IOLANDA mostra 'Olha P'ra Ela', single do álbum de estreia: "é a canção perfeita para abrir o sabor do disco"
Entrevista à cantora e compositora que se estreia no Coliseu dos Recreios a 7 de dezembro.
A cantora IOLANDA lançou esta quinta-feira (15 de janeiro) a canção 'Olha P’ra Ela' - o primeiro single do álbum de estreia que vai chegar com o nome "Quebranto". Será também o disco que marca uma nova fase da carreira da cantora e compositora após a edição de dois EPs, "Cura" (em 2023) e "Olha P'ra Baixo" (em 2024).
O videoclipe de 'Olha P'ra Ela' conta com a realização de Maria Beatriz Castelo e com a produção da VAMMU Creative.
Com apenas três anos e meio de percurso, IOLANDA anunciou recentemente o concerto de estreia no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. O espetáculo está marcado para o dia 7 de dezembro.
Oiça a entrevista completa à cantora e compositora:
Bem-vinda, novamente, agora para falarmos do teu álbum de estreia. Estive a espreitar as tuas redes sociais e numa das publicações que fizeste no Instagram escreveste o seguinte: "o meu nome é Iolanda. Gosto muito de fazer isto" e depois meteste um emoji com uma faca. Quero muito saber o que é que isso significa...
Passo muito tempo a pensar no conceito das coisas. Penso tanto no conceito como nas canções. Gosto muito de criar e tenho uma equipa que gosta de imaginar comigo. É uma equipa que tem muita paciência para aturar as minhas ideias. A faca tem a ver com o conceito de "quebranto" que estamos a explorar. Falo de quebranto no sentido de mal-estar, de mau-olhado. Esta coisa que tenho vindo a descobrir, algo que é bastante português. Quando morava para os lados de Pombal, na zona centro, ouvia muito estas histórias. Cheguei, inclusivamente, a tirar o quebranto e a virar o bucho, como se costuma dizer na minha zona. Acredito que também se diga noutras zonas do país. No Brasil, por exemplo, também exploram muito o conceito de "quebranto", das más energias e por aí. Comecei a achar piada a este tema. Sempre soube que estas coisas existiam mas nunca as tinha explorado. Então, pensei, "deixa-me ver até onde é que isto vai". Comecei a escrever canções sobre o assunto e percebi que havia uma panóplia de ideias que podia explorar. (…) A faca é um dos elementos que se utiliza para tirar o quebranto, para cortar o mau-olhado. Há um ritual em que se utiliza um prato, água e gotas de azeite. Se as gotas se separarem, é sinal de quebranto. Depois temos de cortá-lo. Há, inclusivamente, uma reza que tenho estado a aprender. Mas não sou pró no assunto, atenção. Ainda não abri uma clínica de quebrar quebranto. (risos)
O excerto que publicaste no Instagram a falar precisamente de "quebranto" arrepiou-me um pouco. Achei um teaser impactante…
Na verdade, é um início. Ainda não sei em que momento vou colocar [esse excerto] no disco. Queria apresentar o conceito às pessoas. Comecei a pensar em várias formas de dizer às pessoas que o meu disco vai chamar-se "Quebranto". Comecei a pensar na imagética que podia usar para fazer isso. Queria mostrar como se cria a poesia que está por detrás das canções e da música. Tinha um texto planeado mas sempre que o lia parecia-me muito presunçoso. Não estava muito feliz com aquilo. Foi então que pensei em escrever uma quatro linhas ou oito versos. Comecei a escrever e saiu daquela forma. Depois enviei para o meu produtor e ele gravou a guitarra para lhe dar alguma harmonia.
Está impactante, mesmo.
Fico feliz porque achava que era mega básico. Mas depois apercebi-me que as pessoas gostaram. Por vezes, é isso que também nos conecta com o público.
Mas és uma pessoa esotérica?
Não sou nada religiosa. Nunca fui. Mas sou supersticiosa o quanto baste. Não sou esotérica, mas sou espiritual. Essa é a palavra. Acredito, sem dúvida, num poder maior. Não pratico nenhuma religião mas acredito num poder superior. Acho que não estamos aqui por acaso, ligados a uma ficha. (risos) Acho que esse poder superior pode ser muita coisa. Pode ser o amor que sentimos uns pelos outros, pode ser a energia. (…) Acho piada a fenómenos esotéricos, digamos assim.
Voltando ao disco e às tuas publicações, também escreveste: "estou a preparar o disco que sempre quis escrever." Pois então, quero saber qual é o disco que sempre quiseste escrever…
Acho que neste álbum explorámos muita coisa que ainda não tinha explorado. Estamos a tocar em pontos específicos de coisas que tenho feito desde sempre mas que, na verdade, nem sabia que gostava. Estamos a explorar os cordofones, há guitarras, vamos ter muitas [violas] braguesas. Vamos também ter o cavaquinho, que, na verdade, é o instrumento que toco desde sempre. Sempre quis incluir o cavaquinho em canções. Aliás, durante muitos anos toquei num grupo de cavaquinhos. É daí que venho. Mas ainda não tínhamos tido a oportunidade nem as canções perfeitas para incluir estes instrumentos. Este disco é a coisa mais completa que fiz até agora. Até porque é o primeiro álbum. Antes só lancei EPs. Tenho trabalhado com pessoas de quem gosto. Tem sido uma autêntica partilha de ideias. O conceito tem crescido não só devido às maluquices de que me lembro às duas da manhã, mas também por causa de lembranças de outros colegas. O "quebranto" também tem algo de comunitário. A ajuda para cortar o quebranto vai passando de boca em boca, de uma vizinha para a outra, por exemplo. Acho que esse sentimento de comunidade acaba por existir no próprio disco. Está tudo interligado. Acho que vai ser bonito. Não sei.
Talvez com muitas texturas ligadas a ti que queres expressar no primeiro disco…
Acho que sim. Acho que tem muitas texturas. E tem imagens. Quase como se cada música fosse uma imagem perfeita de uma parte de mim. Sinto que os EPs foram mais exteriores a mim, embora no primeiro EP tenha explorado muito o amor e o que sentia pela pessoa X. Mas este disco é, sem dúvida, mais maduro. Há uma abordagem diferente, a começar pela forma como estamos a gravar. Estamos com menos pressa. Dá para gravar, errar, perceber que afinal não está assim tão bom e voltar a fazer. Tem sido um exercício que vai do perfecionismo máximo ao deixar que o disco vá seguindo sem estar constantemente a querer fazer melhor.
E há pouco falaste das pessoas com quem trabalhaste. Voltaste a trabalhar com o Luar, creio eu?
Sim. O Luar está a fazer a direção de produção do álbum. É o produtor que tem estado a acompanhar quase todas as canções. Trabalhei também com o Tayob, que é um dos produtores que participaram no meu segundo EP. Depois juntei muitas outras pessoas. O Extrazen, por exemplo, também faz parte do disco. A nível das letras e melodias, foi entre mim, o xtinto e a Carolina Deslandes. Ambos têm sido um grande apoio na escrita. Formamos uma boa equipa. Eles conseguem perceber exatamente o que eu quero sem ter de explicar muitas vezes. Há muitas pessoas envolvidas e também tenho pedido a opinião a muita gente. Este ano, trabalhei muito em Ourém. Estive num writing camp com um núcleo muito forte de pessoas. Acabei por chamar algumas dessas pessoas para trabalharem comigo em vídeo e com a imagem. Criámos uma grande família. Juntámos uma comunidade muito simpática. O ambiente estava tão bom que acabámos por ficar por lá a fazer canções durante quase duas semanas. Aliás, a maior parte das canções do disco surgiram desse encontro.
Há um espírito comunitário criativo muito interessante entre na vossa geração de artistas…
Acho que sim.
Essa troca é absolutamente salutar. Sentes que essa partilha criativa leva-te a vários lugares musicais?
Sem dúvida. Acho que essa partilha e esse sentido de comunidade acaba por nos levar a criar outras coisas e a fazer com que os outros também criem outras coisas. É como o dinheiro que gera dinheiro. A troca de cultura gera troca de cultura. Essa partilha constante acaba por ser muito inspiradora. Sinto que essa foi uma das razões que me inspiraram ainda mais a fazer este disco. As cores do sítio onde estávamos definiram muito as cores do próprio álbum. E quando falo em cores estou a falar do que sinto não das cores propriamente ditas. Mas a imagética [do álbum] foi muito definida pelo lugar onde estávamos. Estávamos numa casa muito bonita, que é de um amigo nosso, o Pedro do Vale, que também é músico e artista. Havia uma montanha gigante à nossa frente e todos os dias víamos um pôr-do-sol interminável. São coisas que servem de inspiração quando estamos a fazer música.
É a energia criativa a fluir…
Exato. A energia criativa gera energia criativa. É um pouco isso.
Esta quinta-feira, conhecemos o single de avanço do álbum. Qual é a história desta canção?
É o primeiro single do disco. Estive muito indecisa sobre a inclusão ou não do single anterior [‘Quando Te Fores Embora’] no disco. Acho que já não vou pôr mas se calhar amanhã mudo de ideias. (risos) Talvez seja melhor deixar de dizer isto para não baralhar as pessoas. (risos) Acho que este single [‘Olha P’ra Ela’] é a canção perfeita para abrir o sabor do próprio disco. Toca em muitas vertentes da instrumentação do álbum, nas histórias e até na forma como o canto. Esta canção é o início da história. Eu ou a personagem caminhamos à procura de algo mas não conseguimos perceber bem o quê. Acho que quando virem o videoclipe vão perceber a ideia.
Não se consegue perceber muito bem o que a personagem está à procura mas vemos que essa mesma personagem está sempre a olhar para trás com a sensação de que está a ser seguida. Até que há um momento em que percebemos que encontra quem estava a segui-la. Tive como referência, por exemplo, a história da Carochinha ou do Lobo Mau. Só que na história real a Carochinha encontra uma moeda, compra um vestido e vai para a janela com o objetivo de casar. Na minha história isso não acontece. A personagem não quer casar nem se põe à janela. Em vez disso, poupa o dinheiro porque sabe que o trabalho custa. Sabe que o dinheiro custa a poupar. É a história ao contrário. O Lobo Mau é a personagem que está sempre à procura dela. Na verdade, ela sabe perfeitamente quem está a procurá-la. É uma espécie de “guerreira” que está a tentar encontrar-se a si própria. Foge do mal, do mau-olhado e do julgamento externo, seja de quem for. Das pessoas, dos seus pares, da sua vida no geral. É uma senhora fugidia.
Falaste numa personagem, daí querer saber se é um disco com várias personagens ou se há uma narrativa que atravessa as canções...
A personagem sou sempre eu. Sou eu, mas numa espécie de universo paralelo, digamos assim. Um qualquer universo que as pessoas queiram criar. E essa personagem está sempre a tentar soltar o tal quebranto. O que acontece é que no final percebe que se não prestar tanta atenção a isso, o quebranto acaba por desvanecer. Se nos desligarmos de coisas como a inveja externa, os olhares externos ou de um certo tipo de pressões, essas coisas acabam por nem existir. É como o ditado diz, "coração que não vê, é coração que…"
"Não sente…"
Exato, não sente. Portanto, é o provérbio perfeito para definir este disco. É sobre a constante libertação dos olhares.
Agora quero saber como é que te sentes com a estreia no Coliseu dos Recreios, em Lisboa…
O Coliseu surgiu porque a minha equipa decidiu cometer uma loucura quando propôs essa data. E eu, como sou igualmente louca - talvez um pouco mais - aceitei e seguimos em frente. Também se dissesse que não…
Mas porquê louca? Arrasaste no festival Alive, por exemplo…
Arrasei no Alive, mas o Coliseu é o Coliseu. Assim que percebi que íamos fazer o concerto no Coliseu, pensei: "pronto, vocês estão malucos da cabeça e está tudo bem". Mas agora fora de brincadeiras. Estou super feliz. Quando tocámos no Capitólio foi a mesma coisa. Sempre quis preparar este tipo de concertos, espetáculos em nome próprio. São concertos em que podemos fazer muito mais coisas. O palco é nosso naquela noite. Temos mais tempo, mais espaço. Acho que vai ser uma data muito especial. Estou muito feliz, mas também estou muito nervosa. Não vou mentir.
Dizes que quando ias ao Coliseu imaginavas um concerto teu naquele palco…
Pois, exato.
E como é que imaginavas o concerto?
Não posso contar tudo. Quero que as pessoas sintam o efeito surpresa.
Mas já sabemos que é formato 360º…
Sim. Vamos fazer em formato 360º. Essa informação fui obrigada a revelar. (risos) Sempre quis fazer esse formato. Lembro-me de, no ano passado, estar a ver o concerto do Tiago Bettencourt, em que ele atuou no palco central, e pensar: “olha, eu gosto disto, isto é giro”.
E este tipo de formato faz todo o sentido para apresentar este disco. Quero que as pessoas entrem na viagem do álbum. Quero que estejam perto. Nem estou a falar da questão de ter ou não uma barreira entre o público e palco. Quero mesmo que as pessoas façam parte do espetáculo. Quero que estejam perto. Acho que vai ser bonito. Estou entusiasmada.
