Manifestação de 1975: "Era o mar de homens que se vê quando há Campeonato"

Célia Metrass, fundadora do Movimento da Libertação das Mulheres, recorda a primeira manifestação feminista em liberdade e a procura pela igualdade nos anos pós-revolução.

A 11 de janeiro de 1975 sai no jornal expresso um artigo  com o título “Strip-tease de contestação organizado pelo MLM”. 

“Assistiremos ao strip-tease de uma noiva, de uma dona de casa e de uma vamp que darão a flor de laranjeira, o avental e o biquini como pasto às chamas”. 

Célia Metrass é ativista feminista e co-fundadora do Movimento de Libertação das Mulheres, o primeiro movimento de mulheres em Portugal pós-25 de Abril.


Como viviam as mulheres antes do 25 de Abril?

Antes do 25 de Abril vivíamos todos mal, não eram só as mulheres. É tudo tão absurdo face à maneira como se vive atualmente. Não poder estar na rua a conversar com duas pessoas, porque podia ser considerado um ajuntamento e ter alguém da polícia política que os interpelava e pedia para se identificarem. Todas as notícias passavam pela censura e muitas eram cortadas, o famoso lápis azul. Nas escolas primárias e nos liceus, as meninas estavam de um lado e os meninos do outro, qualquer contacto era só mais tarde, muito censurado e difícil - quase uma coisa proibida.

Em relação às mulheres é sempre pior. Uma mulher durante a ditadura e até ao 25 de Abril não podia abrir uma conta no banco sem ter autorização. Não podia viajar para o estrangeiro sem autorização do pai ou marido. Havia profissões em que era exigido que as mulheres não fossem casadas, como hospedeiras e enfermeiras, porque eram consideradas profissões em que tinham de ter disponibilidade total. 

As mulheres passavam de um dono para outro. Enquanto eram crianças e jovens, até à maioridade aos 21 anos, pertenciam ao pai. Depois de alguma maneira, ficavam com uma certa independência formal. Se não tivessem independência económica, acabavam sempre por depender do pai. Passavam das mãos do pai para as do marido. Há gestos simbólicos que continuam a existir na sociedade hoje e que muitas vezes as pessoas não se apercebem. Como nos casamentos religiosos é o pai que entra com a noiva na igreja e entrega a sua filha, passa de um poder para o próximo. As mulheres tinham uma total obediência aos maridos. 

Eram criadas para serem as fadas do lar. Nos liceus femininos, eu andei no D. Filipa de Lencastre - um dos mais expressivos da ditadura - as aulas eram economia doméstica, lavoures e bordados. Toda a educação era feita no sentido de preparar futuras esposas boazinhas, obedientes e totalmente dependentes economicamente. Eram raras as mulheres que seguiam estudos universitários e depois muitas delas continuavam a cumprir o mesmo papel: estudavam, casavam, tinham filhos e ficavam em casa a tratar de tachos e panelas.

É daí que parte a criação do Movimento da Libertação das Mulheres (MLM)?

É desta situação de uma enorme repressão, de um enorme cinzentismo, especialmente para as mulheres. Uma mulher de 30 anos era uma mulher velha, uma de 50 anos estava completamente acabada. Era uma espécie de trapo surdo que se podia deitar fora.

É um movimento que surge no final da ditadura, mas ainda em ditadura. O MLM, durante muito tempo, foi composto apenas por uma burguesia de gente mais informada. Não havia, infelizmente, membros cuja vida era tentar o melhor possível com o pouco dinheiro que tinham. Educar os filhos e dar-lhes de comer, muitas a trabalhar fora de casa em profissões pouco qualificadas e, portanto, vida era um horário de trabalho formal de sete a oito horas por dia, mais duas horas e meia de transportes, mais todo o trabalho doméstico às suas costas quando chegam a casa. Não havia tempo para mais, continua a ser assim para muitas mulheres hoje. 

Havia por parte de uma elite um conhecimento do movimento sufragista, do que se passava nos outros países. O Maio de 1968 trouxe um despertar para realidades que em Portugal não eram conhecidas, mesmo esta situação não foi divulgada cá. As pessoas sabiam do que se passava no mundo através do boca orelha: de um amigo que vinha do estrangeiro e que trazia um livro proibido, das livrarias que tinham livros escondidos e que vendiam a algumas pessoas em quem tinham confiança... 

Até mesmo os livros que chegavam por baixo do pano, a ditadura cortava o que os jornais de alguma forma pudessem falar sequer sobre o assunto. Por isso havia sempre de estar tão limitado a uma elite muito específica que tinha forma de sair.

O MLM acaba por estar ligado ao julgamento das Três Marias?

Isso fez a diferença naquele momento em específico e naquilo que se estava a tornar alguns dos direitos das mulheres. Obras escondidas na livraria que guardava as coisas que algumas pessoas lhes pediam. Havia duas ou três livrarias em Lisboa que o faziam - por exemplo, da Livraria Ler, de Campo de Ourique, e da Livraria na Avenida de Roma, que agora não me lembro o nome.

Assim que saiu a edição das ‘Novas Cartas Portuguesas’ eu tive o livro, mas eu tinha uma consciência política desde muito nova… Genérica, consciência política em relação à ditadura em relação aos direitos, em relação à liberdade, não especificamente em relação às mulheres e é um bocadinho toda esta fase de contestação e de alerta lá fora… Obviamente que tinha lido Simone de Beauvoir, por exemplo, que nos leva a questionar: “Então e as mulheres em Portugal, como é?”

No dia da Revolução, eu fui para a rua, como toda a gente. A grande alegria era de estarmos incrédulos de felicidade e de comemoração, todos juntos. O tema das mulheres surge depois e é na sequência do julgamento das ‘Novas Cartas Portuguesas’ que, em conjunto com duas das Três Marias, a Maria Teresa Horta e a Maria Isabel Barreno é criado o Movimento de Libertação das Mulheres. A Maria Velha da Costa sempre se afirmou como não sendo feminista.

A liberdade que acontece quando há a revolução, não chegou logo para as mulheres.

Pois não, a liberdade para as mulheres não chegou com a revolução. Aliás, é mesmo muito paradigmático aquilo que aconteceu… Os próprios partidos de esquerda omitiram completamente o tema dos direitos das mulheres. A revolução nasce pela guerra, pelo cansaço.... É de alguma maneira, na minha opinião, uma revolta que tem a ver com os militares, que levaram alguma informação e outra maneira de pensar para dentro da instituição, que não querem continuar a morrer, que não querem continuar a guerra. O golpe de Estado no dia 25 de Abril acontece porque há uma adesão brutal por parte da sociedade e transforma-se numa revolução. 

Quando se vê a primeira junta de salvação nacional é uma coisa um bocadinho aterradora porque são velhos, caquéticos, todos homens, muitos ligados ao anterior regime, contestando, mas contestando dentro do regime. No fundo, não querendo pôr nada em causa. Mais estranho ainda é que, depois, os partidos de esquerda também não querem pôr grande coisa em causa. Quer dizer, são obrigados de alguma maneira.

A luta das mulheres faz-se e far-se-á sempre por conquista. Nenhum direito é dado de mão beijada nenhum privilégio é perdido porque as pessoas não se importam de o perder, não é por acaso que o próprio direito ao voto pleno por parte das mulheres só acontece bastante mais tarde. Situações tão escandalosas como trabalho igual, salário igual, nem de perto nem de longe foi uma coisa pacífica - mesmo no seio da esquerda. Estou a pensar no caso do Partido Comunista, que tinha uma implantação muito grande ao nível do trabalho fabril, do trabalho rural, em que estava completamente fora de questão aceitar que as mulheres pudessem ganhar o mesmo que os homens.  É pela luta das mulheres e dos sindicatos, que durante muito tempo também foram completamente dominados pelos homens, que a pouco e pouco se vai conseguindo a conquista de alguns dos direitos das mulheres. E de facto são as mulheres a lutar que conseguem aquilo que atualmente temos, e que mesmo assim continuam sem uma paridade total, mesmo que na lei assim se afirme. 

A 12 de janeiro de 1975, um ano depois da Revolução, as mulheres saíram pela primeira vez à rua em Portugal depois do 25 de Abril. Numa manifestação que foi construída à volta de “as mulheres vão queimar sutiãs”.

Eu antesdizia “Eu hei de ser velhinha e ainda me vão perguntar pela queima dos sutiãs.” Não, eu já sou velhinha e continuam a perguntar-me pela queima dos sutiãs.

As mulheres do MLM resolveram fazer uma manifestação e queimar os símbolos de opressão das mulheres que eram fundamentalmente vassouras, aventais, ramos de flores que simbolizavam a virgindade. Éramos umas 20, mascaradas com estes adereços, algumas das outras mulheres que lá estavam levavam os filhos.

Foi marcada essa manifestação para o Parque Eduardo VII, onde iríamos queimar esses símbolos. Entretanto, o Jornal Expresso, e especificamente uma jornalista chamada Helena Vaz da Silva, a quem eu dificilmente perdoarei por mais que isso não seja uma atitude muito bonita, resolveu escrever uma notícia em que anunciava que as feministas portuguesas iam fazer striptease no Parque Eduardo VII. 

O que aconteceu foi que quando este cortejo de meia dúzia de mulheres se dirige para o Parque Eduardo VII havia um mar de homens… Mas um mar de homens é uma coisa que eu ainda hoje quando vejo as imagens, nem tinha noção da loucura do mar de homens que aquilo era… Era o mar de homens que se vê no Marquês de Pombal quando há um campeonato ganho por um clube qualquer de futebol. Uma coisa completamente aterradora. Muitos homens de esquerda, com pins de partidos políticos de esquerda, que esperavam o prometido striptease.

A raiva, a frustração e a violência que se gera é a violência da expectativa das mulheres que vão fazer striptease e que não fazem striptease. Dá origem a uma agressão, dá origem a encontrões, a murros… Há uma que chega a ir parar ao hospital. Há um fenómeno que é inacreditável, mas muito sintomático, que é, já estamos em 1975, já houve a Revolução há quase um ano e a única mulher que é poupada, que os homens diziam “deixem passar, deixem passar”, é a Noiva… A pureza, a virgindade, o papel da mulher enquanto noiva é a única que os faz recuar. Uma das mais agredidas foi a que estava vestida com ar de Vamp, mesmo as outras - donas de casa ou outra coisa qualquer - fugimos. A preocupação era fundamentalmente as crianças. Entrámos dentro da carrinha de uma das militantes do MLM que lá estava e mesmo assim a carrinha foi abanada.

Esta manifestação mostra que a liberdade criada no pós 25 de Abril é ainda uma liberdade muito egoísta, não é uma liberdade imediata que se consiga generalizar.

Não, de facto são os homens que têm o poder na ditadura, como é evidente, e continuaram a ser os homens, porque era isso que vinha da história, que continuavam a ter e a exercer o poder. 

As mulheres de classes mais desfavorecidas em muitos casos vêm para a rua numa primeira fase de braço dado com os seus homens, lutando e gritando por tudo aquilo que eram os direitos dos trabalhadores. Era aquilo que as pessoas sentiam como sendo a sua reivindicação mais urgente. Mas depois há um fenómeno - que eu acho que foi muito interessante e eu participei em alguns desses grupos - em que as mulheres começaram a participar nas organizações de moradores. Até mais do que os homens, a reivindicar e a lutar por aquilo que eram as suas necessidades, mais do que direitos, mais urgentes. Em relação a si, à família e em relação aos filhos. 

Têm uma participação ativa muito grande de mulheres, que começam a sair de casa à noite para ir às reuniões - com todos os problemas que isso depois acarreta nas suas relações, com os seus companheiros - e que vêm lutar por escolas, por creches, por água, por saneamento, de maneira a criar melhores condições para a sua vida e para a da sua família. O que acontece nas comissões de moradores é que as mulheres começam a encontrar outras mulheres. Começam a perceber que os problemas que têm não são só delas. A vizinha tem um problema igual. A vizinha também se queixa do marido, também se queixa que apanha, também se queixa que os filhos não têm condições para ir para a escola, também se queixa do patrão… 

Começa a haver uma solidariedade feminina que é o motor, que é fundamental à sobrevivência das mulheres. Acho que são as amigas que nos salvam. Aão as outras mulheres e a solidariedade das outras mulheres que permitem que este carro avance e que seja possível fazer novas conquistas.

No MLM éramos muito poucas… Como é que 50 anos depois ainda se fala do MLM, sinceramente é uma coisa que me comove, porque eu acho que foi uma semente. E uma das coisas para a qual foi semente, e que foi muito importante, foi os chamados grupos de consciencialização.

O que são os grupos de consciencialização?

A maneira como as mulheres viviam antes do 25 de Abril, era cada uma fechada na sua casinha com o seu marido, com as suas crianças e não podia ir à rua. Não tinha tempo, não tinha condições e não se podia falar. Os homens, apesar de tudo, podiam ir ao café, podiam ir ao futebol, podiam conversar com os outros, podiam ter os seus amigos. Isto nas mulheres não acontecia. Não acontecia porque as suas vidas eram muito mais difíceis, mas também não acontecia porque não eram bem vistos. Nenhuma mulher ia ao café a beber um café sozinha, muito menos sentar-se à mesa de café com duas ou três amigas a conversar. 

O tal Movimento de Libertação das Mulheres, era uma coisa circunscrita a Lisboa. Tínhamos 20 ou 30 mais ativas. Depois umas apareciam e não apareciam outras. Éramos um grupo realmente pequeno. Começámos a perceber que nas reuniões que as mulheres encontravam outras mulheres e falavam dos seus problemas. Daí nascem os chamados grupos de consciencialização, que já acontecia noutros países, uma espécie de grupos de terapia, sem nenhuma orientação e sem nenhum aconselhamento. Só não eram graves porque não havia ninguém com conhecimento de psicologia que, de alguma maneira, pudesse encaminhar, ajudar… Era tudo muito libertário. 

Os grupos de consciencialização começam a ter uma importância brutal. As mulheres juntavam-se para falar dos seus problemas e, pela primeira vez na vida, não se sentiam sozinhas. Essa conjugação de espírito, de reivindicação, de lamento e de queixume constituía um motor.  Depois, os grupos começam a proliferar noutras zonas do país: no Porto, em Évora, no Algarve, em Coimbra… Isso é uma semente muitíssimo importante de que possam aparecer aparecer outras mulheres que, de alguma maneira, começaram também a promover atividades e reivindicações de uma forma descentralizada. As mulheres começam a ganhar consciência e começam a reivindicar. Os homens não acham graça nenhuma. Não achavam nessa altura e também não acham agora.

A Célia assinou o primeiro manifesto português sobre o aborto. 

É publicado em 1975, o livro ‘Aborto, Direito ao Nosso Corpo’ que é escrito por três mulheres: Maria Teresa Horta, Helena de Sá Medeiros e eu, Célia Metrass. 

Surge dos ditos grupos de consciencialização. Um dos problemas mais aterradores e mais negros das histórias que as mulheres contavam era a sua experiência com o aborto clandestino. A maioria das mulheres fez abortos, muitas fizeram abortos a si próprias. Estamos a falar de uma época antes do 25 de Abril em que não era possível chegar a uma farmácia e comprar a pílula. A pílula vem dos anos 60 e tal, vendida por receita médica. Depois os seus homens reagiam muito mal a que elas tomassem, porque diziam que elas não tinham prazer. As mulheres viviam aterradas o mês inteiro à espera que a menstruação aparecesse. As famílias numerosas não eram uma opção, eram uma fatalidade. As mulheres tinham de levar com isso às costas porque eram elas que engravidavam. As questões económicas prevaleciam, mas também havia mulheres que não queriam ter filhos ou mais filhos por outras razões. 

O livro surge da compilação de entrevistas feitas a mulheres: quer mulheres que sofreram abortos, quer mulheres que faziam abortos - as parteiras, que corriam risco de prisão. Depois, já que estávamos em plena revolução, resolvemos perguntar aos partidos qual era a opinião que eles tinham sobre o tema do aborto, com respostas muito sui generis. Entrevistámos alguns médicos, pouco, que nos ajudaram a perceber melhor o enquadramento ao nível dos hospitais, quando iam parar aos hospitais com hemorragias em risco de vida. Algumas morriam em consequência de abortos mal feitos, quando havia infeções e perfurações do útero - porque muitas faziam abortos a si próprias com agulhas de crochê, pés de salsa e qualquer outro objeto perfurante que conseguissem encontrar. Muitas nem sequer tinham dinheiro para pagar o chamado aborto feito por uma parteira, em condições miseráveis. 

O livro saiu em 1975. Infelizmente, é uma editora que abre falência rapidamente, portanto o livro esgota a primeira edição e nunca foi reeditado. Mas foi durante muitos anos o único estudo sobre o aborto em Portugal.

A história oculta isto, o aborto não era permitido independentemente da situação.

É verdade, o aborto não era permitido. Passámos a chamar-lhe Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG), um bocadinho para tentar retirar o estigma da palavra aborto. 

Foi uma luta muito difícil, demorou muitos anos… Mesmo os referendos que foram feitos: o primeiro ganhou o “não”, o segundo em que ganhou o “sim”, não se transforma obrigatoriamente em lei. É graças à Assembleia da República, às posições dos partidos de esquerda e de alguns deputados do PSD, que se consegue implementar a autorização para a IVG até às 10 semanas. 

Isto é o que está na lei, mas não é o que acontece na prática. Existe a objeção de consciência dentro daquilo que é a lei. Mas a lei não protege as mulheres porque se não houver (e é legítimo não haver nenhum médico num hospital) as mulheres ficam sem ter onde ir e. Como o tempo também é muito limitado, entre isso e depois a marcação da operação, já ultrapassou o tempo legal. Acabam por recorrer ao aborto clandestino, se tiverem recursos económicos podem ir a outro país.

As mulheres que não pensem que qualquer dos direitos que conquistaram até agora é um dado adquirido. Não o é. É um dado que a qualquer momento pode ser revertido. Veja-se o que se está a passar neste momento nos Estados Unidos. Por influência de igrejas, de ortodoxias e de conservadorismos já conseguiu reverter completamente a autorização para a IVG em casos tão escandalosos como quando está em causa a vida da mulher ou quando a gravidez é resultante de uma violação, mesmo que seja uma criança.

Ainda há muito para mudar?

Há muito para conquistar e há muito para segurar. Posso e espero estar enganada, mas acho que estamos a atravessar um período muito complicado. Enquanto houver uma mulher oprimida, em qualquer sítio do mundo, a luta das mulheres não está feita. 

A violência doméstica continua a ser um problema, como era há cinquenta anos. Demorou muito tempo para que se pudesse fazer uma denúncia externa, não era um crime público. Em Portugal, de ano para ano, o número de mulheres assassinadas pelos seus companheiros tem vindo a crescer. É um problema de educação, não é só de exemplo de crescer em ambientes violentos. O facto de ser crime público, ajuda muito, antes as pessoas até desviavam os olhos porque “entre marido e mulher não se mete a colher”. Mas quase todas as mulheres assassinadas este ano já tinham apresentado variadíssimas queixas na polícia que não tiveram qualquer seguimento. Enquanto nós continuarmos a ter na lei que em casos de violência doméstica é a mulher e as crianças que saem de cas, a sociedade não cria condições para proteger efetivamente estas mulheres e, portanto, as queixas sucedem-se. Elas têm a coragem de ir à esquadra apresentar a queixa, voltar para casa e depois como não acontece nada e ninguém as consegue proteger na convivência com o agressor.

Isto é muito assustador. O problema da violência no namoro é muito atual. A violência era só considerada olho negro e cara marcada, as pessoas as mulheres não se identificavam com isso. Mas a violência é ver o telemóvel, é dizer que não vai para a rua com aquele fato ou com o outro, é perguntar o tempo todo onde é que estavas e com quem é que estiveste. Isso é uma coisa que as mulheres jovens em idade de namoro aceitam como natural e é gravíssimo. É um precedente muito preocupante.

Nós tivemos de facto um período longuíssimo de paz, que infelizmente acabou. As conquistas não estão todas feitas e muitas estão em risco, com o reaparecimento de governos fascistas e da promoção de valores completamente reacionários por todo mundo. As mulheres tendem a perder muitos direitos, é preciso lutarem ferozmente pela sua manutenção com unhas e dentes e não acreditarem que já está tudo conquistado.

Esta entrevista faz parte do Podcast 'Revolucionárias' que pode ouvir no site da rádio ou nas plataformas de podcast.