Isaura: "o susto da doença fez com que ficasse mais aguerrida em relação ao que quero"
Entrevista à cantora e compositora que editou agora "Invisível", álbum que chega em português.
Em fevereiro de 2020, muito pouco tempo antes dos confinamentos pandémicos, Isaura contou aos seguidores nas redes sociais que estava a lutar contra um cancro na mama. "Estou pronta para dar cabo dele", escreveu na altura, como que a piscar o olho à esperança ou a fortalecer ainda mais a vontade de lutar - o que, aliás, tem feito até hoje já que continua a ser medicamente vigiada.
Mais de três anos depois, a artista portuguesa editou "Invisível" - álbum que, inevitavelmente, se alicerça na experiência terrífica (ao mesmo tempo reveladora) da doença. O álbum são os sons e as palavras de Isaura - um manifesto para dançar e elevar a leveza de viver.
"Invisível" - que é todo em português - chegou às plataformas digitais no passado dia 24 de março.
Dizes que "Invisível" é o teu disco mais pessoal. Porquê?
É o meu primeiro disco em português. Essa é uma das razões. Já tinha feito essa experiência no meu EP ["Agosto", 2019]. Aliás, foi precisamente com esse EP que comecei a tentar perceber qual seria a minha sonoridade sem a usar apenas a guitarra. Sempre usei a guitarra para escrever canções. Toco guitarra desde os 11 anos por isso é algo que me é muito característico. Quando fiz a experiência no EP percebi que o meu desafio era compor em português para música eletrónica. Fiz a experiência em cinco ou seis canções e, para ter a mínima responsabilidade possível, optei pela estratégia de convidar as pessoas com quem gosto de fazer música. (risos) Convidei a Luísa Sobral, o Ivandro e os Shout. Foi uma primeira abordagem que acabou por resultar numa grande mixórdia. Sinto que teve coisas giras, mas a identidade estava ainda muito em aberto.
Foi uma experiência...
Sim. Foi uma experiência fundamental para agora sentir-me melhor a fazê-lo. Continuo a achar que as canções e os singles são importantes mas também gosto que o álbum funcione como um livro. Gosto de histórias, da ordem das faixas, de como um álbum se desenrola. Este disco acaba por ser o mais pessoal porque, além de ser em português, sinto que tem a identidade à flor da pele. Acho que quem o ouve capta essa identidade. Por outro lado, quando canto em português sinto-me completamente despida. Não há camuflagem. Não se consegue esconder nada e a verdade é que também não tentei fazê-lo.
E o que é que quiseste mostrar?
O álbum fala sobre anos muito particulares. Nos últimos dois, três anos, passei por questões de saúde muito complicadas. Fui diagnosticada com um cancro na mama em 2020. Comecei a fazer quimioterapia um mês antes de termos entrado em quarentena devido à Covid-19. Sinto que nessa altura me conectei comigo de outra maneira. Fui confrontada com abordagens diferentes de mim própria, com coisas que não sabia. Questionava-me sobre se seria ou não capaz de ultrapassar a situação. Pensava na forma como iria reagir [ao longo do processo]. Acabei por descobrir coisas sobre mim que não sabia. Sinto que a relação comigo própria foi fortalecida. É também por isso que acho que este disco é mais genuíno. Agora tenho a coragem de dizer exatamente o que quero. Não uso analogias ou coisas do género. E do ponto de vista da sonoridade também não faço compromissos. Tanto gosto de baladinhas à guitarra como gosto de sons "mais fritos", com muita bateria. Arranjei uma maneira de encaixar esses dois mundos. Acho que a dicotomia é normal. É o que nós somos. Tanto estamos sentados no sofá a ver televisão com a família como vamos beber um copo e dançar até não nos apetecer mais. Às vezes, a vida é mais calma, outras vezes é o caos. Às vezes, estamos tristes, outras vezes estamos contentes. Quis que todos esses mundos coubessem no álbum. Creio que consegui fazer isso. E sinto que não deixei nada por dizer. Disse tudo. Disse até aquilo que me deixa mais desconfortável.
Parece ser um espaço de liberdade. A experiência que viveste deu-te mais liberdade?
Ainda estou a ser medicamente vigiada, portanto é algo que não deixei completamente para trás. Acho que sempre fui demasiado exigente comigo. É uma caraterística minha. E não digo isto como algo positivo. Acho que é uma caraterística negativa. Sempre coloquei muita pressão nas coisas e isso provocava-me muita ansiedade. O susto [do cancro], que ainda não consigo ver como algo que já passou, deu-me mais pelo na venta. Estou mais focada no que realmente quero fazer. Em fazer o que me deixa feliz. Eu não sei o que é que pode acontecer amanhã. Essa incerteza fez com que ficasse mais aguerrida com aquilo que quero. E trouxe-me mais calma. Andar a mil, com ansiedades e em stress acaba por ser irrelevante.
Acima de tudo, acho que tem a ver com a capacidade de redefinirmos o que significa para nós ter sucesso. A minha definição de sucesso de hoje pode ser completamente diferente daquela que tinha há cinco anos. E posso viver bem com isso. A sociedade diz-nos que temos de ter um bom trabalho, um bom salário, que temos de ser mães numa determinada idade, que os nossos filhos têm de ser melhores em tudo. Há uma realidade que está construída para nós e não por nós. É nesse sentido que sinto que estou a fazer uma reavaliação. Quero saber o que realmente quero para mim. Nem sempre é fácil fazer isso porque, a dada altura, podemos perceber que não somos exatamente quem achávamos que éramos. Acho que é um processo. No meu caso, o processo acabou por ser forçado.
O medo ganhou um significado diferente na tua vida?
Tive muito medo. E ainda aprendo a lidar com o medo todos os dias. Por um lado, acho que é bom termos medo. É como se a vida fosse um quarto escuro. Quando não vemos nada é o medo que nos diz: "quente" ou "frio". É como se o medo nos guiasse. Se estamos a sentir medo [de perder algo], é porque estamos perante algo de que gostamos. Significa que estamos no caminho certo, que estamos no caminho daquilo que nos faz feliz. Tento que o medo funcione como uma ampulheta para perceber o que realmente quero para mim. O medo dá-nos uma visão raio-x sobre a validade do que estamos a fazer. Diz-nos se é algo que realmente faz sentido ou se estamos apenas a perder o nosso tempo.
Neste disco, dedicas a canção 'Glória' à tua mãe, certo?
Sim. Glória é o nome da minha mãe. A minha mãe é uma pessoa absolutamente espetacular. É professora do primeiro ciclo. Tanto ela como a minha avó são pessoas cheias de força. Cresci com elas, com essa força. A relação que tenho com a minha mãe é muito engraçada. É uma relação de muito carinho mas também tem alguma cerimónia. Há muito tempo que queria ter uma canção que falasse da minha mãe e quando estava a trabalhar na segunda metade do disco lembrei-me que podia descrever coisas que a minha mãe costumava fazer. Quis que a canção fosse a materialização de todos esses gestos. A materialização de todos os bocadinhos que, no fundo, são a minha mãe. São também essas pequenas coisas que nos ligam. São coisas que me fazem olhar para as pessoas de quem eu gosto com vontade de recordar ainda mais coisas. De guardar mais bocadinhos, mais miminhos dessas pessoas. Talvez tenha o feito por ter sido confrontada com a minha finitude e com o medo que senti. Ou talvez por ter perdido a minha avó há alguns anos.
E é uma forma de lhes dizeres...
Sim, é. Esta canção sou eu a dizer isso à minha mãe, apesar de estarmos constantemente a dizer que gostamos muito uma da outra. Mesmo com todas as nossas cerimónias. (risos) É quase como se fosse um bilhetinho. É engraçado. Em Gouveia, de onde eu sou e onde a minha mãe vive e dá aulas, as pessoas dão-lhe os parabéns como se tivesse sido ela a escrever a canção. E ela agradece, toda contente e orgulhosa.
O álbum chama-se "Invisível". O que é que é invisível neste disco?
Acho que a razão para esse nome vai ao encontro do que temos estado a conversar. São os medos, o amor, a segurança, a incerteza. Acho que as coisas mais importantes - tanto as que nos fazem avançar como as que nos congelam - são invisíveis. Quis criar essa analogia. As canções do disco focam-se mais em coisas que não se veem do que nas que são palpáveis.
E ainda tens muitas canções dessa fase que não estejam no disco?
Acho que não. Escrevi muito nessa altura, mas eram coisas soltas. Quando estamos a fazer tratamento, o nosso cérebro não funciona a 100%. É o chamado "cérebro quimio". O cérebro fica mais lento a fazer determinadas lógicas e a memória também é afetada. É como se fosse uma névoa. O ato de escrever ajudava-me a ligar os pensamentos e a ter alguma claridade perante tudo o que me estava a acontecer. Perante o que estava a sentir. O que aconteceu foi que, cerca de um ano mais tarde, peguei nesses cadernos e li o que lá estava. Foi quando percebi que já não era a mesma Isaura. A Isaura antiga estava meio adormecida e agora não me revejo muito nela. Sinto, porém, que escrever funcionou como uma ferramenta importante para ultrapassar aqueles primeiros meses da pandemia. Até porque nós estávamos todos fechados em casa. Não podia estar com a minha família, via pouco os meus amigos. Acabei por ficar com os meus pensamentos.
Espero não ter de voltar a ler o que escrevi nesse período. Não tenho vontade nenhuma de o fazer. E, atenção, não são textos muito duros. Até são bastante leves. No fundo, o que estava a fazer era um five minute journal (diário de cinco minutos). Ou seja, tinha um minuto para escrever o que me fazia sentir grata e sabia que naquela fase não podia sentir-me grata com a vida, por exemplo. Tinha de escrever coisas muito específicas, do género: "estou grata porque hoje estou a beber este café e está a saber mesmo bem". Escrevia sobre o dia que vinha a seguir e sobre o que poderia fazer para que esse dia me corresse melhor. Tenho montes de cadernos assim. Dava-me uma sensação de leveza. Nunca fui tão otimista como naqueles meses. Quem lesse aquilo ia achar que eu estava em altas, a amar a vida. Acho que esses cadernos funcionaram como uma âncora.
É um bom instinto de sobrevivência...
Sim. Tenho sempre de escrever nos momentos mais difíceis. Posso estar um ano, dois anos sem escrever mas quando fico sem chão tenho de voltar a fazê-lo. Quando estou feliz fico só ocupada a estar feliz. (risos)
Em relação às sonoridades do álbum, como foi encaixá-las com todas essas emoções? Como é que foi o processo de criar o ambiente sonoro para as canções?
Foi tudo muito orgânico. E foi muito fácil porque encontrei a pessoa certa para fazer isso comigo. Falo do Filipe Survival que é um produtor absolutamente extraordinário e supertalentoso. Identifico-me muito com ele. Também gosta de várias coisas, tem vários registos. Sempre achei que era possível ir a vários sítios do ponto de vista sonoro, sem com isso perder a identidade. Mas acho que antes deste disco compartimentava-me demasiado. Quando me sentei com o Filipe disse-lhe que queria fazer algo em português que ainda não estivesse a ser feito. Queria que encontrássemos o nosso espaço e que adorássemos o resultado. Queria que fizéssemos algo que nos desse imensa pica e acho que conseguimos. Fomos a vários registos na parte eletrónica mas também fomos ao punk, à pop e à balada, aos synths. Foi fácil navegar de assunto em assunto. As atmosferas iam sendo criadas à medida que ia definindo o que queria dizer. E dava muito contexto ao Filipe. Tivemos muitas conversas. Ele sabia tudo aquilo que queria dizer. Íamos moldando o som para que as melodias e a produção se traduzissem exatamente naquilo que queria que se sentisse com a música.
E iam se sentido mutuamente, afinando cumplicidades, presumo...
Sim. Começámos como duas pessoas que se respeitavam e hoje em dia somos muito amigos. Partilhámos tudo o que havia para partilhar. Estar em estúdio passa muito por aí - mesmo com dúvidas e dias maus. Em estúdio conseguimos criar relações para a vida. E, às vezes, também há momentos de tensão. Parece que estamos sempre nos extremos quando as coisas realmente nos interessam. Ou são coisas que nos fazem chorar ou são coisas que nos fazem rir à gargalhada. Nunca são coisas medianas. Tivemos muitas conversas sobre a forma de ver o mundo, por exemplo. Sobre o que achamos que é importante, sobre política. Coisas desse género.
Para encontrar o chão comum, talvez. Como é que olhas para a turbulência atual do mundo?
É um pouco assustador. Sinto que estamos a regredir em coisas que já tinham sido pequenas conquistas em direção à igualdade entre as pessoas e ao respeito. É um pouco assustador perceber que coisas que achava que já tinham sido conquistadas de repente desaparecem, como acontece em países aqui ao lado. A questão da guerra entre a Ucrânia e a Rússia também mexeu comigo. Infelizmente, estamos habituados a ter guerras no mundo, mas nós, de alguma forma, conseguimos criar uma capa ou temos alguma capacidade de abstração quando acontece noutros continentes ou numa Europa que é menos ocidental. Em muitos aspetos, a Ucrânia é um país muito parecido com o nosso e de repente, quando vemos o que está a acontecer, começamos a esmiuçar tudo, para tentar perceber o que levou ao conflito, como é que as relações e influências no mundo levaram a esta situação. E é assustador perceber que o denominador comum não são as pessoas, mas sim o dinheiro.
Achas que sofremos de empatia seletiva?
Acho que sim. Infelizmente, sofremos de empatia seletiva. Acaba por ser uma defesa. É como os médicos ou os enfermeiros. O primeiro ano de trabalho é muito difícil, mas depois, para conseguirem sobreviver, têm de criar uma capa. Eu própria só vejo notícias quando estou preparada para ver notícias. Há cerca de três, quatro meses deixei de seguir praticamente todos os meios noticiosos. Por norma, uso as redes sociais para acompanhar o que se vai fazendo na música, para me inspirar, para ver o que é que os meus amigos andam a fazer. Basicamente para ver coisas que me relaxem. E era muito estranho pegar no telefone durante dez minutos e, sem estar nessa disposição, levar com uma fotografia de crianças cheias de sangue. Se treinasse para que aquilo não me afetasse, acabaria por cair na dormência. Não quero ser esse tipo de pessoa. Continuo a ver notícias mas quando decido que quero ver notícias. Vejo quando estou preparada para ver. Tive de fazer isso até para conseguir gerir a minha própria emotividade, o meu estado emocional. Acho que as pessoas que estão constantemente nas redes sociais e que não têm este tipo de controlo vão acabar por ficar dormentes. Pode acontecer a todos nós. É triste. Acho que o caminho não é esse.
Qual é o caminho? Mais acordados?
Não sei. Talvez mais acordados e mais ligados uns aos outros. As coisas ficam mais fáceis quando percebemos que somos todos pessoas, que somos todos muito parecidos e que todos temos as mesmas inseguranças.
Voltando ao disco, há mais alguma canção que queiras destacar?
Eu gosto de todas as canções, claro. (risos) Mas as canções 'Fica Mais Perto' e 'Viagem' vão ficar sempre no meu top pessoal. A 'Fica Mais Perto' começa assim: "fica mais perto, que hoje a noite não tem fim/liga-me um canal qualquer em que não se fale de morrer". Começa de uma forma um pouco estranha, pesada, mas a verdade é que, seja nos filmes ou nas séries, sempre que é necessário que haja um plot twist [reviravolta no enredo] ou uma desgraça o cancro vem à baila. Quem está em casa a tentar ultrapassar uma situação do género não quer estar a ver isso. Foi por essa razão que passei a ser seletiva nesse tipo de conteúdos.
A canção evolui depois para o refrão que acaba por ser ainda mais fora. Adoro a sonoridade desta canção. O ponto comum de todo o álbum é pegar em coisas mais difíceis e gozar com elas. É fazer instrumentais divertidos para dançar com as coisas tristes de forma a que deixem de ser tristes. A canção 'Quero Que Te Sintas Bem', que foi das últimas que fiz para o disco, tem a ver não só com a vontade de eu estar bem mas também com a minha vontade de ver os outros bem. Quero que oiçam o disco e que gostem, que dancem. É um tema à guitarra, mais pop, mais comercial. É um tema divertido sobre querer que as pessoas à minha volta estejam bem, que estejam bem nas suas vidas. É sobre as coisas mais parvas e banais. Acho que quando conseguimos olhar para a vida com humor, torna-se tudo mais fácil. Fica tudo mais leve.
E a 21 de abril vais transpor o álbum para o palco do Musicbox. O que é que podes contar sobre esse concerto?
Tenho outros concertos marcados mais para a frente, mas o espetáculo do dia 21 será o de apresentação. O alinhamento vai à volta do "Invisível" mas também vou tocar canções do EP, visto que acabei por não conseguir tocá-lo ao vivo. Estou muito contente. Acho que o "Invisível" é o meu trabalho mais transponível para o palco. Estou a ter muito cuidado para que o concerto seja fiel ao disco. Vai ser mais baseado em samples. Será uma mistura da eletrónica com a guitarra. Temos também uma bateria híbrida. A ideia é manter a integridade do disco.
No Musicbox, Isaura vai apresentar "um conceito híbrido - eletrónico nos beats, bass, manipulações de vozes, e samples - mas contrastantemente orgânico nos acrescentos de bateria, guitarras e sintetizadores. O alinhamento de "+ Invisível" integra também o EP "Agosto" de 2019.
