Isabel Stilwell revela o lado mais humano e sombrio de D. João II

A escritora revisita a vida de um dos reis mais poderosos da História de Portugal e revela um homem marcado por conflitos familiares, amores difíceis e uma obsessão pelo controlo.

D. João II é muito mais do que o rei que a História consagrou como o "Príncipe Perfeito". É também uma criança marcada pela história da própria família, um homem dividido entre o poder e os afetos e um monarca determinado a transformar Portugal. É este retrato complexo, feito de contradições, ambição, desconfiança e paixão, que Isabel Stilwell apresenta no seu novo romance histórico, com 600 páginas, dedicado a uma das figuras mais marcantes da monarquia portuguesa.

A escolha do protagonista nasceu do fascínio da autora por personalidades complexas e da vontade de compreender o que está por detrás das suas decisões. Mas a investigação trouxe-lhe uma surpresa: o homem que conhecia através da História e, em particular, do olhar de D. Manuel I revelou-se muito diferente quando começou a acompanhá-lo desde a infância.

"D. João II é um produto da sua história familiar, das pessoas que o educaram e da forma como cresceu", explica Isabel Stilwell, sublinhando que a investigação alterou profundamente a sua perceção do monarca.

Entre as marcas que terão moldado a personalidade do futuro rei está um conflito familiar particularmente doloroso: o conhecimento de que o pai esteve envolvido na morte do avô materno. Uma herança que ajuda a compreender a complexidade de um homem que amava o pai, mas que cresceu com o peso dessa história.

A autora destaca ainda episódios e figuras menos conhecidos do grande público, como o papel do infante D. Pedro, conhecido como o Infante das Sete Partidas, e a influência das mulheres na formação e nas decisões do monarca.

Um casamento marcado pela desconfiança

A relação com D. Leonor de Viseu é um dos eixos deste retrato. Casados por razões que contrariavam a estratégia política defendida por alguns dos seus apoiantes, os dois protagonizaram uma relação marcada por tensões, interesses divergentes e desconfiança mútua.

"É um casamento conturbado de duas pessoas muito inteligentes e que sabem levar a água ao seu moinho, mas que estão, dormem de olhos abertos", descreve a escritora.

O conflito político e familiar agravou-se com a morte do irmão de D. Leonor, às mãos do rei, e do duque de Bragança, também ligado à família da rainha. A morte do único filho que tiveram em comum contribuiu ainda para aprofundar a distância entre ambos.

Ao dar protagonismo a estas relações, Isabel Stilwell procura mostrar como os afetos, as alianças e as rivalidades privadas se cruzavam com o exercício do poder numa época em que o destino das famílias reais era também o destino do reino.

O amor como fragilidade de um rei controlador

Se no campo político D. João II procurava concentrar o poder e controlar os acontecimentos, na esfera íntima surgem outras fragilidades. A relação com Ana de Mendonça permite à autora explorar uma dimensão menos conhecida do monarca e questionar a ideia de que essa ligação se resumiu a um episódio passageiro.

Segundo Isabel Stilwell, há sinais históricos de uma relação mais duradoura, desde a proteção concedida ao filho de ambos até à pensão vitalícia deixada a Ana de Mendonça. A escritora recorda ainda que foi o nome dela que o rei terá pronunciado nos últimos momentos de vida.

O filho foi confiado à proteção da irmã do monarca, Santa Joana Princesa, que o acolheu e educou como um príncipe.

Também a ligação entre D. João II e a irmã revela uma relação de cumplicidade profunda, construída entre a ternura familiar e os conflitos em torno da vocação religiosa de Joana. Apesar das divergências, os dois irmãos continuaram a procurar apoio um no outro.

Para a autora, é precisamente esta dimensão humana que torna as figuras históricas mais próximas dos leitores: "São pessoas como nós, que andam, que são complexas, contraditórias, que fazem coisas que disseram que não iam fazer, que se apaixonam por pessoas por quem não deviam."

Os Descobrimentos para lá da epopeia

O romance acompanha igualmente a transformação política e económica do reino. D. João II surge como herdeiro de uma visão que procurava reduzir a dependência da nobreza, reforçar a autoridade régia e valorizar o conhecimento e a competência, independentemente da origem social.

Isabel Stilwell destaca a importância da circulação de ideias e saberes de diferentes povos na preparação da expansão marítima portuguesa. Na sua leitura, o mérito do monarca passou também pela capacidade de reunir conhecimentos e apoiar pessoas capazes de os transformar em avanços concretos.

A escritora propõe, contudo, um olhar que não se limita à celebração da coragem dos navegadores e da descoberta de novas rotas comerciais. A expansão marítima é apresentada também à luz das condições económicas que levaram os portugueses a procurar alternativas fora de um território com recursos limitados.

Essa perspetiva inclui uma realidade frequentemente secundarizada nas narrativas épicas: o início da escravatura.

Entre as personagens do livro encontra-se Antónia, uma mulher escravizada, tratada com afeto pela infanta D. Filipa, que a autora recupera a partir de elementos históricos. A sua presença recorda que a abertura de novos horizontes comerciais e geográficos coincidiu com o início de um período de violência e desumanização.

O romance procura, assim, conciliar a dimensão científica e política da expansão portuguesa com o seu custo humano, sem ignorar as contradições do período.

A investigação que mudou o romance

Entre as descobertas que mais influenciaram a escrita está a figura de D. Filipa, cuja história Isabel Stilwell aprofundou a partir da investigação da historiadora Maria da Graça Vicente, nomeadamente através do seu testamento.

A descoberta de novas informações permitiu à escritora rever a interpretação de personagens e acontecimentos, mostrando como a investigação histórica pode alterar a forma de contar uma história já conhecida.

Mais do que reconstruir o percurso de um rei, Isabel Stilwell procura compreender as pessoas por detrás dos títulos, das decisões políticas e dos episódios que ficaram nos livros escolares.

E a investigação não terminou com D. João II. A autora já está a trabalhar no próximo projeto, confessando sentir uma espécie de «síndrome de abandono» quando tem de deixar para trás a família histórica com quem viveu durante meses ou anos para começar a conhecer outra.