Jamiroquai no Cooljazz: uma odisseia nostálgica com vista para o futuro
Regresso de Jay Kay a Portugal com uma nota biográfica interessante. Filho de pai português, o músico contou-nos que foi feito em Cascais, a casa do Cooljazz.
O recinto do Cooljazz esteve à pinha esta noite para o regresso dos Jamiroquai e do homem que os “orquestra”, Jay Kay.
Milhares de “funkers”, como diz o próprio, quiseram acolher o grupo em Cascais, uns para dançar na pista de dança da nostalgia (talvez a maioria), e outros tantos, quem sabe?, para perceber qual será o rumo do coletivo inglês que atualmente tem um álbum novo a ser maturado na fase de masterização. Será o nono da discografia que começou em 1993 com o bem-sucedido e aclamado "Emergency on Planet Earth" e o sucessor de "Automaton", de 2017.
Certo é que o Hipódromo Manuel Possolo reuniu o máximo de fãs que pôde para o regresso da “tribo” do inglês Jay Kay, um dos homens que carimbou na história da música uma espécie de “funk do futuro” no espoletar dos anos 90 e que meteu o acid jazz londrino em montras maiores, como a da saudosa MTV, por exemplo.
Antes da entrada de Jay Kay, a exímia e vasta banda que o acompanha posicionou-se, debaixo de aplausos, nos respetivos lugares. Derrick McKenzie, um dos mais antigos do grupo, na bateria, Rob Harris, que também tem a sua antiguidade no coletivo, na guitarra, Matt Johnson e Sara De Santis nas teclas, Paul Turner no baixo e Fabio De Oliveira na percussão. À direita, elevadas numa plataforma, três vozes femininas no coro: Valerie Etienne, Hazel Fernandez e Romina Johnson.
Jay Kay chega, por fim, com um casaco ornamentado com farripas e o chapéu que não dispensa nas atuações. Além de fazer parte da performance artística, o adereço - que quando não é um chapéu é um adorno de “penas” - tem significado desde os primórdios dos Jamiroquai. Está tão intimamente ligado a Jay Kay que as primeiras peças foram feitas pela mãe do artista britânico, Karen Kay. E no adorno há uma simbologia relacionada com um poder místico associado à vitalidade. É, pelo menos, o que sabemos dos iroqueses, uma tribo indígena norte-americana que inspirou o nome para a banda muito devido ao espírito livre e à ligação profunda com a natureza.
Chapéus Jay Kay tem muitos. Groove nas veias também não lhe falta. O inglês continua a mover-se no palco com os truques do costume, sempre bem amparado pela parafernália instrumental que o rodeia. Dá o corpo ao cruzamento dos instrumentos que esta noite estenderam canções com arranjos mais longos e livres.
Foi uma odisseia nostálgica, sobretudo, mas com a janela aberta para o horizonte do que ainda está por chegar. Quem estava no recinto de Cascais escutou duas novidades que farão parte do novo disco. O resto do alinhamento picou vários álbuns situados mais atrás na linha do tempo.
Jay Kay entrega primeiro a voz, que nos soou intocável pelo passar do tempo, a '(Don’t) Give Hate A Chance', uma das faixas de "Dynamite" (de 2005). O “manifesto” pela urgência de revitalizar o amor como cola humana e pela aniquilação do ódio como os únicos propulsores para a elevação da humanidade não podia estar mais atual.
Jay Kay anda pelo palco de mão no bolso, gesticula os braços e as mãos e, em alguns momentos, sincroniza a voz com o coro. Canta, convicto na mensagem, enquanto a banda brilha no mesmo compasso. Antes de seguir para a próxima, saúda a multidão e grita, de forma efusiva, “Portugaaaal”.
O recinto ouve depois a energética 'Little L' (do disco "A Funk Odyssey") e automaticamente começa a dançar. Jay Kay remata o tema com um agradecimento, atitude que replica no final de praticamente todas as canções.
O som do piano e acordes de guitarra soltos preparam o solarengo, descontraído e aconchegante 'Seven Days in Sunny June', uma das canções que evidencia o travo de suavidade, como um fio de mel, na voz de Jay Kay. Entre canções, esta noite surpreendeu-nos com uma confissão."Falei esta manhã com a minha mãe. E quando lhe disse que estava em Cascais ela respondeu-me que estava no sítio onde tinha sido feito", disse, com humor, à multidão que tinha aos pés. Também falou do pai, o guitarrista português Luís Saraiva que Jay Kay conheceu mais tarde. "O meu pai está cá. O velhote anda por aí algures", acrescentou.
Depois do momento familiar, pulo intergaláctico para 'Space Cowboy' que o britânico, agora já sem casaco, foi buscar ao álbum "The Return of the Space Cowboy", editado 1994. O cenário mistura edifícios, palmeiras e feixes de luz cruzados lá atrás. Jay Kay ergue um braço de cada vez, move-se com leveza e, como skater empenhado que é, faz o tradicional jaykaywalking, rodopiando e trocando os pés enquanto parece deslizar pelo palco. Às tantas, ajoelha-se, o tema estende-se e a banda brilha, outra vez, entrosada e irrepreensível.
"Esta é do novo álbum", avisa a seguir o inglês. Salta do alinhamento 'Shadow in the Night', tema ainda fresco que mantém o tom e a matriz funk do grupo. Sobre o novo álbum Jay Kay já tinha confessado que se sente orgulhoso com o que está prestes a oferecer discograficamente ao mundo. A nova canção, que sobressaiu do fundo alaranjado do palco e que, por momentos, deu foco às proezas na percussão, foi bem acolhida em Cascais com um sonoro aplauso de aprovação no final.
Houve uma espécie de interlúdio de liberdade instrumental até o público perceber que estava prestes a ouvir 'Alright'. A faixa de "Travelling Without Moving" voltou a arrebitar a multidão que ficou um pouco mais contemplativa com a anterior. A frase “I need your love” ecoou em loop e “do nada” vimos corações a esvoaçar pelo recinto. O público acompanhou, entusiasmado, no refrão.
“Não importa o que nos fizerem teremos sempre o disco”, disse Jay Kay, antecipando a segunda novidade da noite. 'Disco Stays the Same' começa na percussão mas logo transforma o hipódromo de Cascais numa ampla pista de dança a céu aberto. Feixes de luzes de várias cores cobrem o recinto. O novo tema é uma homenagem digna ao disco sound e promete ser uma das faixas mais fortes do álbum que vem aí. Jay Kay rodopia, dança e entrega-se à euforia da novidade que está a oferecer aos fãs.
Breve espera para todos respirarem: humanos e instrumentos. Eis que arranca o instrumental que abre as águas para 'Traveling Without Moving'. À medida que vai crescendo, vai contagiando a plateia. Uma voz robótica entoa o nome do tema, enquanto os instrumentos se cruzam com mestria. Entra Jay Kay agora vestido de preto e com o típico adorno indígena na cabeça. O homem dos Jamiroquai não para quieto. Percorre o palco, interage com a banda e com o público. Já perto do final dá um salto pujante para logo a seguir entregar o corpo e a voz a 'Canned Heat'. Passagem direta depois para a convocação cósmica de 'Cosmic Girl'. Atrás um bonito céu estrelado serve de cenário. Jay Kay rodopia, de braços abertos, improvisa e retoma o refrão que é acompanhado pelos milhares que tem aos pés. "Muito obrigado", grita.
Pausa de hidratação. E 'Love Foolosophy' começa com densidade nas teclas. O início ganha um tom dramático que desagua num breve momento a capella. As baquetas, porém, transformam o ambiente e a canção de "A Funk Odyssey" ganha a forma original. Jay Kay aponta o microfone para o mar de gente e dá tudo no jaykaywalking. O público responde com euforia até o tema serenar um pouco. Reergue-se numa versão mais rockeira com um digno solo de guitarra. Jay Kay bate palmas e entrega o corpo ao ritmo da percussão até à guitarrada final.
Mais um agradecimento agora em tom de despedida, mas, sem demoras, a banda retoma o alinhamento.
O concerto termina com o profético e inevitável 'Virtual Insanity'. Como é possível Jay Kay e Toby Smith (um dos elementos do grupo falecido em 2017) terem escrito este tema em meados dos anos noventa com uma vista tão precisa para o futuro? Visionários ou perspicazes? Quem sabe? O "manifesto", na época distópico, hoje ganha outros contornos. Telemóveis no ar (a ironia!) para captar a canção que provocou uma onda de êxtase no oceano de pessoas que ali estavam.
"Muito obrigado. Foram incríveis", disse Jay Kay. Antes de sair do palco ainda bate palmas com todos os que estavam no recinto, pai incluído, e assina uma série de cartazes das pessoas que estavam nas fileiras da frente. Ovação demorada. A banda agradece. Jay Kay volta ao microfone para agradecer e gritar outra vez "Portugaaaaal".
O Cooljazz decorre no Hipódromo Manuel Possolo até ao final de julho. Veja aqui o cartaz.
