Investigadores criam IA para prever evolução do glaucoma

Investigadores desenvolveram uma tecnologia de Inteligência Artificial capaz de prever, a dois e cinco anos, a evolução do glaucoma.

Uma equipa de investigadores criou uma tecnologia baseada em Inteligência Artificial (IA) para detetar precocemente os doentes com glaucoma que correm maior risco de perda de visão no futuro, revelou hoje a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.

“Esta investigação conseguiu usar a IA para prever o ritmo de progressão futura e a agressividade do glaucoma com uma fotografia do nervo ótico numa única consulta”, explica o professor da FMUP João Barbosa Breda, único português que integra a equipa internacional de investigadores.

IA foi treinada com mais de 161 mil imagens

Para desenvolver esta tecnologia capaz de predizer o risco de progressão futura da doença a dois e cinco anos, os investigadores treinaram o modelo de IA com 161.827 imagens do nervo ótico de 13.913 doentes.

Os dados foram obtidos retrospetivamente num centro académico de Leuven, na Bélgica.

O modelo foi validado externamente em cinco grupos de doentes de outros centros mundiais, incluindo doentes da Finlândia e da China.

Tecnologia pode antecipar tratamentos mais intensos

Citado no resumo do estudo enviado à agência Lusa, o docente da FMUP refere que este modelo permite “adotar mais cedo um plano terapêutico mais intenso para determinados doentes”, bem como “usar mais recursos e consultas nos casos em que se antecipa que o ritmo de progressão será mais acentuado”.

E, lembrando que “quando um doente é diagnosticado com glaucoma o primeiro passo é decidir o seu plano terapêutico”, o especialista acrescenta que, “neste momento, o médico, com uma única consulta, não consegue saber quão rápido ou agressivo aquele glaucoma será”.

Mas com este novo modelo, atualmente em avaliação, espera-se que seja possível detetar “os casos mais agressivos atempadamente, otimizar recursos e adotar tratamentos mais assertivos desde uma fase precoce”, acrescenta.

O estudo foi publicado em agosto na revista científica The Lancet Digital Health.

Cerca de metade dos casos de glaucoma não são diagnosticados

O glaucoma é uma doença silenciosa e progressiva do nervo ótico (estrutura que liga o olho ao cérebro e transporta as imagens que vemos).

O principal fator de risco é o aumento da pressão intraocular, que, se não for tratado, destrói as células responsáveis pela visão, levando à cegueira irreversível.

“Infelizmente, na grande maioria dos casos não dá qualquer sintoma. Essa é a razão pela qual cerca de 50% das pessoas com glaucoma ainda não estão diagnosticadas”, alerta João Barbosa Breda, que assina este estudo com investigadores da Bélgica, de Singapura, da Áustria, da Finlândia, da Alemanha, da França e da China.

De acordo com a Sociedade Portuguesa de Oftalmologia, estima-se que o glaucoma afete cerca de 250 mil pessoas em Portugal.

Apesar de não ter cura, a doença pode ser controlada se for diagnosticada atempadamente em consulta de oftalmologia, permitindo travar a sua progressão e preservar a visão, descreve a sociedade no seu ‘site’ oficial.