho rapidez de pensamento para isso. Não consigo ser agressiva, não tenho jeito. E essa canção fala de quando uma pessoa como eu está com uma pessoa que é precisamente o contrário, que gosta muito de discutir, que é bélica e conflituosa. Perante essa dinâmica, vai chegar a altura em que terei de arregaçar as mangas. Terei de me esforçar para dar resposta, não é?
Os restantes vídeos vão seguir a mesma narrativa?
Tenho planos de fazer vídeos no futuro. Não sei. Ainda não pensei muito nisso. Mas adoro o vídeo. O Ricardo Reis é um realizador incrível. E o videoclipe foi feito de uma forma muito rápida. A vida aconteceu e acabámos por começar as filmagens a uma semana da data de lançamento. Eu estava em pânico, mas o Ricardo estava super calmo. Estava sempre a dizer-me que ia correr tudo bem. E ficou exatamente como eu tinha imaginado. Aliás, ficou melhor do que aquilo que tinha imaginado. Fiquei mesmo muito contente com o resultado. Quero ter a mesma equipa nos vídeos que vierem a seguir. Isso é uma certeza. Mas não sei se vestirei novamente o vestido de noiva. Vou deixar o mistério no ar. Até porque também é um mistério para mim.
Que feedback é que tens tido desde a edição do álbum?
Estou muito contente, embora não tenha um ponto de comparação. Estou na música há muitos anos mas tem sido sempre nos discos dos outros. Envolvi-me imenso nos álbuns em que participei e adorei fazê-lo mas não tinha a atenção que tenho agora. Não consigo comparar. Acho que está a correr muito bem. Tenho essa sensação. Tenho passado bastante na rádio, tenho recebido muitas mensagens. As pessoas dizem-me que gostaram. (...)
E como é que vais apresentar o álbum ao vivo? O que é que estás a planear?
Já começámos a ensaiar. Começámos a preparar tudo na semana passada. Estivemos, super focados, a montar o concerto durante três dias. Vamos ser quatro em palco. Eu, o João Correia, o António Vasconcelos Dias e o Pedro Pinto que, além de ter gravado os dois contrabaixos no álbum, vai tocar baixo elétrico. O Joca, que é o João Correia, vai tocar bateria. Eu e o António, que é o Tony, vamos dividir os outros instrumentos. Ele vai estar mais com as guitarras e eu vou estar nos teclados e nas percussões. E depois vamos ter convidados. Estou muito contente com os ensaios. Acho que o concerto não vai ficar aquém do disco. E eu tinha esse receio. Não queria que o concerto desprestigiasse o trabalho todo que tivemos com os arranjos. Não queria que o concerto fosse uma versão mixuruca do álbum. (…)
Cenicamente falando, imagino que queiras algo simples, para que o foco esteja na música...
Sim. O foco vai estar, sem dúvida, na música. Ainda não pensei se cenicamente vamos fazer alguma coisa especial. Também vou deixar o mistério no ar em relação a esta parte. O primeiro concerto de apresentação vai ser no Bota Anjos, que é um espaço do qual gosto muito. É um espaço muito acolhedor, não é muito grande. Acho que as canções vão respirar muito bem ali. O palco é pequenino. Vamos estar muito aconchegadinhos no meio dos instrumentos. Tenho a certeza que vai ser uma noite muito boa, pelo menos para mim. (…)