Joana Almeirante: "é fantástico ver tantas miúdas a fazer música"

'Soamos Todas Iguais' é o primeiro single do segundo álbum de originais da cantora. A edição do novo disco está prevista para outubro. 

‘Soamos Todas Iguais’ é o primeiro single do segundo álbum de originais de Joana Almeirante, cujo lançamento está previsto para o mês de outubro. 

O novo álbum vai ser apresentado a 21 de março, na sala principal do Cineteatro António Lamoso, em Santa Maria da Feira, a terra natal da artista portuguesa com quem conversámos esta semana.  

O concerto, que já tem lotação esgotada, conta com a participação especial de Nena (com quem Joana Almeirante partilha o projeto 2 Pares de Botas) e com Miguel Araújo - um dos mentores da cantora e  guitarrista.  

Joana Almeirante soma na discografia um EP ("Ilusão") e um álbum de estúdio ("Leva-me Para Longe") que editou em 2023. 

No espólio de canções da cantora há temas como 'Leva-me Pra Longe', 'Dois Corações Partidos' (ao lado de Samuel Úria), 'Bem Me Quer' ou 'Erro'.  

Joana Almeirante também anda na estrada ao lado de Nena com o projeto 2 Pares de Botas. Depois de recentemente terem subido ao palco do Coliseu do Porto, a dupla segue para o Teatro Maria Matos, em Lisboa, em dose dupla, nos dias 28 e 29 de abril.
 

Entrevista a Joana Almeirante



Quero começar por falar da canção ‘Soamos Todas Iguais’. Há aqui muita coisa para esmiuçar. Na descrição do tema podemos ler que “é um tema pop, irónico e afirmativo que parte de uma crítica tantas vezes repetida para a virar do avesso". E também li no teu Instagram uma frase ironizava: "avalanche de novas artistas femininas causa inquietação entre os demais". Que inquietação é esta? 

Desde que me tornei artista e entrei nesta área profissional, houve um boom gigantesco de raparigas e miúdas incríveis a fazer música. Nasci [artisticamente] nesse início. Antes não havia assim tanta música feita por artistas femininas. E muita gente confundia-nos. Metiam-nos no mesmo saco, na mesma caixinha. Muitas vezes, diziam: "estas miúdas soam todas iguais". E eu achava que isso não só era irritante como um pouco injusto. Acho mesmo que não soamos todas ao mesmo. Cada uma tem a sua individualidade e uma parte artística diferente. Mas, na verdade, acho que é apenas desconhecimento [por parte das pessoas]. Quando há uma avalanche de miúdas a fazer música é inevitável que isso aconteça. E isso acompanhou-me no início da minha carreira, mas sinto que continua a acontecer. A dada altura, há coisa de meio ano, apeteceu-me falar sobre o assunto. Estava muito irritada não só com o que se dizia mas com uma situação em particular que aconteceu com pessoa muito cheia de si própria, daquelas pessoas que acham que são “a última Coca-Cola do deserto”. Então, juntei as duas coisas e saiu esta canção. Foi a canção mais rápida que escrevi. Estava mesmo inspirada e irritada. Foi assim que nasceu a 'Soamos Todas Iguais'. Estou muito feliz com a canção. Foi mesmo um desabafo que precisava de fazer.   


E em que sentido é que depois vira a crítica do avesso? 

Acho que é uma crítica mas, acima de tudo, é uma crítica construtiva. Nós somos todas iguais no sentido em que fazemos música incrível. Acho que o facto de existir este boom de artistas femininas é algo positivo. É fantástico ver tantas miúdas a fazer música. E isso não existia. Lembro-me que antes de aparecer a Carolina Deslandes, que foi quem marcou o início desta fase, não se ouvia muitas raparigas a fazer música. Portanto, acho que este avesso é fixe. Acho fixe ter acontecido. É fixe enaltecer as coisas importantes e bonitas que [esse boom] trouxe em vez de estar sempre a pegar nesta crítica chata e irritante que existiu e continua a existir. É preciso ver a parte bonita disto tudo.

E numa das publicações que fizeste sobre esta canção, vi também um comentário da Bárbara Tinoco. Acredito que formem uma comunidade artística de partilha e que até se inspirem umas nas outras…   

Completamente. Acho que, acima de tudo, somos colegas de profissão. E tem de haver respeito e sintonia. Acho que todas nós sentimos isso. Comento este assunto com artistas que conheço e que são minhas amigas e sei que todas nós já passámos por isto. Foi e continua a ser algo recorrente. Era inevitável não se falar sobre isto. E, portanto, achei muito giro a Bárbara ter partilhado. Prova que as outras artistas também sentem isto. Acho que nos apoiamos muito umas às outras, principalmente as que pertencem à agência onde estou, a Primeira Linha. Todos os artistas são muito fixes uns com os outros. Isso é altamente. 

Talvez, no futuro, até possa haver um projeto, que envolva uma série artistas femininas, que parta desta provocação. É capaz de encher coliseus e até a MEO Arena…

Isso seria incrível. 

Essa união artística é muito bonita e pode ter frutos incríveis. Há pouco disseste-me que demoraste muito pouco tempo a compor o tema. Como é que costuma ser o teu processo criativo?  


Na realidade, difere muito. Nunca é igual. Há músicas que saem de rajada e simplesmente aparecem. Eu pego na guitarra, começo a ir buscar os acordes e a letra começa a surgir. Noutras alturas, começo pela letra e demoro anos até acabá-la. O que tenho sentido é que as canções aparecem quando me fazem muito sentido. E, nessas alturas, tenho de batalhar até ao fim. Não consigo parar até que estejam concluídas.   

É uma espécie de desabafo, certo?  

Sim, sim. Às vezes, é preciso sentarmo-nos para escrever. É preciso parar um pouco a nossa vida quotidiana para nos focarmos a escrever. E isso também é um exercício. Mas noutras alturas é simplesmente inspiração. Acho que, sim, é um desabafo. E essas canções são as mais simples e as que saem com mais facilidade. Eu tenho tido as duas vertentes. Muitas vezes, sento-me e obrigo-me a escrever. E nem sempre saem boas canções. Mas, por outro lado, podem sair canções que levam a outras canções. E há alturas em que as canções simplesmente aparecem. Quando isso acontece temos de aproveitar esse momento. 

Tens um novo álbum previsto para sair em outubro…

É verdade. 

O que é que já podes contar sobre o novo disco? 

O single que lançámos agora é, provavelmente, o mais irónico, sarcástico e divertido que já lancei. Posso dizer que podem esperar um disco divertido mas também muito pessoal. Acho que nunca me tinha aberto da forma como me abri neste álbum. Isso é muito importante para mim. Estou a levar para o estúdio coisas que me são muito pessoais, o que até me deixa um pouco desconfortável. Mas, ao mesmo tempo, é entusiasmante. Sinto que estou a fazer uma coisa muito honesta e muito pura. Estou a fazer algo que mostra lados da minha personalidade que não tinha mostrado até agora. 

E não sentes uma sensação de vertigem ao partilhar algo tão pessoal com os outros? 

Completamente. Eu estava em pânico por lançar o single porque, embora fosse um assunto que quisesse abordar, era algo muito meu. E, além disso, nos últimos trabalhos também fui mais uma intérprete, no sentido em que recebi muitas canções para interpretar. Expor-me como compositora custa um pouco mais. Há uma maior responsabilidade, mas, por outro lado, acho que é mais entusiasmante.

Mas certamente que terás muitas pessoas que se vão identificar contigo e que vão fazer questão de te dar esse feedback

Espero que sim.

Li numa entrevista, que deste há algum tempo, que talvez não tenhas tido disponibilidade de tempo suficiente para te dedicares ao álbum anterior e que desta vez foi diferente. 

Sim. 

O que é que esse tempo deu ao novo disco? 

Acho que fez-me conhecer partes de mim que não conhecia. Ajudou-me a explorar facetas, tanto musicais como introspetivas, que nunca tinha experimentado antes. E fi-lo agora não só por ter uma maior disponibilidade de tempo, mas também por querer arriscar. Quis sair um pouco do espetro das expetativas que as pessoas criam em relação ao que devo fazer. E isso tem sido muito libertador, embora admita que, por vezes, surge o medo e talvez alguma frustração uma vez que nem sempre quero partilhar certas coisas mas sinto que tenho de o fazer. Mas têm-me dado muita alegria e tenho sentido muito entusiasmo a fazer música. Por incrível que pareça, nunca tinha sentido isto. Não sei. Pode dar frutos, pode não dar. Mas, pelo menos, estou a divertir-me imenso. Está a ser muito divertido mesmo.  

Ser libertador já é uma grande conquista, não é? 

É verdade.

E vais ter colaborações no disco ou ainda não podes contar? 


Bem, ainda não posso contar. Mas, sim. Acho que vou ter algumas colaborações. 

Sei que também abraças outros escapes artísticos, como o desenho e a pintura, certo? 

Sim, sim. 

Esses escapes contribuem, de alguma forma, para a criação da tua música?


Para mim são uma escapatória. Eu sou muito obcecada por música, por isso, quando não estou a fazer música preciso de estar inspirada criativamente a fazer outras coisas. E sinto que, muitas vezes, é o lugar onde consigo relaxar e libertar-me da parte mais musical. É quando consigo realmente estar noutra vibe e noutro momento. Acho que a parte criativa está sempre noutras coisas. Por exemplo, gosto de ler e de pintar, embora já não pinte há muito tempo. Mas pintar trazia-me paz. E inspira-me. Gosto de apreciar outros artistas, de arte no geral. É algo que me traz muita inspiração. E viajar também. Tudo traz. Ouvir música, ir a concertos ou visitar museus. Tudo isso é muito inspirador. Mas, para mim, também uma forma de relaxar. 



Lembrei-me da Patti Smith porque, além de ser um ícone musical, também escreve e tem uma relação muito próxima com várias formas de arte. Entre os artistas de gerações anteriores à tua, quais são os que mais te inspiram?

Eu adoro música antiga. Entre os mais icónicos posso dizer que é a Sheryl Crow. Eu sou completamente obcecada por ela. Também oiço muito a Dolly Parton. Gosto do John Mayer. Quanto a nomes mais recentes, gosto muito da Kacey Musgraves, é uma grande referência para mim. Mas também cresci muito na vibe do rock. Adoro rock and roll e, portanto, tenho referências que vão desde os AC/DC aos Fleetwood Mac que são [da ala do] rock mais suave. Eu cresci com os discos do meu pai. Conheço todo esse tipo de música. Carly Simon, por exemplo. Gosto de muitas coisas e acho que essas influências estão, de alguma forma, presentes na minha música. Também tenho ouvido música mais moderna que me tem influenciado. Mas confesso que foi mais difícil chegar lá. 

Tipo o quê?

Mais pop. Mas acho que foi importante fazer esta conversão para a música mais moderna. A essência é juntar as duas coisas.

E já que falaste em rock and roll, tenho de ir até aos teus treze anos quando começaste a tocar guitarra. Nessa altura, tinhas ideia que este seria o teu horizonte e o teu percurso artístico ou tocavas apenas por diversão?  

O meu sonho era ser guitarrista. Aliás, o meu sonho era ser guitarrista dos AC/DC. (risos) Isto era o meu patamar de sucesso. Sinto que a vida me foi levando e trouxe-me até aqui. Na verdade, nunca sonhei em ser cantora, nem em ser artista. Não estava de todo nos meus planos. 

Foi acontecendo… 

Foi acontecendo. Até ficava chateada quando as pessoas diziam que gostavam de me ouvir cantar porque eu queria era que gostassem de me ouvir tocar. Mas isso não acontecia. (risos) O que me pediam era para cantar. Comecei a perceber que as pessoas gostavam mais de me ouvir cantar do que tocar e pensei que podia tentar fazer as duas coisas só para ver se resultava. E foi resultando. 

E tocaste guitarra com o Miguel Araújo, com quem tens uma estreita ligação. Certamente que aprendeste muito com ele, mas acho que ele também aprendeu contigo. Acho sempre que há uma troca de aprendizagens. O que é que aprenderam um com o outro? 

Eu aprendi quase tudo com ele. O Miguel é um artista excecional e é um compositor fora de série. Acho que é dos nossos melhores compositores. Aprendi muito com ele a fazer canções. E em palco também é um artista fora de série. É um contador de histórias e isso para mim é fascinante. Ele consegue ter uma grande conexão com o público. E depois toca maravilhosamente guitarra, o que me enerva um bocado. (risos) Acho que o Miguel ensinou-me tudo aquilo que sei enquanto artista. 

E ao contrário? 

Não sei. É difícil dizer. Acho que, se calhar, o facto de ser muito descontraída e divertida pode contagiar em palco.

Agora vamos falar dos teus concertos, sendo que a primeira data é em Santa Maria da Feira que é a tua terra natal… 

Sim, é verdade. 

É uma data que certamente será muito especial para ti e, inclusivamente, já esgotaste a sala. O que é que estás a preparar para o palco? 

Vou apresentar o novo disco. Quero ver como é que o público recebe as novas canções. É sempre o mais importante, não é? Acho que é fácil perceber quando o público gosta, quando abraça as canções. E, portanto, estes concertos vão ser especiais por causa disso. Além disso, este primeiro concerto é na minha terra. Foi onde nasci e onde tenho os meus amigos, a minha família. Isso é sempre muito especial 

Sei também que vais ter convidados… 

É verdade. Vou levar a Nena e o Miguel Araújo. Faz todo o sentido ter o 2 Pares de Botas [projeto que Joana Almeirante partilha com Nena] e o Miguel por ser a pessoa com quem eu partilho o palco há muitos anos. E os próximos concertos da tour vão ser exatamente isso. Vão ser para mostrar as novas canções, o novo disco e, acima de tudo, tocar para as pessoas, que é o que eu mais gosto de fazer.