Inspirou filme e deu origem a casamento "à Hollywood": maior avião do mundo caiu em Lisboa há 83 anos

Avião era o mais luxuoso do mundo na altura e fazia "a única ligação aérea entre a América do Norte e a Europa" durante a Segunda Guerra Mundial.

Foi há 83 anos, a 22 de fevereiro de 1943, que o maior e mais luxuoso avião do mundo se despenhou no Rio Tejo, em Lisboa, no então aeroporto marítimo de Cabo Ruivo. A história, que aconteceu em plena Segunda Guerra Mundial, é contada no livro “Na Rota do Yankee Clipper”, publicado no mês passado pela editora Lua de Papel.

“Este hidroavião vem de Nova Iorque, faz escala na Horta (Açores), onde sofre um pequeno atraso por questões de abastecimento de combustível. Isso fez com que chegasse a Lisboa ao fim da tarde, ao lusco-fusco. A água calma exerce um efeito de espelho, o piloto não sabe exatamente se está dez metros acima da água ou se a cinco. O avião vinha para poisar, estava demasiado perto da água, a asa tocou na água, o avião deu uma cambalhota sobre si mesmo e desfez-se depois no Rio Tejo”, afirma José Correia Guedes, antigo comandante da TAP e autor do livro.

Conversa completa com José Correia Guedes

A bordo iam cerca de 40 passageiros e apenas metade sobreviveu, entre eles os pilotos. Um deles acaba por casar com uma sobrevivente, a cantora e atriz Jane Froman: “Era uma figura de muito relevo. Ela ia para Inglaterra para as tropas americanas. É projetada. O copiloto vê Jane Froman a flutuar no Tejo. Manda-se à água, num gesto romântico, e salva-a, trazendo-a para uma parte do avião que ficou a flutuar”.

Jane Froman, que tem três estrelas no Passeio da Fama de Hollywood, “continuou a viver com seríssimos na perna, a carreira artística acabou por ser comprometida por causa disso”. A história chega depois ao grande ecrã com o filme “With a Song in My Heart” que estreia em 1952.

Na altura, o “Yankee Clipper” era “superluxuoso” e os bilhetes eram de tal forma caros que só “as elites é viajavam”. O avião cumpria uma rota que era “a única ligação aérea entre a América do Norte e a Europa” durante a Segunda Guerra Mundial.

O acidente é noticiado em Portugal, mas o acontecimento tem pouco eco: “A notícia tem dois ou três parágrafos e os 30 parágrafos seguintes são a falar de entidades que visitaram ou se vieram a informar sobre o assunto. É pura propaganda política. Por um lado, tínhamos o Estado Novo a controlar a informação, por outro, estávamos na Segunda Guerra Mundial e havia um controlo absoluto sobre a informação, não era do interesse nacional que esta notícia corresse mundo”.

Grande parte da história contada no livro é factual, mas há uma parte ficcionada: José Correia Guedes criou uma personagem para contar a viagem. “Ernesto Sardinha, a mando de Humberto Delgado, vai fazer esta viagem para aprender como se atravessa o Oceano Atlântico para ajudar na criação de uma companhia de aviação portuguesa – que será a TAP – destinada a servir a diáspora. Ele vai contar tudo o que se passa no avião, quer no cockpit, quer na cabine dos passageiros. Conta o acidente e é assim que o livro termina”, revela o autor do livro.