Joana Craveiro traz Palestina ao CCB: "ter esperança também é resistir"

"Exercício de Montagem" está em cena de quinta-feira a domingo no Centro Cultural de Belém.

Um filme encenado que conta como se vive na Palestina através de um "namoro" entre o teatro e o cinema. Esta quinta-feira estreia no Centro Cultural de Belém a peça "Exercício de Montagem". Produzido pela Companhia Teatro do Vestido em parceria com a artista palestiana Tarab junta a narração, encenação, vídeo e som num só palco.

Joana Craveiro, a criadora deste espetáculo, visitou três vezes o território palestiniano: em maio de 2023 -meses antes do acentuar do conflito com a invasão do Hamas a 7 de outubro-, em 2024 e 2026.

Fomos até ao camarim de Joana Craveiro no Centro Cultural de Belém conhecer os caminhos que a trouxeram à criação desta peça. 

Oiça a entrevista:

Entrevista a Joana Craveiro

A peça é feita através de viagens que foram feitas ao local. Pergunto se surge primeiro a viagem ou a ideia para a peça? 

Acho que a viagem surge primeiro. A ideia da peça surge a partir do momento em que há o convite para fazer a viagem e a viagem em si. Como pessoa que trabalha a partir da realidade, muitas vezes as urgências do momento, da história e da memória são matéria de trabalho. Estava lá e não conseguia não fazer nada com essa experiência.

Não numa perspetiva de estetização da dor ou do horror, mas numa perspetiva de amplificação das vozes. Tenho um sítio em que posso amplificar essas vozes, nomeadamente o Centro Cultural de Belém. Como tenho acesso a estas salas, pensei: "por que não usá-las para contar as histórias que as pessoas me contaram a mim?" Porque são histórias que nos contam. Não só a mim, mas a mais pessoas [que fizeram a viagem]. Contaram-nas para que as escutemos e possamos contá-las a outros nesta espécie de corrente de comunicação. A questão é que as histórias dos palestinianos e palestinianas muitas vezes não são contadas. Existe um grande blackout em torno disso, seja pela propaganda ou pela forma como os media ocidentais estão alinhados com certo tipo de narrativa. Eu sentia, quando estava lá, que havia o desejo que as histórias pudessem sair dali, que pudessem sair da nossa esfera pessoal. Fiquei muito impressionada e pensei no que deveria fazer em relação a isso. Pronto. É assim que esta peça nasce. 

Isso foi quando? 

A primeira viagem foi em 2023, em maio. Foi antes de 7 de outubro. Nessa altura, Israel tinha acabado também de fazer uma campanha contra Gaza, havia as dificuldades de sempre na Cisjordânia que decorrem de uma ocupação militar que dura desde 1967. Falo das dificuldades de checkpoints, de escrutínio, da toma de terras sobre as quais hoje sabemos um pouco mais. Vi tudo isso. Foi muito visível quando fizemos a primeira viagem. Depois houve outras viagens em 2024 e em 2026. 

Houve um embate entre as duas viagens? Em 2024 foi de alguma forma diferente? 

Sim, foi diferente. Mas não estive em Gaza. Nunca estive em Gaza. Nós não temos acesso a Gaza. Fomos à Cisjordânia e a Jerusalém Oriental, que não é Cisjordânia. Mas as condições de vida das pessoas pioraram. Sente-se muito mais o desemprego, a quebra do turismo e o aumento da opressão e da repressão.

Mas a ocupação é uma coisa estrutural. Portanto, as coisas que eu vi em 2023 são a base de tudo o que tenho estado a dizer e a tentar amplificar. O apartheid e a ocupação estrutural duram há setenta e cinco anos, embora com diferentes fases e aplicações. Em 1967, houve uma reiteração e extensão da ocupação. Por exemplo, há uma cidade de que nós falamos na peça, que é Hebron, cuja ocupação é de 1977 e não de 1948. Quando os colonos começaram a vir e a cidade foi dividida em duas zonas, onde há realmente um apartheid em que os palestinianos não podem pisar certas zonas da cidade. Isso é de 1967, não é 1948.

Essa coisa estrutural não desaparece, intensifica-se em algumas coisas após o 7 de Outubro, nomeadamente os relatos de uma prisão muito mais violenta, quase campo de tortura e exterminio. Muitos ex-presos relataram isso durante essas viagens. São pessoas que foram presas, detidas administrativamente, sem culpa formada e que ficam seis meses nessa detenção. Sofreram represálias que antes não eram tão graves ou violentas. Há também muito medo e incerteza em relação ao futuro e todo o peso e dor por Gaza. Vimos isso tudo. Vi mais depois de 7 de Outubro, mas este trabalho é também para mostrar que a ocupação não é uma coisa que aconteceu a partir de 7 de Outubro. Havia uma forma de viver e de sobreviver para um palestiniano e uma palestiniana, para este povo que tentei captar com a minha câmera em 2023 sem ter muito bem consciência do que estava a fazer ou para o que é que ia ser.

Esta peça acaba por ser uma manta de retalhos, não só por se construir com as três passagens, mas também por juntar tantas formas de arte diferentes. As projeções que casam com a voz e com as montagens. Como é que se transformam estes pedacinhos numa só peça? 

A ideia base era fazer um filme e nós somos uma companhia de teatro. Por acaso, já fizemos um outro filme, que se chama "Elas também estiveram lá", mas foi feito noutras condições. Não é uma linguagem que nos seja estranha, porque adoramos cinema e muitas pessoas dizem que nós fazemos cinema no teatro. Isso já estava lá. Esse amor ao cinema, esse namorar do cinema.

A partir do momento em que a ideia era fazer um filme, a ideia de montagem surgiu naturalmente. Aliás, o espetáculo chama-se "Exercício de Montagem" porque é uma montagem possível destas imagens. Sempre foi muito claro para mim que se fosse um momento performativo, tinha de decorrer de uma presença humana em cena. É por isso que nós estamos todos em cena: seja as vozes que são feitas ao vivo, seja o editor que também está em cena, o montador do filme, a Diana Ramalho - que faz a montagem da montagem, que está a lidar com outras câmaras em palco e com conteúdos que estão a ser produzidos ao vivo - ou o próprio espaço sonoro, que está a ser feito ao vivo também.

Claro que no futuro poderá ser um filme, que possa chegar a uma sala. Talvez, não sei. Agora fazia-nos todo o sentido estarmos juntos a construir esta experiência que vamos oferecer ao espectador. É uma experiência muito imersiva. Há pessoas que vão escolher estar só com as imagens, abstrair-se do facto de que as vozes estão a ser feitas ao vivo e que há uma voz em árabe e outra em português e vão ler as legendas e ouvir as vozes. Há outras pessoas que se calhar vão estar muito atentas a tudo o que acontece em cena, porque isso também não está invisibilizado. O cenário da Carla Martinez propõe uma experiência de transparência. A tela é transparente e tudo o que está atrás vê-se. 

O que é que a emocionou mais a fazer isto? 

Todos os dias emociono-me com coisas diferentes.

O que me emocionou, acima de tudo, foi a experiência. Foi a impossibilidade de esquecer ou de deixar de ver o que vi. Isso existe até noutro espetáculo que fazemos que é o "Desver". O espetáculo é sobre a ideia de que não se pode desver aquilo que se viu. A partir do momento em que estive na Palestina, vi a segregação, a discriminação e a forma como os palestinianos vivem. Vi a toma de todos os recursos que lhes pertencem, a sua não independência - porque não a têm, nem sequer têm acesso aos próprios recursos. Quer dizer, são tantos níveis de ocupação. A ocupação não é só uma coisa. São as estradas, mas não são só as estradas. É a água também. É muito forte. São todos os direitos. É a moeda que não existe, os tribunais que não existem. É a impossibilidade de viajar livremente - seja no território, seja para o estrangeiro. Portanto, são muitos níveis. Eu nunca mais vou conseguir desver isso.

Rever as imagens, porque todos os dias revejo as imagens e falo sobre o espetáculo, é uma experiência forte. Penso: "sou uma privilegiada porque posso desligar e depois posso ir dormir. Isto não é o meu povo." Mas depois lembro-me daqueles para quem isto é o povo deles. Aliás, nós trabalhamos com uma palestiniana, a Tarab, que está a fazer as narrações comigo. Ela não me deixa esquecer. Só de olhar para a Tarab, sei que não vou desligar ao final do dia, não é? Estamos juntas nisto. Estamos quase a narrar como se não fosse UMA palestiniana, nesse sentido, embora se assuma que somos quase vozes neutras, embora sem nenhuma neutralidade, evidentemente.

Tudo me emociona. Emociono-me muito com uma cena sobre Hebron, que é uma cidade que tem um nível de segregação absoluto. Está dividida em duas zonas, além da própria ocupação normalizada. Existe uma outra ocupação dentro da própria cidade, em que realmente a cidade está dividida em duas zonas, a H1 e a H2. Os Acordos de Oslo dividem o território em três zonas - A, B e C - e isto ainda divide em mais duas zonas. Quando lá vamos temos de passar por não sei quantos checkpoints para chegar à mesquita ou ao centro da cidade. Ficamos a pensar: "mas isto é a vida destas pessoas? Todos os dias tenho que passar estes checkpoints?". De vez em quando estão fechados, nem sequer é possível lá chegar.

Emociono-me com uma frase dita pela Tarab. Ela diz, "será que isto que vou fazer hoje vai libertar a Palestina?" Era uma coisa que uma amiga dizia quando acordava todos os dias. Fazia essa pergunta a si própria. "Será que isto que vou fazer hoje vai libertar a Palestina?" Essa frase emociona-me. Emociona-me as crianças de Masafer Yatta, que é também uma zona que está sob grande ocupação militar, perto de Hebron curiosamente, que pelos acordos de Oslo pertencia à Palestina, mas que está ocupada militarmente há muitos anos. Para irem à escola as crianças tinham de ser acompanhadas por ativistas internacionais, porque nem sequer conseguiam pisar a estrada.

Não sei. Poderia mencionar muitas, muitas partes. Todos os dias, quando penso em cada um dos sítios sinto as lágrimas e verifico que sou humana. Portanto, cada vez que me emociono penso: "pronto, ainda bem que não estou anestesiada, apesar de já ter visto as imagens muitas vezes e de já ter contado estas histórias." Estamos a ensaiar é a repetição, não é? Então, contamos muitas vezes. Ainda bem que ainda tenho a capacidade de me emocionar apesar de já ter dito esta frase não sei quantas vezes e de ter visto as imagens. Porque isto não está certo. Não é assim que as pessoas deveriam viver.

A Joana tem a experiência de quem esteve lá. Ao trabalhar com a Tarab acaba por alastrar a forma como se conta?

Sim, a presença da Tarab, para todos nós, é uma espécie de bússola e de compasso não só moral, mas também real.

Sempre que há algo no texto que a faça sentir desconfortável, ela diz-me. O texto é integralmente escrito por mim a partir de coisas que escutei. A transcrição está lá, mas depois há outros momentos em que se reflete sobre o filme ou sobre o nosso posicionamento. Isso existe. O nosso lugar de fala, o meu lugar de fala.

A Tarab acaba por ser uma espécie de narrador. Viu-se como narrador desta história, no meio disto tudo, trazida por mim. Muitas vezes, é a voz palestiniana que fala comigo, numa perspectiva quase ficcional dentro da feitura do filme. Nós crescemos muito com a presença dela. Guia-me sobre as partes que são mais importantes para ela. Quando tenho dúvidas pergunto, "será que podemos cortar isto?" e ela responde, "não cortes. Esta parte é muito importante." É realmente uma peça fundamental. Apaixonei-me pela voz dela quando a ouvi e a conheci na Palestina. Disse-lhe logo, "vamos fazer filme e tu vais ser a voz em árabe". Ela achou que eu estava a brincar, não é? A verdade é que estamos aqui hoje. Ela ainda sorri quando se lembra que lhe fiz esse desafio.

A voz dela é muito suave e, ao mesmo tempo, profunda. Tem uma grande humanidade. E eu disse logo que tinha de ser esta a voz. Nós temos timbres muito diferentes, vozes muito diferentes e ritmos muito diferentes. Ela fala em árabe, eu falo em português. Eu falo muito depressa. Ela é muito calma, com uma certa neutralidade. Eu venho do teatro, ela não. É uma combinação que, na minha opinião, é também a joia deste espetáculo. Pelo menos, quero acreditar que sim. Como pessoa que está dentro, mas que dirige, sinto que é realmente uma peça fundamental. 

A arte vai ajudar a libertar os palestinos? 

Espero que sim. 

Há esperança? 

A minha bússola são os palestinianos. Os palestinianos nunca perdem a esperança. Então penso assim: "Como é que eu me posso dar ao luxo de perder a esperança na minha casa confortável, no mundo dito ocidental?" É isso que me leva sempre a escavar mais esperança. Na filosofia que pratico, a budista, o meu mestre diz que quando não há esperança, tens que escavar e criar alguma. Os palestinianos para mim são exemplo disso.

Quando falava com eles era tipo: "não, temos esperança". E há uma frase que vai aparecer no fim da peça que é: "Tenho esperança e tenho fé na Palestina". É uma frase enorme. Tenho esperança e tenho fé da Palestina. Se pensarmos na Palestina, afinal que lugar é esse? A Palestina é um lugar, "é uma metáfora", como dizia o Mahmoud Darwish. Não há um estado. É uma ideia e é uma coisa pela qual as pessoas lutam. Existe muito concretamente na vida destas pessoas. Quando a Tarab diz, "eu tenho fé e tenho esperança na Palestina", é um momento que me emociona sempre.

Temos de cultivar, de criar e de escavar a esperança. Temos de ir buscá-la ao fundo, porque em todas as épocas, sempre que há uma ditadura, sempre que há fascismo, sempre que há qualquer coisa que queira dominar os nossos direitos, vão sempre atacar a nossa esperança, o nosso desejo de liberdade e a nossa capacidade de acreditar que um dia seremos livres. Ter esperança também é resistir.

É mais necessário agora lutar por tentar chegar a mais pessoas ou sempre foi?

Sempre foi. É claro que com aquilo que hoje em dia já é considerado um genocídio a acontecer em Gaza e também estendendo-se a tudo aquilo que está a acontecer na Cisjordânia tornou-se como que mais urgente. Sempre foi muito importante. Só que estavámos todos adormecidos para esta causa, porque isso também faz parte da propaganda. As pessoas vão ficando cansadas. Agora as pessoas também continuam cansadas, pensam que houve um cessar-fogo em Gaza - que na prática não se traduz num cessar-fogo, porque todos os dias morrem pessoas. Gaza não está livre.

As pessoas estão muito cansadas e eu sinto que é uma luta muito grande continuar a falar sobre isto, porque como também estamos muito formatados para esta coisa dos soundbytes, não é? "Agora estamos nesta luta. Ah, mas há um cessar-fogo, já não importa. Agora já estamos noutra coisa". Ninguém consegue estar a olhar o horror e sentir-se impotente perante o horror durante muito tempo, ficamos todos deprimidos e se não temos ferramentas nem sequer para entender ou para lutar também não nos dedicamos ao ativismo. Então pensamos: "Bem, eu nem quero ver, porque eu não aguento."

Imagino um pouco o Palestiniano. O que é que a gente vai dizer? Por isso é que eu digo quando reflito sobre os palestinianos, penso: "vais tu ficar a dizer que não aguentas?" Acho que é muito urgente, porque é também um humanity check. Quão humanos é que somos? Que capacidade temos ainda de nos emocionarmos, de termos compaixão, de nos compadecermos e de lutarmos para que outro povo seja livre?

Portugal tem uma história colonial muito forte. Nós fizemos um processo de descolonização. Havia luta de libertação nas nossas ex-colónias. Havia o exército português que lutava contra movimentos de libertação, de pessoas que queriam ser livres. Foi graças à nossa revolução e à sua luta, que levou ao 25 de Abril, que essa independência aconteceu. Nós estamos numa posição de compreender o colonialismo que acontece naquele território. É nisso que eu acredito. Quando estava lá, por causa da nossa história, houve muitas coisas que compreendi. Eu via e pensava: "como é que se faria a descolonização deste território?" Pensava nisto à luz da nossa história. 

"Exercício de Montagem" está em exibição no Centro Cultural de Belém entre quinta-feira a domingo até dia 28 de junho.