James Arthur de novo nos carris

Primeira de duas noites no Campo Pequeno com casa cheia.

Talvez o momento mais sensível do concerto de duas horas de James Arthur neste domingo,no Campo Pequeno, em Lisboa, tenha sido a forma sincera como recordou o seu colapso anímico em 2019, numa hecatombe de saúde mental, que o levou a largar um concerto a meio e a cancelar toda uma digressão. James Arthur contou-nos isto tudo. Este discurso nem sequer foi longo e serviu de mote para a interpretação da sua canção sobre saúde mental, ‘Train Wreck’, já o espetáculo estava em andamento há mais de uma hora.

A noite estava tão chuvosa e desagradável que só um fã de James Arthur é que não invejaria quem se conforta no quente lar àquelas escuras horas, preferindo a experiência ao vivo com o seu querido cantor. Mais de seis mil pessoas terão pensado assim ao encherem quase por completo o Campo Pequeno.  

Quando passam poucos minutos da hora combinada (20h30), uma tela curvada que quase contorna todo o palco ergue-se como uma rede, com imagens do mar, ao som da canção de abertura, ‘Water’. James Arthur e o seu octeto ficam à nossa vista, num palco com um segundo nível todo redondinho.

James Arthur canta de boné e com uma guitarra elétrica à cintura que só toca de vez em quando em ‘Bitter Sweet Love’, o tema nº 2 do alinhamento. Na tela central lá em cima, corre o título da canção como uma nota de rodapé, talvez para não nos esquecermos do nome da música.

James Arthur lembra que este é o primeiro concerto da digressão europeia, “a maior” que já fez, garante, tudo isto para nos avisar de potenciais problemas técnicos típicos de um espetáculo de arranque de turnê. “Serão os únicos que poderão testemunhar estes problemas”, consola-nos. Segue-se ‘Sermon’ com uma pequena incursão no tema dos Fugees que já estava no guião ‘Ready or Not’, antes de James Arthur dar o sinal ao que ia quando pega numa guitarra acústica, para interpretar um tema ligeiramente mais sossegado, ‘Can I Be Him’.

Em ‘Empty Space’, a armação que é uma tela volta a baixar, com James Arthur a ficar camuflado por uma cascata de luzes. Em ‘Rewrite the Stars’, o palco vira um planetário, com um céu estrelado e algum sol visto de mais perto com as suas labaredas de dimensão épica. Nesse tema, estabelece-se um dueto a cinco metros de distância entre James Arthur e uma das cantoras do coro lá atrás.

Cria-se depois um corredor no meio da arena para James Arthur cumprimentar a malta como um político em campanha, e cantar lá no meio deles como um bravo, antes de subir a um segundo palco à frente da mesa de som. James Arthur senta-se então num sofá de estofos duros e amarelados para cantar a balada ‘Embers’, de frente para um manto de luzes de telemóveis a baloiçar.

James Arthur larga o seu primeiro “obrigado” em português e a multidão fica maluca, porque o calor humano à volta do cantor inglês estava neste ponto. O músico de 37 anos continua no modesto sofá, desta vez a cantar a balada acústica ‘Friends’ enquanto o ecrã projeta a imagem de um televisor à antiga, com uma dançarina a bailar numa praia e noutros sítios.

Vem depois ‘Naked’ é aí James Arthur pediu um coro coletivo ao público e teve-o, numa coisa muito entre ele, o planista e o público e mais ninguém. Estreia depois em primeira mão como noviidade no espetáculo de Pisces World Tour um medley soul muito acamado pelo trío do coro e ainda muito caótico, a precisar de alguns ajustes.

Por breves minutos, a estrela passa a ser uma pessoa que não está na sala e se chama Emily, o nome da filha de Arthur que fez neste domingo 3 anos de idade e mereceu a entoação de ‘Happy Birthday To You’ por todo o público. “Vou cantar duas canções dedicadas a ela” e cola ‘Hearbeat’ a ‘Emily’

‘Karaoke’ é um rompante de euforia, ressaltando uma dica para um futuro cântico futebolístico na parte final. ‘Yeah No’ faz de James Arthur um indie rocker, num momento explosivo de banda que não dava margem para o coro.

Em ‘A Thousand Years’, o público torna-se o protagonista principal da balada, sem desprimor para James Arthur. Minutos depois, James Arthur viaja 12 anos no tempo e recorda a sua participação no X Factor. Estava dado o mote para ‘Impossible’, que faz de Arthur um James Blunt do nosso tempo.

No encore, ora vêem-se imagens de mar revolto em ‘Blindside’, ora  gotas da chuva, que fazem o ecrã parecer um vidro abundantemente pingado, em ‘Car's Outside’. James Arthur guarda as mais populares para a ponta final se tornar épica, como ‘Lasting Lover’ ou ‘Say You Won't Let Go’, em que James Arthur fez a gracinha de tocar o primeiro acorde na guitarra e se preparar para sair. Na dúvida, o público assobia-o, tal é o susto. Mas James Arthur retoma o tema, para o tocar como deve ser, poupando-se um dia animado de muitas chamadas à DECO. O concerto termina com uma névoa de confetti. Nesta segunda-feira, faz-se o bis disto dito.